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Empresas japonesas usam filmes tristes e choro para 'aproximar' funcionários


5 de outubro de 2016


Empresas japonesas usam filmes tristes e choro para 'aproximar' funcionários


Emily Webb
BBC News

Somos dez pessoas sentadas em uma sala de conferências de um conjunto de escritórios em Tóquio e um homem acaba de colocar em uma seleção de clipes de filmes.

Enquanto a música ecoa de caixinhas de som, uma história de cortar o coração sobre um homem surdo e sua filha começa na tela. A filha sofre com doença terrível e é levada para o hospital. O homem, incapaz de se fazer entender que ele é o pai da moça seu pai, é impedido de passar da recepção do hospital. O filme termina com ele chorando inconsolável, enquanto ela morre sozinha.

O segundo filme - sobre um cachorro à beira da morte - começa e eu ouvi um soluço abafado do outro lado da sala. Minutos depois, à minha direita, começa um "funga-funga" alto. Em 15 minutos, metade dos que estão na sala está olhando para a tela com lágrimas escorrendo pelo rosto.

O homem que exibe os filmes caminha pela sala com um grande lenço de algodão e suavemente limpa as lágrimas do rosto das pessoas. Ele diligentemente redobra o lenço para oferecer um lado seco à próxima pessoa que chora.

"Quando comecei a participar desses workshops, houve alguns momentos bastante constrangedores", diz o homem com o lenço, Ryusei. Ele tem aparência de modelo e leva muito a sério seu trabalho de enxugador de lágrimas.

"Eu tinha pouca prática e, por isso, não podia chorar facilmente. Isso fazia com que o público não chorasse também. Mas estou muito melhor agora, eu consigo chorar e, assim, os outros me seguem", conta.

O trabalho de Ryusei é, de fato, incomum. O nome da profissão em japonês é ikemeso danshi, algo como "meninos bonitos chorando". Ele conduz oficinas com o único propósito de fazer as pessoas chorarem.

"Os japoneses não estão acostumados a chorar na frente das pessoas. Mas, uma vez que você chora na frente dos outros, o ambiente muda, especialmente no mundo dos negócios".

A ideia da estratégia é mostrar vulnerabilidade das pessoas - quando os outros veem esse lado emotivo dos colegas, supõe-se que as pessoas são capazes de estreitar as relações e funcionar melhor como equipe.

A maioria dos filmes que o bonitão exibe na sessão em que participo tem animais doentes ou explora a relação pai-filha e parece ser dirigida às mulheres. Disseram-me que qualquer um pode participar, mas na sessão de hoje só um dos participantes não é do sexo feminino. O único homem é o chefe da empresa que organizou a oficina.

As empresas podem escolher entre uma seleção de diferentes rapazes que choram e secam lágrimas. Um deles é um dentista que atua nessa área nas horas vagas. Há os que secam lágrimas como atividade principal e, para isso, interpretam papeis de ginasta, agente funerário ou engraxate.

O responsável pela oficina do dia é Ryusei, conhecida por ser bonitão mas ligeiramente mais velho que os demais rapazes boa pinta que choram (e secam lágrimas) - os outros têm 20 anos enquanto ele se aproxima dos 40.

Em Tóquio, outras empresas lançaram projetos similares. Sessões de afago não-sexual e de serviços "alugue um amigo" já estão disponíveis na cidade.
As oficinas de choro foram a ideia de Hiroki Terai - ele é um homem de negócios determinado a fazer com que os japoneses expressem suas emoções: "Eu sempre tive interesse nas sagas ocultas dos seres humanos", diz ele.

Tudo começou quando Terai tinha 16 anos de idade. Sem amigos na escola, ele fazia o lanche sozinho, trancado no banheiro. Foi um momento difícil: "Foi ai que eu comecei a querer saber mais sobre as emoções reais das pessoas - na superfície elas estão sorrindo, mas nem sempre é como estão se sentindo".

O primeiro projeto de Terai foi promover cerimônias de divórcio para casais cujos casamentos chegaram ao fim. "O clímax da cerimônia era esmagar o anel de casamento com um martelo", explica.

Os casais lhe relatavam que o choro era o momento mais catártico. Assim, em 2013, Terai decidiu criar um negócio para fazer pessoas chorarem. Passou a oferecer oficinas abertas a todos em Tóquio.

"As pessoas vinham para chorar juntas. Depois que gritavam, diziam se sentir muito bem depois", diz ele. "O único problema era a percepção de homens que choravam. As pessoas pensavam que eles eram chorões ou fracos."


A solução de Terai

Para tentar afastar essa imagem de fracos e chorões, Terai passou a organizar oficinas do choro lideradas por homens bonitos. A ideia era mostrar que os "boa pinta" também choram e usá-los para fazer outras pessoas irem às lágrimas.

Eu pergunto por que os homens precisam ter boa aparência. Ele dá de ombros e diz: "Eu acho que é porque é muito diferente da vida diária", diz ele. "É emocionante."

As pessoas podem se surpreender com a própria reação aos filmes exibidos nas sessões do choro. "Eu pensei que não iria chorar, mas chorei muito", admite Terumi, uma comediante que está fazendo um documentário sobre esse tipo de oficinas.

Foram os clipes do pai e da filha que a comoveram: "Meu pai ainda está vivo, mas eu tenho mais de 30 anos... e, ainda hoje, eu, às vezes, não me comporto bem diante do meu pai", diz com um riso nervoso. "Bateu um arrependimento", admite.

Nem todo mundo fica tão comovido quanto a comediante e documentarista. Com um olhar bastante desconfiado, Uria, uma funcionária do escritório, pergunta: " É para dizer a verdade?" Ao ouvir que sim, ela diz: "Honestamente, não estou interessada neste tipo de filme. Foram cinco ou seis filmes, muitas pessoas morreram. Eu não gosto disso! Eu não acho que comove. Não me emocionou".

Toda a premissa do negócio de Hiroki Terai gira em torno da ideia de que os japoneses não choram o suficiente. Pergunto se é um estereótipo, mas a maioria dos participantes da oficina parecem concordar.

"Os japoneses não são realmente bons em expressar suas emoções", diz Terumi, que está fazendo o documentário. "As pessoas que trabalham em empresas não costumam revelar muito suas opiniões ou sentimentos", completa ela.

E é isso que motiva Hiroki Terai, o fundador da empresa. "Quero que fazer os japoneses chorarem mais", diz ele com uma empolgação genuína. "Quero isso não só em casa, mas no escritório. Se chora no trabalho, acha que os colegas não vão querer oferecer conforto - há uma imagem muito negativa do choro".

Terai acredita que compartilhar emoções melhora o ambiente de trabalho. "Depois de chorar e deixar as pessoas verem sua vulnerabilidade, você pode se relacionar melhor com as pessoas e isso também é bom para a empresa", argumenta o criador das oficinas do choro.

Depois que deixei aquela sala, pensei sobre o a noite surreal. Não chorei como fizeram os japoneses que participaram da sessão. No entanto, se estivesse focada nos filmes (e não nas reações das pessoas ao meu lado), acho que eu poderia ter ido às lágrimas.

Mas fiquei no fundo da sala, tentando captar ruídos de choro para meu programa na rádio. De fato, não é um comportamento muito propício para chorar.

Notícia publicada na BBC Brasil, em 26 de agosto de 2016.


Breno Henrique de Sousa* comenta

Cultura Japonesa e Isolamento Social

Em um mundo globalizado, onde as distâncias são encurtadas pela tecnologia, pelo turismo e pelo comercio internacional, torna-se cada dia mais frequente o contato com outras culturas, bem como o interesse ou a admiração diante das diferenças existentes entre os povos.

Interpretar outras culturas a partir do nosso contexto é uma estratégia arriscada que pode resultar em estereótipos e preconceitos. Foi sob esse critério que procurei analisar a reportagem, pois a notícia enfatiza apenas o aspecto curioso ou – para nós – exótico da situação, sem a preocupação de explicar um pouco do contexto cultural em que ela se apresenta. Pensando nisso, eu que não conheço a cultura japonesa, pesquisei um pouco sobre o tema, inclusive em artigos acadêmicos, mas, fiquem tranquilos porque eu não pretendo fazer uma enfadonha análise sobre o assunto, até porque esse não é o contexto dos nossos comentários, mas apenas oferecer outras possibilidades de reflexão.

Diante de culturas e tradições muito diferentes, assim como das diferentes formas de expressar as emoções, nos perguntamos se as emoções são da natureza humana ou aprendidas socialmente. Por que alguns povos parecem mais frios nas relações humanas? Para responder essas questões, especialmente no contexto da cultura japonesa, destaco um trabalho interessante que encontrei da pesquisadora Daniela de Carvalho.(1)

Através de uma breve revisão literária, Daniela deixa claro que existe uma base comum na forma que os povos e civilizações expressam suas emoções; por exemplo, medo, alegria, surpresa e ira podem ser expressas facialmente e por tonalidades vocais comuns a todos os povos, mesmo que existam diferenças culturais na forma de expressar essas emoções. A manifestação das emoções básicas através de uma linguagem corporal é da natureza humana, mas existem diferenças culturais significativas na interpretação emocional de situações sociais. Isso nos permite entender que todos os seres humanos tem uma base comum que lhes permite sentir e reagir emocionalmente, mas a forma de exprimir essas emoções e a carga emocional que pomos em situações sociais específicas muda para cada povo.

Ao longo do trabalho, fica claro que os japoneses têm emoções como qualquer povo, mas expressam menos essas emoções, sobretudo publicamente. Em geral os japoneses falam menos sobre suas emoções, apresentam menos expressões faciais que denunciem suas emoções, movimentos corporais e até mesmo menos reações fisiológicas, algo que é culturalmente aprendido desde a infância e ocorre de forma automática. Da mesma forma, os japoneses parecem menos hábeis para identificar expressões faciais que sinalizem emoções negativas como medo e raiva.

Na sociedade japonesa existe uma supervalorização da harmonia social, das regras do convívio em sociedade, a harmonia, a obediência, de maneira que as relações sociais são marcadas pela delicadeza e boas maneiras; dessa forma, eles acreditam que a expressão de sentimentos negativos pode afetar essa harmonia social. Dizem outros textos que essa reverência à harmonia social está muito relacionada com o contexto geográfico de uma sociedade milenar que se desenvolveu em uma ilha, em um contexto de interdependência, onde essa harmonia social sempre foi fundamental para a sobrevivência coletiva.

Nessa sociedade sentimentos como a vergonha tem peso muito maior do que a culpa, pois a vergonha é social e a culpa é íntima, própria de sociedades individualistas como as sociedades ocidentais. A sinceridade não é um valor ético no Japão, onde é mais importante mostrar-se reservado e estar atento à comunicação não verbal.

Por isso, muitos escritores fazem uso do conceito Honne (本音) e Tatemae (建前).(2) Honne se refere ao nosso verdadeiro sentimento íntimo e Tatemae se refere ao que expressamos socialmente, ou quando ocultamos o sentimento verdadeiro em benefício da harmonia social.

É bem verdade que nós mesmos – ocidentais – adotamos um comportamento diante da sociedade que não corresponde àquele que adotamos em nossa vida íntima, mas em nossa sociedade a sinceridade é mais valorizada como uma qualidade e isso nos permite manifestar socialmente nossos sentimentos de maneira mais livre. Essa característica da sociedade japonesa e a forte expectativa social gera grande pressão, mas existem formas socialmente aceitas de libertar a tensão emocional. As expressões literárias e representações dramáticas emocionalmente carregadas podem ser vistas como catárticas da tensão derivada da repressão da agressividade e outras emoções negativas.

Assim fica mais fácil entender o sucesso dessa “terapia” corporativa, pois ela permite justamente a expressão catártica das emoções aliviando as tensões resultantes do autocontrole excessivo e a forte expectativa social. Ao aliviar as tensões, isso se reflete de maneira positiva no ambiente de trabalho e nas relações interpessoais.

Mas o que dizer sobre as regras da sociedade que exercem pressão sobre os indivíduos? Os costumes não podem resultar em uma forma de tensão e sofrimento? O que fazer se somos vítimas de regras e normas sociais que nos provocam desconforto ou sofrimento? Vejamos o que diz O Livro dos Espíritos sobre esse assunto:

863. Os costumes sociais não obrigam muitas vezes o homem a enveredar por um caminho de preferência a outro e não se acha ele submetido à direção da opinião geral, quanto à escolha de suas ocupações? O que se chama respeito humano não constitui óbice ao exercício do livre-arbítrio?

“São os homens e não Deus quem faz os costumes sociais. Se eles a estes se submetem, é porque lhes convêm. Tal submissão, portanto, representa um ato de livre-arbítrio, pois que, se o quisessem, poderiam libertar-se de semelhante jugo. Por que, então, se queixam? Falece-lhes razão para acusarem os costumes sociais. A culpa de tudo devem lançá-la ao tolo amor-próprio de que vivem cheios e que os faz preferirem morrer de fome a infringi-los. Ninguém lhes leva em conta esse sacrifício feito à opinião pública, ao passo que Deus lhes levará em conta o sacrifício que fizerem de suas vaidades. Não quer isto dizer que o homem deva afrontar sem necessidade aquela opinião, como fazem alguns em que há mais originalidade do que verdadeira filosofia. Tanto desatino há em procurar alguém ser apontado a dedo, ou considerado animal curioso, quanto acerto em descer voluntariamente e sem murmurar, desde que não possa manter-se no alto da escala.”

O progresso das sociedades promove a mudança dos costumes sociais que gradativamente expurga ou transforma costumes opressores. Aos poucos, com o progresso intelectual e moral, as sociedades tornar-se-ão mais fraternas, abertas, éticas e humanas. De momento, o contato com outras sociedades e culturas deve-nos permitir uma análise de nossa própria cultura a fim de trabalhar seus aspectos negativos, livrando-nos daqueles hábitos e costumes que refletem a vaidade e o egoísmo.

As culturas com seus costumes e tradições possuem seus aspectos positivos e negativos. Nenhuma sociedade está isenta de contradições e de situações que provoquem tensões sociais e sofrimentos individuais. A oportunidade de ter contato com as diferenças talvez seja nossa salvação, pois na diversidade aprendemos e ensinamos. Por isso não convém denigrir a cultura de nenhum país e nem mesmo menosprezar a própria cultura.


Referências:

(1) CARVALHO, D. Psicologia Educação e Cultura 2003, vol. VII, nº 2, pp. 341-358;


* Breno Henrique de Sousa é paraibano, professor da Universidade Federal da Paraíba nas áreas de Ciências Agrárias e Meio Ambiente. Está no movimento Espírita desde 1994, sendo articulista e expositor. Atualmente faz parte da Federação Espírita Paraibana e atua em diversas instituições na sua região.