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Cérebros conectados

14 de outubro de 2014



Cérebros conectados



Cientistas norte-americanos colocam pesquisas de comunicação entre cérebros em novo patamar ao fazerem experimento com humanos. No estudo, pesquisador moveu o braço de colega pelo pensamento via internet sem fio.


Por: Sofia Moutinho


A ciência tem mostrado que transmissão de pensamento é cada vez menos um tema de ficção. Depois que pesquisadores norte-americanos e brasileiros conectaram os cérebros de dois ratos, foi a vez de cientistas da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, repetirem a façanha com humanos.


Por meio de um experimento que vem sendo chamado de “primeira interface cérebro humano-humano”, os pesquisadores conseguiram fazer com que um deles movesse a mão direita e pressionasse um teclado sob os comandos cerebrais de outro, localizado há quilômetros de distância.


Para isso, eles usaram apenas uma máquina de eletroencefalografia (peça comum em qualquer consultório neurológico), um dispositivo de estímulo magnético (usado para tratamento de doenças psiquiátricas) e internet sem fio.


O cientista responsável por transmitir o comando, o engenheiro de computação Rajesh Rao, teve sua cabeça coberta com eletrodos ligados à máquina de eletroencefalografia, que capta os sinais elétricos cerebrais. Do outro lado do campus da universidade, o psicólogo Andrea Stocco teve um aparelho de estímulo magnético cuidadosamente preso do lado esquerdo de seu cocuruto, na região precisa correspondente ao córtex motor direito – que curiosamente é a parte do cérebro que comanda a mão direita.


Toda essa preparação tinha a finalidade de tornar possível que Rao, o transmissor, jogasse um jogo de computador pelas mãos de Stocco, o receptor. O objetivo do jogo era defender uma cidade de um ataque pirata disparando um canhão ao apertar a tecla enter.


Rao apenas imaginou que movia sua mão no teclado para disparar fogo. Nesse momento, o sinal elétrico de seu cérebro captado pelo eletroencefalograma foi transmitido por internet sem fio até o dispositivo acoplado a Stocco. O aparelho então disparou um estímulo magnético no cérebro, fazendo com que sua mão se movesse contra sua vontade e lançasse fogo no navio pirata do joguinho.


“Senti meu dedo se movendo sem ter consciência disso, foi como um tique nervoso”, descreve Stocco.


Para atingir o feito, foram necessários anos de estudo. O maior desafio foi encontrar a região precisa do cérebro responsável pelo movimento da mão direita e, em seguida, dosar o estímulo para obter o movimento de dedo adequado. A neurocientista Chatel Prat, que também integra a equipe que conduziu o experimento, conta à CH On-line que somente para a primeira etapa foram cinco anos de pesquisa.


“Precisamos de muita prática até encontrar a estimulação mínima necessária para gerar um sinal cerebral capaz de mover o músculo do dedo”, diz. “Experimentamos (e brincamos) com diferentes configurações até encontrar a mais precisa e confortável.”


A declaração da cientista pode levar a pensar que a escolha de um jogo para o experimento foi apenas pela diversão. No entanto, o jogo teve um propósito: garantir que o sinal enviado pelo transmissor fosse intencional e não arbitrário. “Sabendo o momento em que o canhão deveria ser disparado, pudemos garantir que o sinal enviado foi intencional”, explica Prat. “O jogo capitalizou o tipo de efeito que queríamos ter no receptor, permitindo que dois sujeitos colaborassem para desempenhar uma tarefa on-line.”



Mais do mesmo?


O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, que comandou o experimento em que um rato transmitiu informação para o cérebro de outro, disse não estar surpreso com o novo feito. “O que eles fizeram não foi uma verdadeira interface cérebro-cérebro com comunicação entre duas pessoas, mas apenas uma via de mão única”, diz à CH On-line. “É muito cedo para declarar vitória na criação de uma interface humana de verdade.”


Prat não chega a exaltar a pesquisa de sua equipe, mas destaca que o grande diferencial do experimento foi usar técnicas não invasivas para conectar os cérebros – diferentemente do que faz Nicolelis, que usa eletrodos implantados cirurgicamente no cérebro dos ratos.


“Em termos de avanço científico, o que fizemos foi criar uma nova forma de usar tecnologias que já funcionam bem independentemente”, diz a neurocientista.“O maior diferencial é que podemos implantar nossa técnica em humanos que estão cientes do seu coenvolvimento e colaboração para resolver uma tarefa complexa.”



Possibilidades futuras


A cientista acredita que a verdadeira comunicação entre cérebros, em que haja uma transmissão de pensamentos consciente por ambas as partes, ainda está longe da realidade. “Vemos essa possibilidade como uma área excitante de pesquisa no futuro, mas para isso precisamos tanto de avanços na engenharia quanto na neurociência”, afirma.


Apesar disso, Prat e sua equipe já sonham com as possíveis aplicações de seu trabalho no futuro. Uma delas seria usar a técnica no treino e no controle remoto de pessoas em situações que exigem movimentos motores complexos, como conduzir uma cirurgia.


A ligação cérebro-cérebro também poderia ser usada para transferir conhecimentos complexos e para ajudar na reabilitação de pessoas com deficiências neurológicas. “Com a interface poderíamos ensinar ideias difíceis de expressar pela linguagem, como conceitos matemáticos, e até – o que me comove mais – prover o controle motor adequado a pacientes com danos cerebrais, reescrevendo seus circuitos neurais pela prática”, comenta Prat.



No controle


Por mais promissoras que sejam suas aplicações futuras, a experiência abre margem para questionamentos sobre o controle indevido sobre o outro. Não é difícil imaginar que a técnica possa ser usada para controlar pessoas a distância em situações escusas.


Prat acredita, no entanto, que um cenário como esse requereria uma supertecnologia. “Não consigo imaginar uma situação em que nossa técnica pudesse ser usada para o mal que não demandasse elementos tecnológicos e científicos muito mais avançados do que os necessários para os cenários bons que imaginamos”, diz.


A cientista ressalta ainda que seria difícil que a pessoa supostamente controlada não soubesse da interferência. “A participação voluntária é absolutamente necessária, pois não existe mecanismo para interferir no cérebro de alguém sem que a pessoa esteja conectada a um grande dispositivo de estímulo magnético”, comenta. “Além do mais, se alguém quisesse forçar outra pessoa a se comportar de certo modo contra sua vontade, seria muito mais fácil usar uma arma para ameaçá-la do que usar essa cara e pouco desenvolvida tecnologia.”


Notícia publicada na Revista Ciência Hoje, em 17 de setembro de 2013.



Sergio Rodrigues* comenta


A transmissão do pensamento, de modo natural e sem a utilização de aparelhos, foi abordada por Kardec, e explicada pelos Espíritos, nas questões 420 e seguintes, de O Livro dos Espíritos. Hoje, a questão é estudada também pela parapsicologia, recebendo o nome de “telepatia”. Na hipótese da matéria comentada, contudo, trata-se de uma nova maneira de transmissão do pensamente entre pessoas, agora com o auxílio de aparelhos. Ou seja, diferente da transmissão de pensamento natural, ensinada pelos Espíritos e hoje abordada pela parapsicologia, trata-se agora de transmissão de pensamento efetuada de modo não natural, por intermédio de instrumentos eletrônicos.


Os cientistas mencionados na matéria realizaram com sucesso esse experimento, fazendo com que alguém à distância comandasse os movimentos de outro, através de comandos cerebrais enviados por um aparelho. Antes, cientistas brasileiros haviam conectado cérebros de dois ratos para transmitir informações motoras e sensoriais entre eles. Vemos, portanto, avançar as experiências para se obter uma ligação de comunicação direta entre cérebros distintos.


A grande questão que fica para reflexão é o uso que se fará dessa tecnologia, uma vez apropriada de modo definitivo pelos homens. Os cientistas alegam que poderia ser utilizada na transmissão de conhecimentos ou para ajudar na reabilitação de pessoas com deficiências neurológicas. No entanto, sabemos que o progresso conquistado pelo homem nem sempre é utilizado no bem. Muitos inventos, descobertas e novas tecnologias, desenvolvidas para beneficiarem a humanidade, são apropriadas por povos ou setores destes para serem utilizadas com objetivos pouco nobres, de dominação e exploração. Os Espíritos ensinam que o progresso intelectual nem sempre vem acompanhado do progresso moral, embora o seu desenvolvimento contribua para a instalação deste. Um espírito pode ser superior em inteligência e transitar ainda pelo campo da inferioridade moral. As conquistas propiciadas pelo progresso intelectual somente são valiosas se acompanhadas por sentimentos de igualdade e fraternidade, que se conquistam apenas com o progresso moral. São aquisições que devem se alicerçar em valores morais e no amor ao próximo, utilizadas para o bem de todos.


 * Sergio Rodrigues é espírita e colaborador do Espiritismo.Net.