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Buscar muita informação sobre uma tragédia pode ser pior do que vivê-la

22 de fevereiro de 2014



Buscar muita informação sobre uma tragédia pode ser pior do que vivê-la



Segundo pesquisa, stress após atentado na maratona de Boston foi maior entre pessoas que passavam mais de seis horas por dia atrás de informações sobre o ataque do que entre aquelas que o presenciaram


Um novo estudo sugere que passar muitas horas atrás de informações sobre uma tragédia deixa uma pessoa mais traumatizada do que se ela tivesse presenciado o acontecimento. A pesquisa, publicada nesta terça-feira na revista PNAS, avaliou o impacto psicológico da exposição repetida à violência no ataque à maratona de Boston, em abril deste ano, que deixou três mortos e mais de 260 feridos, muitos deles mutilados.


De acordo com os autores do trabalho, os veículos de comunicação não mostraram imagens de pessoas que perderam algum membro na explosão das bombas. Mesmo assim, essas imagens circularam em redes sociais.


O estudo, feito na Universidade da Califórnia em Los Angeles, nos Estados Unidos, avaliou 4 675 americanos de duas a quatro semanas após o ataque de Boston. Os autores perguntaram aos participantes quanto tempo dedicaram a algum meio de comunicação (internet, televisão, jornal, rádio ou redes sociais) na semana seguinte ao atentado. Os voluntários também foram avaliados em relação a seus níveis de stress.


Em média, os entrevistados passavam quase cinco horas por dia em algum veículo de comunicação – principalmente em redes sociais, assistindo vídeos sobre os ataques, lendo reportagens e vendo o noticiário da televisão.


Stress agudo — Os níveis de stress foram mais elevados entre pessoas que estavam na maratona ou que conheciam alguém que presenciou o ataque. O trauma, porém, foi maior entre indivíduos que não estavam na prova, mas dedicaram mais de seis horas diárias à procura de notícias, imagens, vídeos e outras informações sobre o atentado.


O estudo ainda mostrou que pessoas que passaram mais de seis horas por dia em busca de informações sobre a tragédia foram até nove vezes mais propensas a apresentar stress agudo do que quem passou uma hora e meia diante dessas notícias. De acordo com Roxane Cohen Silver, uma das autoras da pesquisa, uma reação aguda de stress após uma situação como a tragédia de Boston inclui sintomas como pensamentos repetitivos, flashbacks ou tentativas mal sucedidas de evitar a lembrança de um acontecimento.


"Não é que a exposição direta não tenha sido importante, mas, mais do que ter estado lá, a exposição aos meios de comunicação foi o principal indicador de reação aguda ao stress", diz Roxane.


(Com AFP)


Matéria publicada na Revista Veja, em 10 de dezembro de 2013.



Sergio Rodrigues* comenta


O estudo a que se refere a notícia comentada levanta a hipótese de que “passar muitas horas atrás de informações sobre uma tragédia deixa uma pessoa mais traumatizada do que se ela tivesse presenciado o acontecimento”. Essa conclusão foi obtida após avaliar o impacto psicológico que a exposição repetida a esse fato pode ocasionar. Para tanto, foram entrevistados mais de quatro mil norte-americanos que se dedicaram, pelos diversos meios de comunicação, em busca de informações sobre o atentado ocorrido durante uma maratona que se realizou na cidade de Boston, em abril do ano passado.


Sem deixar de considerar que apenas os mais insensíveis deixam de se sentir afetados por semelhantes acontecimentos, o fato é que, muitas vezes, a maioria das pessoas deixa-se impressionar um pouco além do aceitável, o que faz com que o impacto psicológico causado pelo acontecimento nelas seja mais expressivo, podendo chegar a produzir desequilíbrios emocionais. É o que parece ter acontecido com a maioria dos entrevistados. Qual a causa disto acontecer? Uma hipótese bem provável é que essas pessoas se deixam impressionar excessivamente devido ao desconhecimento da realidade da vida espiritual. Kardec explica que é importante termos uma ideia clara e precisa a respeito da vida futura, pois do conceito que dela fazemos dependerá a nossa compreensão da vida atual e a aceitação resignada das vicissitudes e tribulações da vida terrena. Para aquele que se preocupa com esta vida como se fosse a única, tudo toma maiores proporções, o mal ganha maior dimensão. Para aquele que já conhece a realidade da vida futura, as dificuldades enfrentadas, as vicissitudes e as tribulações da vida presente não passam de incidentes transitórios, pois percebe ser tudo temporário. Esta compreensão não tira a dor nem o impacto que o acontecimento pode ocasionar, mas, com toda certeza, faz suportá-lo e aceitá-lo com mais resignação.


É claro que não conhecemos o pensamento filosófico acerca da vida por parte de cada uma das pessoas a que se refere o estudo. Contudo, certamente, não conhecem essa realidade e, por isso, foram levadas a se deixarem impressionar além do devido, chegando a terem seu equilíbrio emocional afetado, como mostra o estudo. Vemos, dessa maneira, o quanto é importante direcionarmos nosso ponto de vista acerca da nossa existência no sentido certo, tendo uma ideia clara e precisa a respeito da vida futura. É do conceito que dela fazemos que dependerá a nossa compreensão e aceitação resignada de acontecimentos como o mencionado na notícia. Essa compreensão evitará que nos portemos como as pessoas entrevistadas, fazendo-nos consumir horas em busca de informações sobre o assunto, o que causará o impacto psicológico negativo concluído pelo estudo, maior até do que o provocado pelos que o presenciaram.


* Sergio Rodrigues é espírita e colaborador do Espiritismo.Net.