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Bilionário russo quer transferir seu cérebro para computador e 'imortalizá-lo'


6 de abril de 2016


Bilionário russo quer transferir seu cérebro para computador e 'imortalizá-lo


"Nos próximos 30 anos, farei com que todos nós possamos viver para sempre".

A ambiciosa frase é do bilionário russo Dmitry Itskov, que promete dedicar seu tempo e fortuna para o projeto de transferir mentes humanas para um computador.

"Estou 100% confiante de que isso vai acontecer, ou não teria iniciado tudo isso", explica Itskov, de 35 anos, que diz ter deixado o mundo dos negócios para se dedicar ao que ainda soa como um filme de ficção científica.

A morte é inevitável, pelo menos até agora, porque as células que formam nosso corpo perdem a capacidade de regeneração à medida que envelhecemos, o que nos deixa mais vulneráveis a doenças cardiovasculares e outras condições relacionadas ao processo de envelhecimento.


Computador

Itskov está investindo parte de sua fortuna em um plano que concebeu para tentar "driblar" a passagem do tempo. Ele quer usar a ciência para desvendar os segredos do cérebro humano e fazer o upload para um computador, o que livraria a mente de indivíduos das restrições biológicas do corpo.

"O objetivo final é transferir a personalidade da pessoa para um corpo completamente novo", explica o russo, fã de ficção de científica.

Mas como ele planeja tornar o plano realidade?

O neurocientista Randal Koene, que já trabalhou no Centro de Estudos da Memória e do Cérebro da Universidade de Boston (EUA), é o diretor científico do projeto de Itskov e ridiculariza sugestões de que o russo teria perdido a noção de realidade.

"Toda a evidência que temos até agora parece dizer que (a transferência) é possível. É extremamente difícil, mas é possível. Sendo assim, você pode até dizer que alguém como Itskov é um visionário, mas não louco. Porque isso implicaria pensar que se trata de algo impossível", diz Koene.

A possibilidade teórica a que Koene se refere está baseada em como nossos cérebros funcionam - algo que a ciência ainda não respondeu.

Nossos cérebros são feitos de 86 bilhões de neurônios, células que enviam informações umas às outras por meio de descargas elétricas. Mas como o cérebro gera a mente ainda é um dos maiores mistérios da ciência, de acordo com o neurobiólogo Rafael Yuste, da Universidade Colúmbia (EUA). "O desafio é exatamente como sairmos de uma conjunção de células conectadas no interior do cérebro para o mundo mental - pensamentos, memórias e sentimentos", explica.

Para tentar desvendar esse mecanismo, muitos cientistas tratam o cérebro como um computador. Nessa analogia, o computador recebe dados (informações sensoriais) e os transforma em resultados (comportamentos) por meio de cálculos. Este é o argumento que norteia a possibilidade teórica de transferência da mente. Se o processo cerebral pudesse ser mapeado, poderia ser possível copiar o cérebro em um computador, juntamente com a mente criada por ele.

Isso é o que pensa Ken Hayworth, neurocientista que durante o dia mapeia cérebros de ratos no Centro de Pesquisas Janelia, nos EUA, e à noite lida com o problema de como fazer o upload de suas mentes. Hayworth acredita que o mapeamento do conectoma - a complexa rede de conexões entre neurônios - é a chave para a solução do problema, pois é da opinião de que elas contêm as informações que fazem de nós o que somos.

"Da mesma maneira que meu computador é apenas uns e zeros e um disco rígido (a linguagem binária), e eu não me importo com que acontecer desde que esses uns e zeros passem para o próximo computador, deveria ser a mesma coisa comigo", diz Hayworth.

"Não me importo se meu conectoma está implantado em meu corpo ou em um computador controlando um robô".

O pesquisador, porém, é realista. "Infelizmente, estamos muito distantes de um mapeamento do conectoma humano. Para se ter uma ideia, para mapearmos o cérebro de uma mosca, podem ser necessários até dois anos. Com a tecnologia de que dispomos hoje, mapear inteiramente um cérebro humano é impossível".

E há ainda outro desafio teórico. Mesmo que pudéssemos criar um diagrama da "fiação" do cérebro humano, a transferência da mente para um computador iria requerer a leitura constante da atividade dos neurônios.

Nessa área, Itskov pode obter uma ajuda inesperada, segundo Rafael Yuste, que ajudou a desenvolver o maior projeto do mundo em neurociência - o Brain Initiative, um programa de US$ 6 bilhões criado para estudar doenças cerebrais como o Alzheimer. Como parte do projeto, Yuste quer monitorar a interação contínua de neurônios. "Queremos medir todas as emissões de neurônios de uma vez e ao mesmo tempo".

Este ângulo não se baseia no mapeamento do conectoma. Em um estudo que ainda não foi publicado, Yuste diz que pela primeira vez conseguiu visualizar as "faíscas elétricas" em um dos mais simples sistemas nervosos que conhecemos - o de um pequeno invertebrado chamado hidra. "Foi bem empolgante. Mas ainda não podemos dizer o que esses padrões significam. É como escutar uma conversa em uma língua estrangeira que não entendemos".

Nos próximos 15 anos, Yuste espera conseguir fazer o mesmo, além de interpretar a atividade dos neurônios em um cérebro de rato. Mas o objetivo máximo é ler a atividade do cérebro humano.

"Se o cérebro fosse um computador, você precisaria primeiro decifrar a mente ou fazer uma espécie de download antes de pensar em transferi-la. Então, penso que a Brain Initiative é um passo necessário para que isso aconteça".

Ainda assim, Itskov tem um longo caminho pela frente - e é visto por muitos com ceticismo. Na Universidade Duke, o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis argumenta que a complexidade do cérebro humano não pode ser replicada. "Você não tem como codificar intuição, beleza, amor ou ódio. Não há como algum dia vermos um cérebro humano reduzido a um meio digital", afirma Nicolelis.

Yuste concorda que não há certeza sobre o funcionamento do cérebro e sua transferência para uma máquina. Ao mesmo tempo, porém, ele aponta para o fato de que a neurociência ainda não conseguiu explicar exatamente como o cérebro deu origem ao que somos para recomendar que a sociedade debata as consequências de um sucesso da empreitada de Itskov.

"O caminho que leva à maior compreensão do cérebro é o mesmo que pode, teoricamente, resultar na possibilidade do upload da mente. Os cientistas envolvidos nesses processos têm a responsabilidade de pensar nisso".

A justificativa é que, se possível, a transferência seria uma forma de clonagem de mentes. Mas Itskov diz não estar preocupado com questões éticas.

"Darei a mesma opinião que me foi dada por ninguém menos que o (líder budista) Dalai Lama quando o visitei, em 2013. Ele me disse que você pode fazer qualquer coisa se sua motivação for ajudar as pessoas", diz o bilionário russo.

Yuste, que faz parte do conselho ético do Brain Initiative, está convencido de que a transferência de mentes é um tópico que deve ser discutido cuidadosamente. Mas Itskov já está fazendo planos para sua vida eterna. "Imagino-me tendo vários corpos, um deles vivendo no espaço, e outro funcionando como um holograma, com minha consciência simplesmente se movendo de um lugar para o outro".

Estima-se que 107 bilhões de pessoas morreram antes de nós. À medida que nosso entendimento sobre o cérebro avançar nas próximas décadas, ficará mais claro se Itskov é um visionário ou mero sonhador.

Notícia publicada na BBC Brasil, em 14 de março de 2016.


Claudio Conti* comenta

Visionários sempre existiram em todas as épocas da humanidade; alguns trazendo ideias sensatas, outros nem tanto. Todavia, poderíamos, talvez, dizer que existe uma contribuição efetiva para o progresso da humanidade na grande maioria dos casos.

Considerando o avanço na esfera do conhecimento, tanto da neurociência quando da computação, este projeto poderá trazer benefícios em decorrência do entendimento alcançado sobre o funcionamento do cérebro, possível fruto de toda a pesquisa em andamento, assim como do desenvolvimento de equipamentos mais potentes e sistemas computacionais mais complexos.

Todavia, analisando o procedimento em andamento à luz da Doutrina Espírita, pode-se concluir que o resultado final desejado não será alcançado, pois a mente não é um subproduto do cérebro, sendo este apenas o seu órgão principal, não único, de exteriorização. No espírito reside a potencialidade de elaboração e desenvolvimento da função espiritual que é a mente.

Ainda segundo a lógica espírita, considerando apenas o produto desejado com a pesquisa, é um trabalho em vão, não apenas pela impossibilidade de transferir a mente para uma máquina, mas porque a imortalidade já é inerente ao ser. Assim, podemos dizer que eles já possuem o que almejam com tanto fervor.

Analisando o procedimento pretendido, isto é, transferir a mente de uma pessoa para uma máquina, parece inviável inclusive sob um visão estritamente científica.

A Física Quântica vem demonstrando cada vez mais a intima relação entre os fenômenos materiais com o observador, isto é, existe uma interação entre a mente dos seres vivos, não apenas a humana, com os eventos físicos. Desta forma, ficaria difícil de imaginar a possibilidade de algo que é influenciado pela mente ser o seu próprio meio de “armazenamento”, parece muito com a cena do cão correndo atrás do rabo.

Independentemente de qualquer coisa, verifica-se a necessidade humana de perpetuar a própria existência. Tal necessidade pode ser interpretada pelo sentimento inato de que a vida não se apaga no momento da morte do corpo e, por isso, sem saber direito como, busca os meios para a imortalidade. Infelizmente, para muitos, esta busca ainda é de natureza material. Quando se estabelecer a noção de que o necessário é buscar condições adequadas no pós-morte, a paz e a fraternidade deverão reinar na Terra.

* Claudio Conti é graduado em Química, mestre e doutor em Engenharia Nuclear e integra o quadro de profissionais do Instituto de Radioproteção e Dosimetria - CNEN. Na área espírita, participa como instrutor em cursos sobre as obras básicas, mediunidade e correlação entre ciência e Espiritismo, é conferencista em palestras e seminários, além de ser médium pscógrafo e psicifônico (principalmente). Detalhes no site www.ccconti.com.