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África e Brasil: unidos pela história e pela cultura


1º de fevereiro de 2015



África e Brasil: unidos pela história e pela cultura



Reportagem Wellington Soares


A costa oeste africana e o litoral brasileiro já estiveram conectados. Há 200 milhões de anos, os dois territórios começaram a se separar e assumiram as atuais posições, afastados milhares de quilômetros pelo Oceano Atlântico. O mar que os separa é também o responsável pela ligação entre eles nos tempos modernos: 4,4 milhões de africanos o cruzaram contra a vontade entre os séculos 16 e 19 em direção ao Brasil. Essas pessoas tiveram um papel importante na construção do nosso país. “A África está em nós, em nossa cultura, em nossa vida, independentemente de nossa origem pessoal”, defende Mônica Lima e Sousa, coordenadora do Laboratório de Estudos Africanos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Leáfrica/UFRJ), no artigo História da África, publicado na Revista do Programa de Educação sobre o Negro na Sociedade Brasileira, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Por isso, as tradições, a cultura e a trajetória dos descendentes dos africanos escravizados compõem um objeto de estudo importante para todas as crianças e os jovens, negros ou não.

O tráfico negreiro e a escravidão determinaram o presente do nosso país. A população vinda do continente africano criou aqui raízes, família, cultura, história. Hoje, 53% dos brasileiros se declaram pretos ou pardos, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2013. Esse grupo é grandemente desfavorecido. Dados tabulados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) comprovam: eles são a maioria dos analfabetos, com a maior taxa de distorção idade-série, e o trabalho infantil é mais comum entre eles do que entre brancos.

Reconhecer que existem desigualdades raciais e combatê-las é lutar contra o racismo. A lei 10.639, em vigor desde 2003, determina que isso também aconteça dentro das escolas, que passaram a ter de incluir o tema em seus currículos. “É assumindo os valores criativos e positivos dessas culturas que a escola pode contribuir para a superação do racismo e da discriminação que ainda organizam fortemente a desigualdade brasileira”, defende André Lázaro, que esteve à frente da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação (Secadi/MEC) entre 2004 e 2011. Entre as ações estabelecidas devem estar a Educação para o combate ao racismo, a reflexão sobre o papel do negro na história do Brasil e a valorização da história, cultura africana e afro-brasileira e o conhecimento científico construído por pesquisadores e pensadores negros.

Apesar de a legislação valer há mais de dez anos, ainda são poucos os casos em que ela é bem incorporada ao cotidiano das escolas. Uma pesquisa realizada por diversos órgãos aponta os principais entraves para a efetivação dela: há escassa formação sobre o assunto, poucos docentes conhecem a norma e muitos não a consideram legítima. “O processo de implementação enfrenta resistências e obstáculos pelos mesmos motivos que justificam a existência da lei: no Brasil, há um racismo silencioso que desqualifica o debate sobre a discriminação”, explica André Lázaro, pesquisador da Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (Flacso).

Mudar esse cenário requer trabalho em diversas frentes, das políticas públicas ao cotidiano da sala de aula. As redes precisam oferecer formações e debater o tema para que os administradores das escolas incentivem a incorporação dele em diversos âmbitos e os professores incluam conteúdos relacionados à história e à cultura africana e afro-brasileira em suas aulas. “A prática nas instituições também deve estar articulada aos projetos de formação”, afirma Rodrigo Ednilson de Jesus, docente da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e um dos envolvidos na pesquisa sobre a implantação da lei. Para repensar as próprias práticas e posições, os docentes devem observar suas atitudes e expectativas em relação aos alunos com diferentes cores de pele. Será que há tratamentos distintos para alunos negros e brancos? Todos recebem atenção, carinho e elogios? O primeiro passo para superar o racismo silencioso é justamente combater o discurso de que não há racismo. Em entrevista a NOVA ESCOLA, o historiador francês Pap Ndiaye afirma: “É necessário que as práticas sejam coerentes com a fala. Os educadores, por exemplo, podem ter comportamentos discriminatórios ao orientar os estudantes sobre as possibilidades de carreira. Para as de ensino técnico, muitos encaminham os alunos que não são brancos. Para os demais, por sua vez, é recomendado um curso universitário. A escola não está imune à discriminação".

Na sala de aula, não basta só problematizar atitudes racistas vindas dos alunos ou da comunidade escolar mas também rever o conteúdo ministrado. O objetivo deve ser desconstruir visões estereotipadas sobre africanos e afro-brasileiros e mostrar a importância deles na construção das sociedades contemporâneas. Para isso, é fundamental tratar do protagonismo desses grupos em diversos momentos da história, representando-os como seres humanos que criaram laços familiares, produtos culturais e que têm trajetórias próprias na história.



Matéria publicada na Revista Nova Escola, em novembro de 2014.




Nara de Campos Coelho* comenta

“Socorro! Tenho preconceito!”

Este pedido de ajuda deveria ser feito por todos nós, pois é quase certo que ainda tenhamos algum tipo de preconceito. Em maior ou em menor escala, este sentimento se revela, demonstrando o tremendo estado de inferioridade moral em que, ainda, estagiamos. Referimo-nos a educação moral, porque a instrução acadêmica, puramente, não nos livra deste tipo de ignorância, de atraso. É comum até que o preconceito aumente quando fazemos comparação de níveis culturais.

Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, nos aclara o entendimento desta situação, quando nos diz que o progresso do homem exige duas “asas” para alçar voo: o conhecimento intelectual e o apuro do sentimento. Ou seja, a instrução e a educação moral. Saber de onde viemos, quem somos e para quê estamos na Terra anula nossa pretensa superioridade em relação ao próximo. Somos todos iguais. Somos todos irmãos, filhos do mesmo Pai, o que nos autoriza a dizer, com Jesus: ”Pai Nosso que estais no Céu!”

Em recente entrevista ao jornal “O Globo”, o ex-ministro da Educação da França, Luc Ferry, parece ter lido Kardec, pois repete-lhe as palavras ao dizer que a educação moral e a intelectual são completamente diferentes e exemplifica: ”Pode-se ser extremamente culto e um canalha e pode-se ser um pequeno camponês, dos confins do Brasil, e ser um homem de bem.” E lembra ao leitor o nome de pessoas inteligentes e cultas como Hitler, Osama Bin Laden, entre outros, que foram profundamente prejudiciais à humanidade.

Com o Espiritismo, temos uma avaliação feliz, que nos ajuda a combater, pelo entendimento, a ignorância do racismo, que nos conduz á guerras, tanto individuais e particulares, quanto entre nações. Eis que essa doutrina, que nos fala à razão e ao sentimento, nos diz que somos Espíritos em evolução, ocupando corpos físicos que sejam compatíveis com nossa necessidade evolutiva. No mesmo critério, estão a família, o lugar onde nascemos, o país e assim por diante. Nada é por acaso. Tudo é milimetricamente calculado pela Justiça Divina, por meio de suas leis perfeitas. Aqui se enquadram também as deficiências em todos os níveis, explicadas por Jesus quando disse: (...) Se teu olho direito te conduz à perdição, arranca-o. É preferível que entres na vida sem ele, do que ele te conduzir ao fogo do inferno (...)”

O Brasil nasceu em “berço esplendido”, mas traz uma chaga aberta em seu destino constituída pela escravização dos irmãos da raça negra, vindos da África, supliciados por mais de trezentos anos, sob a inércia do povo e da religião dominante, com suas honrosas exceções.

Isto se alonga em nossa contemporaneidade, sob o império do preconceito que está entranhado em nossa alma antiga e sem educação moral, por ignorar os ensinos de Jesus, o Mestre. Contou-nos um amigo, que na renovação de seu passaporte, foi surpreendido com a pergunta: ”Você é preto ou branco?” A querida e respeitada atriz Fernanda Montenegro, quase uma unanimidade no Brasil, foi classificada de “não branca”, recentemente, pelos organizadores do Oscar, maior prêmio do cinema mundial. Eles precisavam justificar a ausência de atores pretos na lista de indicação para o prêmio. Então, a nossa atriz poderia ser preta, amarela ou vermelha... Uma senhora contou-nos o fato de que viu um pai com dois filhinhos, agachados na porta de uma loja. Prontamente, ela lhes deu cinco reais. Qual não foi sua surpresa, quando o pai devolveu o dinheiro e disse-lhe; “Não somos pedintes. Estamos só descansando.” Aquela senhora ficou arrasada! Eles eram pretos... O racismo nos está tão arraigado, que até para um ato de bondade somos traídos por ele. Aquela senhora nos dizia: “Como fiz isto? Não me perdoo!”

Claro que quando sofremos ações racistas estamos vivendo algum resgate ou mesmo uma provação. Eis que não somos abandonados das leis divinas. Estamos num processo de aprimoramento moral. “Os escândalos são necessários (para que se cumpra a lei de causa e efeito), mas ai de quem os promova!”, alertou-nos Jesus.

A África tem oferecido campo fértil de resgate para os Espíritos que precisam passar pelas duras provas da fome, da miséria e do abandono, facilitados pela corrupção, que também atua no Brasil, infelizmente. Entretanto, ai dos governantes, dos políticos, dos empresários, enfim de quem promova os crimes que lá imperam! E aqui também! Quando sabemos que podemos reencarnar em situações dos mesmos sofrimentos que provocamos ao nosso próximo; quando sabemos que passamos para o lado que discriminamos, seja qual for, então sabemos também que teremos que lutar contra estas mazelas que nos enfraquecem e nos promovem a dor que tememos. Por isso, inteligentemente, Jesus nos ensinou a amar o nosso próximo.

Por que os países africanos acumulam tanta dor? Tanto descaso? Porque ali se tem feito terreno propício para que reencarnem aqueles que necessitam de progredir nesta seara, em função dos crimes que perpetraram em passado próximo ou remoto contra os que ousaram pensar e agir de modo diferente, os que adotaram religiões diferentes, e assim por diante. Precisamos, pois, todos nós trabalhar a nossa alma para o entendimento de que somos iguais perante a lei divina. Quem não quer sofrer, não faça sofrer. Só quando o homem amar o seu próximo é que a dor deixará o nosso mundo, pois como nos diz Herculano Pires, “só o amor educa, só a ternura faz as almas crescerem no bem!”

A propósito deste assunto, a jornalista de economia Flávia Oliveira disse em artigo de “O Globo” que “enquanto se comove com os assassinatos na França, país (Brasil) minimiza cotidiano de preconceito religioso, presente até na Escola Pública”. Ou seja, o preconceito se alastra e se agiganta, espraiando-se por outras áreas, até então, menos cotadas.

Todo trabalho é pouco para que o nosso país melhore sua atmosfera psíquica, impedindo pelo bom uso da razão que o preconceito continue crescendo. E nós, os espíritas, temos grande responsabilidade neste campo de atuação, pois aprendemos muito e “muito será pedido a quem muito recebeu”, segundo Jesus. Cumpre-nos agir corretamente, cuidando para que, onde estivermos, os agentes do racismo e dos preconceitos de todos os matizes não se sintam a vontade para atuar. E isto só acontecerá quando o progresso moral for nosso companheiro constante, esmagando definitivamente a ignorância que nos faz arrogantes e petulantes, tanto na África como no Brasil, nos EUA ou na Europa, enfim, em todas as regiões onde o atraso moral ainda impere. Eis que somos artífices do nosso futuro e se estamos doentes de preconceito, gritemos socorro! Precisamos de ajuda.



* Nara de Campos Coelho, mineira de Juiz de Fora, formada em Direito pela Faculdade de Direito da UFJF, é expositora espírita nos Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, articulista em vários jornais, revistas e sites de diversas regiões do país.