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Não atire o pau no gato: correção política altera cantigas


13 de dezembro de 2014



Não atire o pau no gato: correção política altera cantigas




‘Não atire o pau no gato’ ganha espaço em salas de aula infantis; Boi da cara preta e Cuca não têm a mesma sorte



Gato agredido, boi que sequestra crianças, cravo que discute (na melhor das hipóteses) com uma rosa - as letras das músicas infantis tradicionais, parte do folclore brasileiro, são questionadas quanto ao conteúdo nas escolas brasileiras. Colégios ouvidos pelo Terra contam que há orientações aos professores para não cantarem determinadas canções em meio aos pequenos. Outras músicas, por sua vez, ganharam novas letras - atuais e politicamente corretas.

“Atirei o pau no gato”, por exemplo, foi adaptada para incentivar a defesa dos animais em sala de aula. Na canção original, o bicho apanha de um pedaço de madeira e consegue resistir. Mas o berro do gato é forte a ponto de causar “admiração” em Dona Chica. Na Escola Meu Castelinho, em São Paulo, a antiga música sempre vem acompanhada de uma versão que aconselha a não atirar nada no pobre gato, que é “nosso amigo.”

De acordo com Andrea Caran de Oliveira, orientadora educacional da Meu Castelinho, a escola aconselha os professores a não cantarem certas músicas que julguem impróprias. “As canções antigas representam a tradição e a cultura brasileira, mas, automaticamente, a criança vai interpretando a letra, e a informação vai para o repertório dela”, afirma. A medida evitaria que os objetivos de formação escolar e os versos das canções entrassem em confronto.

Brincadeiras que envolvam músicas também sofreram mudanças sutis na escola. Em vez de cantarem “O fulano (nome da criança) roubou pãããão na caaasa do João”, verso que faz alusão a um crime, as crianças dizem que o colega apenas “pegou” o alimento - assim ninguém ficaria constrangido.

Já as músicas “Boi da cara preta” e “Nana neném” não saem da boca dos docentes da Escola de Educação Infantil Pirlimpimpim, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Segundo Aline Gorete Pereira, professora da escola, as duas cantigas têm intenção de colocar medo nas crianças - já que o Boi e a Cuca, mais agressivos que o indefeso gato, querem sequestrá-las. No entanto, Aline garante que os alunos não são repreendidos se começarem, por conta própria, a cantarem em aula.

Também há quem defenda o uso dessas músicas nas salas de aula, desde que com a ênfase adequada. Alessandra Gomes Nunes, professora de música do Colégio Santa Maria, de São Paulo, apresenta “O cravo brigou com a rosa” e “Samba lelê” a seus alunos sem alteração alguma nos versos.

A primeira música pode ser entendida como uma cena de agressão, já que a rosa sai “despedaçada” de uma briga com o cravo - que também sai “ferido”. No entanto, para Alessandra, há como mostrar o lado lúdico da canção, sem reforçar o sentido de agressividade: basta não analisar a cena de modo literal. A discussão das flores seria interessante, inclusive, para trabalhar atividades de dramatização, como uma peça com fantoches.

Da mesma forma, “Samba lelê” - que parece estar com a cabeça quebrada e doente, mas precisa é de “boas palmadas” ou “boas lambadas” - não é deixada de lado por Alessandra por causa de seu aspecto rítmico. Além disso, o fato de os pais terem crescido ouvindo músicas como essas torna inevitável o contato da criança com suas letras, seja na escola ou mesmo em casa. “Se um aluno pede para sua avó cantar, muito provavelmente vai ser uma dessas.”

Outras músicas que recebem críticas são “A Canoa virou” e “Marcha soldado”. A primeira delas diz que foi culpa de determinada pessoa a canoa ter virado - e que ela vai ficar “no fundo do mar”. Para completar a desgraça, ninguém praticou aulas de natação, nem pretende arriscar um resgate. Na segunda música, o soldado que não marcha direito é convidado a ir à prisão do quartel.


O que as crianças ouvem na escola?

Algumas canções, mesmo antigas, não enfrentam resistência nas escolas, por aparentemente não terem nenhum aspecto politicamente incorreto. É o caso de “Ciranda, cirandinha”, “Dona Aranha”, “O sapo não lava o pé” e “Borboletinha”, de uso comum em vários locais ouvidos pelo Terra.

Mas nem só de clássicos do folclore vivem as crianças brasileiras. O estímulo visual de produções de Peppa Pig, Galinha Pintadinha, Patati Patatá, Xuxa e Eliana estão bastante presentes no cotidiano musical dos pequenos, dizem os professores. O desafio é enriquecer o repertório dos estudantes através de grupos menos conhecidos, diz Aline Oliveira, da Escola Pirlimpimpim.

Aline cita a dupla musical Palavra Cantada, além dos discos infantis de Kleiton & Kledir e Pato Fu. Andrea Oliveira, da Escola Meu Castelinho, acrescenta à lista grupos como Barbatuques, Tiquequê e Triii.

Certos momentos do dia têm uma trilha sonora própria em alguns colégios brasileiros. Quando as crianças vão se alimentar na Creche Escola Arte Infantil, do Rio de Janeiro, por exemplo, invariavelmente começam músicas relacionadas à atividade. “Meu lanchinho vou comer” ou algo do gênero, explica a coordenadora da escola, Viviane Badaró.


Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra


Notícia publicada no Portal Terra, em 18 de novembro de 2014.




Nara de Campos Coelho* comenta


Poesia ou maldade?


Exalta a notícia deste nosso comentário, a opinião de muitos para que sejam modificadas as cantigas de ninar e as cirandas, que fizeram fundo musical de dezenas de gerações. E afirma a urgência de que “não se atire o pau no gato”, nem que “o boi da cara preta pegue este menino!” É bom que esta corrente de pensamento passe por profunda reflexão a respeito do tema tão delicado. Isto porque, ao contrário do que muitos acreditam, o passado com suas tradições sustenta nossas raízes. Fingir que ele não existe e modificá-lo seria lançar fora riquezas extraordinárias que fazem falta à formação da personalidade de todo povo.

Tenhamos como exemplo O Velho Testamento. Pensemos no desastre que seria modificar-lhe o conteúdo muitas vezes violento e inexplicável para os “politicamente corretos” tempos atuais. Isto daria chance para se destruir o passado. “Modifiquemos os livros de Machado de Assis, adaptando-o aos tempos modernos!” - diriam muitos. “Ah! Shakespeare é muito erudito! Vamos adaptá-lo à realidade atual, com sua objetividade e praticidade!" - diriam outros, plenos de certezas. E assim por diante, alteraríamos todos os clássicos. Os espíritas não seriam diferentes: “vamos atualizar Kardec!” Este brado vez por outra se faz ouvir, demonstrando a inconsciência para muitos do valor das letras, palavras e mensagens que edificam pensamentos preciosos. Uma palavra mal colocada pode alterar toda profundidade do pensamento criteriosamente elaborado pelo codificador e a plêiade de Espíritos de Luz que elaboraram a Codificação.

As músicas do folclore nacional são importantes para a preservação da memória do nosso povo, caracterizando sua escalada evolutiva. Todo o “mal” nela colocado é para ser enfrentado e superado pela educação moral.

O “Pai Nosso”, oração que nos foi ensinada por Jesus, dá-nos um pensamento sensato e definitivo a respeito do assunto quando diz: “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.” Jesus não nos diz para pedir ao Pai que tire o mal do mundo, mas que nos ajude a nos livrar dele. Ou seja, precisamos conquistar a maioridade moral de ver o mal, identificá-lo e não nos render a ele. Esta é nossa missão maior na Terra. E as músicas que trazem estes temas, assim como as fábulas, os filmes infantis, os desenhos animados, todos mostram cenas doloridas, que fazem parte da vida real, ajudando as crianças no preparo para enfrentá-las. As músicas folclóricas não são diferentes.

Com Kardec, aprendemos que as crianças precisam ser educadas moralmente, sabendo de sua responsabilidade existencial e de que são artífices do seu futuro. E ao se fortalecerem emocionalmente, tendo seu intelecto alimentado pelos ensinos de Jesus, tão bem dinamizados pelo Espiritismo, crescerão conscientes de que sua jornada terrena lhes será meio para evolução integral, sob seu próprio comando.

Fugir ao mal, desprezando-o por entendimento do que ele representa é questão de consciência bem formada. Hitler, um dos maiores criminosos da Humanidade, amava música clássica, assim como pintura de alto nível... Mas sua consciência era forjada no orgulho, no egoísmo e vaidade que o enlouqueceram.

A história narra a religiosidade e o gosto pelas artes de mafiosos, que fizeram do crime contra o bem comum sua autêntica opção de vida. E a violência das guerras religiosas, das Cruzadas? Onde buscar-lhes a justificativa, senão pela ignorância das leis morais da vida?

Gerações e gerações se seguiram cantando “atirei o pau no gato” sem sequer prestar atenção na letra da música que as divertiam, inocentemente.

Hoje o apelo é muito mais deprimente para o mal, por meio da violência concretizada nos filmes de ação e extermínio que viraram febre nas sociedades cada vez mais materialistas. Jovens assassinos entregam-se a “carreira” que lhes extermina o próprio futuro, assombrando sua contemporaneidade. E que jamais brincaram de roda... Nem puderam escolher entre poesia e maldade! Mas, ainda aqui a educação moral, trazida por Jesus por meio da exemplificação das leis divinas, que o Espiritismo nos clareia e torna práticas, faz a diferença. Eis que ela é capaz de formar adultos dignos e responsáveis por sua vida de transcendência.

Afinal de contas, com Jesus no coração e nas ações, todos poderemos ladrilhar as ruas de nossa alma com os brilhantes da esperança e da certeza de que só o bem extinguirá de nossa vida o mal que não queremos. Sem temer “o boi da cara preta” nem precisar “atirar o pau no gato”!



* Nara de Campos Coelho, mineira de Juiz de Fora, formada em Direito pela Faculdade de Direito da UFJF, é expositora espírita nos Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, articulista em vários jornais, revistas e sites de diversas regiões do país.