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Somos programados para acreditar em um Deus?


12 de maio de 2015


Somos programados para acreditar em um Deus?


Francesca Stavrakopoulou
Diretora de Teologia e Religião da Universidade de Exeter (Inglaterra)

A religião – a crença em seres sobrenaturais, incluindo deuses e fantasmas, anjos e demônios, almas e espíritos – está presente em todas as culturas e permeia toda a História.

A discussão sobre a vida após a morte remonta a, pelo menos, 50.000 a 100.000 anos atrás.

É difícil obter dados precisos sobre o número de crentes de hoje, mas algumas pesquisas sugerem que até 84% da população do mundo são membros de grupos religiosos ou dizem que a religião é importante em suas vidas.

Vivemos em uma era de um acesso ao conhecimento científico sem precedentes, o que alguns acreditam que é incompatível com a fé religiosa. Então, por que a religião é tão difundida e persistente?

Os psicólogos, filósofos, antropólogos e até mesmo os neurocientistas sugerem possíveis explicações para a nossa disposição natural de acreditar, e para o poderoso papel que a religião parece ter em nossas vidas emocionais e sociais.


Morte, cultura e poder

Mas antes de falar das teorias atuais, é preciso entender como surgiram as religiões e o papel que elas tiveram na vida de nossos ancestrais.

As primeiras atividades religiosas foram em resposta a mudanças corporais, físicas ou materiais no ciclo da vida humana, especialmente a morte.

Os rituais de luto são uma das mais antigas formas de experiência religiosa. Muitos de nossos antepassados não acreditavam que a morte era necessariamente o fim da vida – era apenas uma transição.

Alguns acreditavam que os mortos e outros espíritos podiam ver o que estava acontecendo no mundo e ainda tinham influência sobre os eventos que estão ocorrendo.

E essa é uma noção poderosa. A ideia de que os mortos ou até mesmo os deuses estão com a gente e podem intervir em nossas vidas é reconfortante, mas também nos leva a ter muito cuidado com o que fazemos.

Os seres humanos são essencialmente sociais e, portanto, vivem em grupos. E como grupos sociais tendem à hierarquia, a religião não é exceção.

Quando há um sistema hierárquico, há um sistema de poder. E em um grupo social religioso, a hierarquia localiza seu membro mais poderoso: a divindade - Deus.

É para Deus que temos de prestar contas. Hoje em dia, a religião e o poder estão conectados. Estudos recentes mostram que lembrar de Deus nos faz mais obedientes.

Até em sociedades que reprimiram a fé, surgiu algo que tomou seu lugar, como o culto a um líder ou ao Estado.

E quanto menos estável é um país politica ou economicamente, mais provável que as pessoas busquem refúgio na religião. Os grupos religiosos podem, ao menos, oferecer o apoio que o Estado não fornece a quem se sente marginalizado.

Assim, fatores sociais ajudam a desenvolver e fortalecer a fé religiosa, assim como a forma como nos relacionamos com o mundo e com os outros.


Outras mentes

Em todas as culturas, os deuses são, essencialmente, pessoas, mesmo quando têm outras formas.

Hoje, muitos psicólogos pensam que acreditar em deuses é uma extensão do nosso reconhecimento, como animais sociais, da existência de outros. E uma demonstração da nossa tendência de ver o mundo em termos humanos.

Nós projetamos pensamentos e sentimentos humanos em outros animais e objetos, e até mesmo nas forças naturais – e essa tendência é um dos pilares da religião.

Assim argumentou-se que a crença religiosa pode ser baseada em nossos padrões de pensamento e de cultura humana. Alguns cientistas, no entanto, foram além e analisaram nossos cérebros em busca do lendário "ponto Deus".


Deus no cérebro

Os neurocientistas têm tentado comparar os cérebros dos crentes e ao dos céticos, para ver o que acontece no nosso cérebro quando rezamos ou meditamos. Se conhece pouquíssimo sobre esse campo - mas há algumas pistas, especialmente no que diz respeito às aéreas cerebrais.

O córtex pré-frontal medial está fortemente associado com a nossa capacidade e tendência para entender os pensamentos e sentimentos dos outros. Muitos estudos têm mostrado que esta região do cérebro está especialmente ativa entre os crentes religiosos, especialmente quando estão rezando. Isso corrobora a visão de que a fé religiosa é uma forma de interação social.

Já o lobo parietal, de acordo com estudos pode estar envolvido em experiências religiosas, especialmente aquelas caracterizadas com a dissolução do ego.


Pontuando a vida

Na medida em que estamos constantemente à procura de padrões, estruturas e relações de causa-efeito, a religião pode fornecer uma variedade de estratégias para que essa busca faça sentido.

As crenças religiosas ajudam os seres humanos a se organizar e dar sentido a suas vidas. E em todas as culturas, e até mesmo entre ateus, os rituais podem ajudar a pontuar eventos importantes da vida.

Embora nem a neurociência, nem a antropologia e nem filosofia tenham uma resposta definitiva para a questão "Deus existe?", todas essas disciplinas dão pistas sobre como nós respondemos às nossas mais profundas necessidades humanas.

Talvez não sejamos programados para acreditar em Deus ou em um poder sobrenatural, mas somos animais sociais com uma necessidade evolutiva de ficar conectado com o mundo e com os outros.

De repente, as religiões são apenas canais para permitir essas conexões.

Notícia publicada na BBC Brasil, em 4 de abril de 2015.


Claudio Conti* comenta

Para melhor expor um pensamento coerente sobre este tema, será necessário, primeiramente, abordar algumas questões:

1) O ser humano apresenta uma necessidade básica para a sua existência, o que se pode creditar ao estado evolutivo em que se encontra, que são as referências. Nossa vida é regida por todo tipo de referência, sendo os mais elementares o tempo e o espaço. A maior parte do nosso pensamento está relacionada com estes dois pilares: quando e onde. Além destes, são necessárias referências, como regras sociais, modelos, heróis, símbolos, dentre outras.

2) Nossa sociedade é regida por paradigmas, ideias e conceitos que são apresentados por uma pessoa ou grupo e que, por algum motivo, seja por ir de encontro com o anseio da sociedade ou devido a influência da origem, terminam por se tornarem regra de conduta ou de pensamento. Em decorrência da necessidade de referência, estas ideias passam a ser referências e, com isso, alcançam a categoria de paradigma e não mais será questionado até que, ao longo de muito tempo, possa haver a sua substituição por outro. Comportamento interessante é que antigos paradigmas que foram substituído por outros podem retornar, dependendo da situação. É quando outro fenômeno também interessante ocorre: o esquecimento do motivo pelos quais o paradigma que retorna foi substituído, recaindo em antigos equívocos considerados como sendo "coisa" do passado. Na sociedade moderna, com o paradigma, em decorrência da acelerada escalada tecnológica, de que o passado está ultrapassado, os erros cometidos caem no esquecimento, dando ensejo para serem repetidos.

3) Existe um equívoco persistente entre religiosidade e espiritualidade. Por "religiosidade" devemos entender como o cumprimento de uma série de regras e aceitação de dogmas, sem o devido questionamento sobre o seu significado, e acreditando-se que sejam constituídos de poderes especiais. São paradigmas que se perpetuam desde longa data e, por isso, difíceis de se quebrarem. Em contrapartida, por "espiritualidade" devemos entender como a elaboração e desenvolvimento de uma forma de pensamento que englobaria todos os seres como sendo iguais e merecedores de respeito, incluindo a si mesmo. Apesar de iniciar o processo de espiritualização com a humanidade terrena, não estaria restrito a esta, mas englobaria todo o cosmos e evoluiria até alcançar a plenitude e a integração com Deus. Assim, temos a principal diferença entre religiosidade e espiritualidade: a primeira é estática enquanto que a última evolve.

Como conclusão deste comentário, temos que, enquanto a humanidade confundir religiosidade com espiritualidade continuaremos buscando a "Terra prometida" sem a encontrar. Imersos em uma grande diversidade de dogmas, rituais, crenças e valores, continuaremos sem saber qual caminho a tomar e, com isso, o receio das outras crenças aumenta a tensão existente e o antagonismo entre os grupos de adeptos.

Além disso, diante deste comportamento estranho ao que se acredita ser religião, também em decorrência de paradigmas os quais a reportagem em análise descreve sucintamente o surgimento e estabelecimento, surgem os "não crentes" que, na verdade, são descrentes do que lhes é apresentado como religião.

O Espiritismo, enquanto ciência e filosofia com consequências morais, vem demonstrar a espiritualidade como sendo o fundamental para a evolução humana, despido de todos os rituais e crenças para o desenvolvimento da certeza da existência do ser espiritual; demonstra a igualdade de todos os seres vivos, incluindo os "mortos" que deixaram a categoria de "mortos" para a de "vivos".

Também com o Espiritismo, Deus passa a ser apresentado como a justiça e bondade supremas, auxiliando a todos igualmente segundo a necessidade individual.

Quando a espiritualidade triunfar, veremos todos amando a todos como a si mesmos.

* Claudio Conti é graduado em Química, mestre e doutor em Engenharia Nuclear e integra o quadro de profissionais do Instituto de Radioproteção e Dosimetria - CNEN. Na área espírita, participa como instrutor em cursos sobre as obras básicas, mediunidade e correlação entre ciência e Espiritismo, é conferencista em palestras e seminários, além de ser médium pscógrafo e psicifônico (principalmente). Detalhes no site www.ccconti.com.