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Afinal, é possível ouvir os mortos?

13 de julho de 2016



Afinal, é possível ouvir os mortos?



Sílvia Lisboa, da Superinteressante


Chico Xavier doou todos os direitos autorais dos mais de 400 livros que escreveu em vida. O gesto não era apenas generosidade do médium. Ele dizia que não havia escrito nenhum livro. “Eles escreveram”, repetia.


De acordo com a ciência, Chico não poderia falar com os mortos, claro. Tudo teria sido produzido pelo seu próprio cérebro. Se ele ouvia vozes, eram vozes produzidas por sua mente.


Afinal, a ciência mostra que a consciência (a mente, ou a alma) é fabricada pelo cérebro e está confinada nele. Ou seja, quando o corpo morre, a consciência desaparece.


Não existem hipóteses científicas que sustentem a concepção de algum tipo de alma que sobreviva à morte.


Mas, diante do acúmulo de casos como o de Chico Xavier, que não foi explicado pelas leis da natureza ou considerado categoricamente como fraude, um grupo de cientistas decidiu questionar a ciência - e não os médiuns.


A conclusão dos pesquisadores está no livro Irreducible Mind (“Mente Irredutível”, sem tradução para o português).


A obra parte da lógica de que fenômenos como a mediunidade, a telepatia e experiências de quase-morte são indícios de que o modelo teórico vigente nos meios científicos é incompleto.


Os autores defendem uma mudança na forma de encarar casos como o de Chico: tirá-los do campo do folclore e da superstição e analisá-los. Hoje, são ignorados.


Para o grupo coordenado pelo psiquiatra da Universidade da Virgínia (EUA) Edward Kelly, a ciência vem ignorando um princípio científico básico, o da “falseabilidade”, defendido pelo filósofo Karl Popper.


Popper dizia que era muito fácil - e perigoso - ficar catando evidências favoráveis para defender uma tese. Difícil era encontrar o argumento que a desmontaria de vez.


Para Popper, todo cientista sério deveria estar sempre procurando um furo na sua tese - e não o contrário.


Kelly e seus colegas defendem que a mediunidade pode ser um desses furos - e pode desvendar o mistério da consciência, que instiga filósofos e cientistas há mais de 2 mil anos.


Eles acreditam que parte do problema está em considerar mente e cérebro uma coisa só. Em Irreducible, os pesquisadores propõem que o cérebro seja encarado como um aparelho de TV.


A consciência seriam seus programas. Um defeito na TV pode alterar a qualidade da imagem, mas não necessariamente o conteúdo dos programas - eles não existem apenas dentro daquele aparelho.


Ou seja, sem a TV, não podemos enxergar nosso seriado favorito, mas ele existe mesmo assim. Só não pode ser assistido.


Funcionaria de um jeito parecido com a consciência: dependemos do cérebro para percebê-la, mas ela não está, segundo a proposta, confiada dentro do aparelho (o cérebro).


E isso garantiria sua sobrevida além do corpo, abrindo a possibilidade de explicar a ideia de que a consciência segue vagando por aí após a morte e pode se comunicar com os outras consciências, vivas ou não.


Kelly e os colegas não sabem dizer se estão certos nem têm provas irrefutáveis a favor dessa concepção. Eles oferecem a hipótese apenas para sensibilizar seus colegas da psicologia e da neurociência.


Querem que os cientistas tradicionais questionem suas convicções e prestem mais atenção em fenômenos hoje ignorados, como a mediunidade.


Os argumentos a favor dessas teorias ganham força com alguns estudos, como uma pesquisa publicada há dois anos na prestigiada revista científica Plos One.


Em parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora e com a Universidade da Pensilvânia, o psicólogo e neurocientista Julio Peres, da USP, viajou aos Estados Unidos com dez médiuns brasileiros.


Os voluntários eram destros e tinham entre 15 e 47 anos de experiência mediúnica - cada um com, em média, 18 psicografias por mês. Nenhum deles tinha transtorno mental diagnosticado.


No Centro de Radiologia e Medicina Nuclear da Universidade da Pensilvânia, na Filadélfia, os voluntários receberam uma substância radioativa para captar a atividade cerebral por meio de um exame de imagem chamado spect.


Peres e Andrew Newberg, o cientista americano conhecido por estudar o cérebro de freiras rezando e monges em meditação, avaliaram as diferenças nas imagens do cérebro dos voluntários em dois momentos: durante a psicografia e fora do estado de transe, escrevendo um texto comum, de autoria “própria”.


Os resultados mostraram uma diferença significativa. Em transe, enquanto supostamente escreviam guiados pela voz ou pela mão dos espíritos, os médiuns apresentaram níveis mais baixos de atividade no lobo frontal, que está associado à razão, à linguagem e ao planejamento.


“Esse resultado possivelmente reflete a ausência de consciência na psicografia”, explica Peres. Enquanto escreviam normalmente, essas regiões cerebrais, que costumam estar alertas durante uma tarefa intelectual, como a escrita, voltavam ao normal.


Os cientistas resolveram, então, comparar o conteúdo dos dois textos. Se era verdade que o cérebro estava com a capacidade de raciocínio limitada durante a psicografia, os pesquisadores levantaram a hipótese de que os textos produzidos em transe refletissem isso e fossem mais pobres.


Para a surpresa geral, ocorreu justamente o contrário. O conteúdo das psicografias era mais complexo e elaborado do que os textos feitos em estado pleno de consciência.  Entre os médiuns mais experientes, essa variação era ainda mais perceptível.


“Os médiuns referem que ‘a autoria dos textos psicografados foi dos espíritos comunicantes e não pode ser atribuída a seus próprios cérebros’. Essa é, sim, uma hipótese plausível entre as várias possibilidades de compreendermos esses primeiros achados”, diz Peres.


Opiniões à parte, o estudo tem pelo menos uma conclusão clara: mesmo que tudo seja obra da mente dos médiuns, como diz a ciência, boa parte deles não tem consciência disso.


Matéria publicada na Revista Exame, em 17 de junho de 2016.



Jorge Hessen* comenta


O pesquisador materialista afirma que a consciência humana (ou o espírito) é resultante exclusivo das funções cerebrais e está confinada no crânio. Para ele, quando o corpo morre, a consciência (ou o espírito) desaparece. A rigor, não existem proposições científicas academista que apóiem a sobrevivência da alma após a morte e muito menos a comunicação dos mortos.


Contudo, diante do acúmulo de fatos a exemplo da sensibilidade extrafísica de Chico Xavier, que não foram explicados pelas leis da natureza ou foram analisados algumas vezes como fraude, um grupo de cientistas metafísicos resolveu interrogar a ciência - e não os médiuns. A conclusão desses cientistas  está contida no livro Irreducible Mind. A obra parte da lógica de que fenômenos como a mediunidade, a telepatia e experiências de quase-morte são indícios de que o velho modelo teórico vigente nos meios academistas é incompleto.(1)


Para o psiquiatra da Universidade da Virgínia (EUA), Edward Kelly, a ciência vem ignorando um princípio científico básico, o da “falseabilidade ou refutabilidade”, ou seja, todo cientista sério deveria estar sempre procurando um vácuo na sua tese - e não o contrário. Para Kelly a mediunidade pode ser um desses vácuos, por isso é plausível desvendar o mistério da consciência, que instiga filósofos e cientistas há milênios.(2)


Os pesquisadores clássicos acreditam que parte do problema está em considerar mente e cérebro uma coisa só. Porém, Edward Kelly propõe que o cérebro seja encarado como um aparelho de TV. A consciência seriam seus programas. Um defeito na TV (cérebro) pode alterar a qualidade da imagem, mas não o conteúdo dos programas (consciência).  Ou seja, sem a TV, não podemos enxergar nosso seriado favorito, mas o seriado existe mesmo assim. Só não pode ser assistido. Funcionaria de um jeito parecido com a consciência: dependemos do cérebro para percebê-la, mas ela não está, segundo a proposta, encarcerada dentro do aparelho (cérebro).(3)


Essa realidade garantiria sobrevida da consciência além do corpo, abrindo a possibilidade de explicar a ideia de que a consciência segue vagando por aí após a morte e pode se comunicar com os outras consciências, vivas [encarnadas] ou não.(4) Kelly propõe que os cientistas tradicionais questionem suas convicções e prestem mais atenção em fenômenos hoje ignorados, como a mediunidade.


Por quanto tempo filósofos, cientistas e religiosos têm ponderado o que acontece após a morte? Existe vida após a morte, ou nós simplesmente desaparecemos no grande desconhecido? Embora corpos individuais estão destinados a autodestruição, o sentimento vivo, a consciência, o "quem sou eu?" - É uma fonte de baixa voltagem de energia operando no cérebro. Mas esta energia não desaparece com a morte. Uma dos mais seguros axiomas da ciência é que a energia nunca morre; ela pode ser criada mas não destruída".(5)


Não existiríamos sem a consciência, aliás nada poderia existir sem consciência. Pesquisadores recordam que a morte não existe em um mundo sem espaço atemporal. Não há distinção entre passado, presente e futuro. É apenas uma ilusão teimosamente persistente. A imortalidade não significa uma existência perpétua no tempo sem fim, mas reside fora de tempo completamente.(6)


Articulam alguns acadêmicos que a consciência é um produto da atividade cerebral, que surge para dar coerência às nossas ações no mundo. O cérebro toma a decisão por conta própria e ainda convence seu “titular” que o responsável foi ele. Assim sendo, somos um só: o que é cérebro também é mente. A sensação de que existe um eu que habita e controla o corpo é apenas o resultado da atividade cerebral que nos ilude. Então não há nenhum “espírito” na máquina cerebral.


Será mesmo? É óbvio que as muitas deduções dos múltiplos experimentos da neurociência reducionista são ardis da ficção. "A mente tem a dinâmica de um mosaico de luzes que se projetam pela consciência, que se contrai ou expande diante do que nos emociona."(7) Desse Universo abstrato "emanam as correntes da vontade, determinando vasta rede de estímulos, reagindo ante as exigências da paisagem externa, ou atendendo às sugestões das zonas interiores."(8)


Há estudos consistentes que comprovam a total impossibilidade de se medir com precisão o tempo entre o estímulo cerebral e o ato em si, o que, aliás, já derruba todas as precipitadas teses materialistas. A consciência e a inteligência não são um curto-circuito nem o subproduto casual do intercâmbio de quaisquer neurônios. Enquanto a ciência demorar-se abraçada à matéria e não alcançar a dimensão do que não pode palpar, ver e ouvir, ficará ainda extremamente distante de tanger as imediações da verdade que investiga.


O atributo essencial do ser humano é sem dúvida a inteligência, mas a causa da inteligência não reside no cérebro humano, mas sim no ser espiritual que sobrevive ao corpo físico e pode se comunicar com o homem encarnado. Graças ao Espiritismo, no seu aspecto filosófico e experimental, está sendo possível construir a sólida ponte sobre o abismo que separa matéria e espírito. Os mortos podem ser ouvidos. Todo brado de coroados “nobeis” de ciência alça a sua voz para nos expressar a morte da matéria.


Já é tempo de nos instruir ante os ensinos da ciência pós-mecanicista dos séculos passados e de nos livrarmos da camisa de força que o materialismo do século XIX infligiu aos nossos julgamentos filosóficos. Neurocientistas, “químicos e físicos, geômetras e matemáticos, erguidos à condição de investigadores da verdade, são hoje, sem o desejarem, sacerdotes do Espírito, porque, como consequência de seus porfiados estudos, o materialismo e o ateísmo serão compelidos a desaparecer, por falta de matéria, a base que lhes assegurava as especulações negativistas.”(9)



Referências bibliográficas:


(1) Disponível em http://exame.abril.com.br/tecnologia/noticias/afinal-e-possivel-ouvir-os-mortos>, acessado em 10/07/2016;


(2) Idem;


(3) Idem;


(4) Idem;


(5) Disponível em http://interligadonoticias.blogspot.com.br/2016/05/cientista-faz-revelacao-fantastica.html?m=1>, acessado em 10/07/2016;


(6) Idem;


(7) Facure, Nubor Orlando. Operações Mentais e como o Cérebro Aprende, disponível no Site www.geocities.com/Nubor_Facure>, acessado em 22/03/2013;


(8) Xavier, Francisco Cândido. No Mundo Maior, Ditado pelo Espirito André Luiz, RJ: Ed. FEB, 1997, cap. 4;


(9) Xavier, Francisco Cândido. Nos domínios da Mediunidade, Ditado pelo Espírito André Luiz, “prefácio” do Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1999.


* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal aposentado do INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.