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'Pais não educam', diz professor que sobreviveu a cinco tiros de aluno


4 de maio de 2015



'Pais não educam', diz professor que sobreviveu a cinco tiros de aluno insatisfeito com nota



Camilla Costa
Da BBC Brasil em São Paulo


A carreira do professor de Biologia sergipano Carlos Christian Gomes, de 33 anos, foi interrompida por um episódio trágico em agosto de 2014. Insatisfeito com a nota de uma prova, um aluno, de 17 anos, disparou cinco tiros contra o professor.

"Não consigo entender como, por um motivo tão fútil, ele tentou tirar minha vida", disse à BBC Brasil.

Christian, que também é biomédico, lecionava em uma escola da rede estadual na grande Aracaju, em Sergipe. Uma semana após o incidente, o aluno se entregou à polícia e confessou o crime. Ele foi condenado e deve cumprir pena máxima de três anos em uma unidade de correção de menores. O professor está paraplégico e recebe tratamento para superar o trauma físico e psicológico.

Apesar de ter sido vítima de agressão pela primeira vez – em dez anos como professor da rede estadual de ensino –, Christian diz que ameaças verbais a professores são comuns e afirma que a falta de participação dos pais contribui para violência nas escolas.

"Muitos pais dizem que trabalham o dia todo e deixam a responsabilidade de educar pra a gente. Mas, se os pais não educaram, não vou conseguir educar em um semestre", disse.

"Um exemplo típico é um pai ou mãe não orientar seus filhos a estudar para as provas e fazer suas tarefas de casa. Quando chegam à escola, eles são cobrados e não aceitam essa cobrança porque, em casa, onde deveria ser educado, ele não cumpre suas obrigações."

A violência contra os professores foi tema de uma série de reportagens da BBC Brasil em preparação para as eleições de 2014. O caso do professor foi destacado por leitores em nossas páginas de redes sociais como um símbolo do problema.

O tema ficou ausente dos debates entre candidatos aos governos estaduais e à Presidência, mas casos como o de Christian continuaram surgindo no noticiário. Na semana passada, a diretora de uma escola pública em Belo Horizonte foi agredida por um aluno de 16 anos com uma barra de ferro.

Há cerca de um mês, outra diretora, dessa vez de uma escola em São Paulo, teve de se afastar do trabalho após ter sido agredida pelo pai de um aluno, que a deixou com hematomas no braço.


Longe da sala de aula

Em dezembro, cerca de três meses depois do incidente que deixou Christian paraplégico, outro aluno entrou armado no mesmo colégio, a Escola Estadual Professora Olga Barreto, em São Cristóvão, na grande Aracaju.

De acordo com a mídia local, o aluno ameaçou um colega de morte, mas deixou a escola antes que a polícia chegasse.

"Quando o caso passou na televisão aqui em casa, eu comecei a tremer e a chorar. Nunca fui assim, nunca fui tão emotivo", contou.

Após 78 dias no hospital – 38 deles na UTI –, ele diz que se considera bem de saúde, apesar da lesão na medula que o deixou sem movimentos do peito para baixo. Christian faz fisioterapia três vezes por semana, mas precisa de ajuda para realizar atividades básicas.

Apesar de torcer por uma recuperação rápida, no entanto, ele diz não pensar em voltar às salas de aula do Ensino Médio.

"Me sinto inseguro em ficar de costas em uma sala de aula. Confiar no inesperado pra mim é desesperador", disse.

"Me interessei pela profissão porque sempre gostei de passar conhecimento para as pessoas. Ainda quero fazer isso, mas de outra forma. Quem sabe no curso superior", disse Christian, que vem de uma família de professores.


Ameaças constantes

Christian diz que professores convivem diariamente na rede pública com ameaças de agressão feitas por alunos, especialmente em bairros mais violentos.

"Ameaças verbais e ousadia dos alunos acontecem em todo lugar, até em colégio particular. Mas, nas escolas particulares, não acontecem ameaças de morte. Nos colégios do Estado, isso é comum. (As ameaças são) de alunos para professores e funcionários ou entre dois alunos."

O professor, no entanto, disse nunca ter tido problemas até aquele momento – nem com o rapaz que tentaria matá-lo. "Às vezes, um ou outro aluno queria chamar a atenção enfrentando os professores, mas nunca cheguei a me sentir ameaçado, achando que era apenas coisa de adolescente."

Hoje, no entanto, a sensação é outra. "Minha mãe, que era professora, já se aposentou, mas penso em minha irmã e meus primos, que ainda estão ensinando nas escolas públicas".


Desvalorização

A "desvalorização" da profissão por parte do poder público impede "a criação de uma estrutura de segurança para a profissão", afirma o professor.

"Boa parte das escolas públicas do Estado de Sergipe, onde leciono, não tem estrutura física. São muros quebrados ou caindo, portões quebrados, salas de aula sem portas. Isso já gera uma total falta de segurança para professores e alunos."

"No dia da tentativa de assassinato contra minha pessoa, o aluno armado entrou e saiu pela porta da frente da escola sem nenhum impedimento”, afirma. "Acho que o Estado poderia colocar vigias e dar estrutura física para as escolas. E para os alunos, acompanhamento diário de psicopedagogos."

Após o ataque a Christian, a Secretaria de Educação anunciou uma comissão permanente de acompanhamento da violência nas escolas, formada pela Secretaria de Educação, professores, pais, funcionários não docentes e estudantes.

Desde então, segundo o diretor do Departamento de Educação da secretaria, Manuel Prado, foram realizados encontros de formação e orientação com diretores de escolas, com professores e com alunos. Ele afirma também que a secretaria visitou 20 escolas em todo o Estado que apresentaram maiores índices de violência.

Christian, por sua vez, também defende a redução da maioridade penal para 16 anos e pede que "escolas abertas" sejam implantadas em rede estadual.

"Seria importante que a escola tivesse mais abertura para a comunidade, fazendo mais reuniões com os pais durante a semana, permitindo que as pessoas pratiquem esportes nos fins de semana. Atualmente, não tem tanta abertura."



Notícia publicada na BBC Brasil, em 12 de março de 2015.




Jorge Hessen* comenta

Uma enquete realizada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) põe o Brasil no topo de ranking de violência contra professores.(1) Há relatórios na “Pátria do Evangelho” advertindo que metade dos diretores de escolas primárias e jardins de infância sofreram agressões verbais e físicas de pais de alunos.

Para Miriam Abramovay, coordenadora da área de Juventude e Políticas Públicas da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais e coordenadora de pesquisas da Unesco (Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura), os conflitos [violências] são resultado de relações sociais ruins e da falta de diálogo. A escola é muito centrada nela mesma, e muito pouco se propõe a dialogar com os jovens alunos. Isso cria um clima muito ruim. Um bom professor é o que ensina bem a disciplina, mas também o que sabe ser amigo, que sabe entender o que é ser jovem. Há abuso de professores e professoras relacionado à fragilidade do que é ser adolescente.(2)

Entendemos que, dentro de uma visão espírita, a escola (pública ou particular – espírita ou não) deve formar um homem novo e precisa ser uma escola inteiramente inovadora, rompendo com o sistema vigente, pois a educação tradicional, conforme aferimos, já não atende às necessidades da atual geração. A escola deve incentivar a participação, a interação, o diálogo, o debate livre, o estudo em grupo e abolir todas as formas de repressão.

Qualquer professor hoje sabe dos problemas de disciplina e desinteresse que existem nas salas de aula. Esses problemas demonstram que a escola em sua maioria não está adequada às atuais gerações. É preciso uma escola ativa em alto grau, diligente, que respeite a inteligência dos alunos, mas é também preciso uma escola que saiba que o aluno é um ser reencarnado, e a finalidade da sua educação não é apenas moldá-lo para o mercado de trabalho, mas para a sua realização humana, para o cumprimento da sua missão e para a sua transcendência.

O pensamento herculanista entroniza a liberdade como uma das facetas essenciais da pedagogia espírita. Pestalozzi, em Yverdon, praticava essa liberdade de ação em que as crianças podiam escolher atividades e até poderiam entrar e sair do castelo à vontade. Desde Rousseau sabemos que uma das exigências mais prementes para a educação é conectar o homem novamente com a natureza. Nos EUA, na década de 30, o padre Flanagan mostrou que a liberdade é fator preponderante, inclusive na recuperação de crianças e adolescentes considerados delinquentes. Flanagan fundou a cidade dos meninos, onde os próprios adolescentes geriam a comunidade, trabalhavam e tinham plena liberdade de entrada e saída.

Os Espíritos que estão reencarnando para semear os novos tempos para uma nova era não estão mais se adaptando ao esquema tradicional da sovina educação coercitiva. Em face disso, alguns alunos descambam para a agressão e delitos de graves consequências. A escola deve recuperar a alegria, a vitalidade e o estímulo, e deixar de ser essa prática maçante e monótona de que nenhum aluno gosta. O educador não pode ser repressor, mas deve se empenhar para despertar um processo de aprendizagem aprazível, entretanto ajuizado e fecundo. Nenhum aluno aprende a ser “responsável” apenas obedecendo ordens sob “açoites” verbais e às vezes até físicos. Ninguém aprende a agir espontaneamente estando o tempo todo sob coerção. A virtude moral só pode brotar da livre escolha do indivíduo. Não esqueçamos que a própria pedagogia Divina age assim conosco – ela nos deixa aprender com nossos próprios erros, para alcançarmos a moralidade no clima da liberdade.

Compreendemos que o construtivismo(3) é a força pedagógica da modernidade. Tal corrente pedagógica vem desde o tempo de Sócrates e Platão, sobrevindo em Rousseau e Pestalozzi. O núcleo da tese construtivista é que o indivíduo constrói o seu próprio conhecimento e só pode fazê-lo através da ação. Essa tese é categoricamente correta. Entretanto o construtivismo comumente cultivado e estudado hoje é um construtivismo materialista, tendo como semideuses inspiradores Vygotsky e Piaget, ao passo que o construtivismo Socrático, Platônico, Rousseauniano e Pestalozziano é um construtivismo, digamos, mais espiritualista.

Será que a proposta de pedagogia espírita é um construtivismo metafísico? Está capacitada para educar, desenvolver e alforriar a consciência do aluno das injunções repressivas da educação materialista empregada atualmente?

Uma coisa é verdadeira: após Jesus, asseguramos que Allan Kardec FOI, É e sempre SERÁ o maior educador da História.


Nota e referências:



(2) Disponível em http://educacao.uol.com.br/noticias/2013/12/17/a-escola-tinha-que-ser-de-protecao-e-nao-de-reproducao-da-violencia.htm>, acessado em 23/04/2015;

(3) Uma das correntes teóricas empenhadas em explicar como a inteligência humana se desenvolve, partindo do princípio de que o desenvolvimento da inteligência é determinado pelas ações mútuas entre o indivíduo e o meio.



* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal aposentado do INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.