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Como alimentar nove bilhões de pessoas em 2050?

19 de outubro de 2013



Como alimentar nove bilhões de pessoas em 2050?



Especialistas indicam caminhos para garantir a segurança alimentar de uma população que não para de crescer


Bárbara Pereira Libório
Exame.com


Em junho, um estudo publicado na revista científica Plos One causou frisson ao afirmar que 2050 não teremos comida suficiente para alimentar a população mundial - que, segundo dados da FAO - Food and Agriculture Organization, passará de 9 bilhões de pessoas.


O argumento é de que o rendimento das culturas agrícolas não está crescendo o suficiente, e, em alguns casos, os agricultores estão se deparando com um limite biológico que nem a genética e a biotecnologia parecem conseguir ultrapassar.


Confrontados com essa nova realidade, a tendência é de que os agricultores apelem para o desmatamento das florestas em busca de mais áreas agricultáveis. Isso representaria um aumento da emissão de CO2 na atmosfera, além de um grande risco para a biodiversidade.


Neste contexto, como garantir a segurança alimentar para uma população que não para de crescer, sem causar danos ao meio ambiente? Comer inseto, segundo a FAO, seria uma solução. Mas a transição para a entomofagia, como é chamada a dieta a base desses organismos ricos em proteínas, apesar de representar uma alternativa para reduzir a fome de forma sustentável - em comparação com a produção de carne, demanda menos quantidade de terra e outros recursos - pode parecer menos atraente que outras alternativas que, segundo os cientistas, também podem ajudar.



AGRICULTURA FAMILIAR


Em um aspecto, parece haver um consenso geral: a agricultura familiar - que já é importante para a produção de alimentos hoje - será de vital importância para atender a demanda do crescimento populacional nas próximas décadas.


Em 2009, segundo dados do IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a agricultura familiar já ocupava quase 85% dos estabelecimentos agropecuários do país. Além disso, em 2006 ela era responsável por grande parte da alimentação básica dos brasileiros, originando 87% da produção nacional de mandioca, 70% da produção de feijão, 46% do milho, e 38% do café.


Mas a demanda vai crescer. "Até 2050 nós vamos ter que aumentar a produção de alimentos em 70% para suprir o aumento populacional e o equilíbrio social no planeta", afirmou Marcos Buckeridge, biólogo e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol. Segundo ele, o Brasil é o único lugar do planeta que possui área agricultável em ambiente com estabilidade política.


"O próximo lugar é a África, mas a região ainda tem uma série de problemas políticos. Nós, brasileiros, já estamos tentando ajudar. A Embrapa já está lá, e nós estamos estudando todo esse processo, porque só com o Brasil não vai ser possível", explicou o especialista.



ALIMENTOS GENETICAMENTE MODIFICADOS


Buckeridge defende ainda a aplicação de tecnologias como a de organismos geneticamente modificados (OGMs). "O milho geneticamente modificado, por exemplo, pode produzir até 30% mais. Nós vamos ter que entrar nessa era", afirmou o biólogo. Além disso, ele vê com bons olhos o melhoramento das espécies botânicas para que elas resistam às mudanças climáticas, que avançam cada vez mais rapidamente sobre o planeta.


A introdução de transgênicos na natureza entretanto está cercada de polêmicas. Ambientalistas argumentam que tal prática expõe nossa biodiversidade a sérios riscos, como a perda ou alteração do patrimônio genético das plantas e sementes e o aumento no uso de agrotóxicos mais fortes.



ALIMENTOS ORGÂNICOS


Defensor de outra saída, Paulo Kageyama, engenheiro agrônomo e colaborador do Ministério do Meio Ambiente, diz que o país deve explorar sua biodiversidade natural.


Kageyama trabalha em parceria com a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), desenvolvendo estudos e pesquisas em assentamentos agroecológicos.


Em Apiaí, no Vale do Ribeira, em São Paulo, o modelo de agricultura sustentável e produção de alimentos orgânicos foi adotado para conciliar o desenvolvimento socioeconômico das famílias assentadas com a preservação e recuperação ambiental.


"Trabalhamos com modelos que sejam mais sustentáveis, levando em conta a biodiversidade. Se temos uma grande quantidade de terras, vamos derrubar tudo e plantar uma só espécie, como um transgênico? Nós plantamos de 20 a 30 espécies diferentes, sem usar agrotóxicos", explica o engenheiro.


Segundo dados do especialista, se compararmos o plantio de tomate orgânico e convencional em Apiaí, percebemos que a produção orgânica demanda mais terras que a tradicional. Contudo, enquanto o plantio de alimentos convencionais inclui 36 aplicações de agrotóxicos - o que corresponde a 80% do custo de produção, segundo Kageyama -, o cultivo orgânico é livre de qualquer componente químico, sendo mais benéfico à saúde humana. Além disso, protege a qualidade da água, a fertilidade do solo e a vida silvestre, conservando a biodiversidade.


Matéria publicada no Planeta Sustentável, em 15 de julho de 2013.



Carlos Miguel Pereira* comenta


Herculano Pires, comentando a questão 930, de “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, referiu: “Com uma organização social previdente e sábia o homem não pode sofrer necessidades, a não ser por sua culpa. Mas as próprias culpas do homem são frequentemente o resultado do meio em que ele vive. Quando o homem praticar a lei de Deus, disporá de uma ordem social fundada na justiça e na solidariedade e com isso ele mesmo será melhor.”


Se o problema da fome no mundo é uma questão triste pela qual nos deveríamos envergonhar como seres humanos, a escassez de alimentação para um número cada vez maior de população é uma questão de resolução muito sensível e que certamente irá dominar as atenções dos responsáveis mundiais nos próximos tempos. Mantendo os mesmos níveis de consumo, dentro de alguns anos, será necessário duplicar a produção alimentar. Alguns poderão argumentar que com os avanços tecnológicos isso será possível. Não duvido. O problema é que eventuais soluções científicas e logísticas terão um impacto ecológico tão significativo, desgastando a riqueza e a fertilidade dos solos, que poderemos caminhar de uma forma ainda mais irreversível para a escassez global.


A ciência poderá encontrar paliativos para que a humanidade continue a empurrar com a barriga este problema, mas esta situação só poderá ser resolvida com uma mudança de mentalidade. No topo das prioridades políticas e ambientais, deveria estar uma transformação cultural e social em relação aos hábitos alimentares, especialmente nos países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento. Ao longo dos séculos, o ser humano criou hábitos de consumo que visam muito mais do que a sua própria sobrevivência. Come sem ter fome, bebe sem ter sede, utilizando muitas vezes esses recursos preciosos para satisfazer necessidades sociais ou extinguir a força dos vícios. Comemos muitas vezes não aquilo que nos basta, ou aquilo que beneficia a nossa saúde, mas o que é mais fácil, agradável ao palato e até a barriga não aguentar mais. Este comportamento tem custos econômicos, sociais e ecológicos muito elevados.


Atualmente, o ser humano permite-se consumir de forma desregrada, estragar comida, comer muito, mas mal, desperdiçando recursos preciosos de uma forma insensível, irracional, egoísta e antissocial. Mais grave ainda, uma grande quantidade de alimentos não chegam sequer ao consumidor final. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, um terço dos produtos alimentares estraga-se ainda antes de chegar ao consumidor, devido a ineficiente formas de armazenamento, transporte ou distribuição.


Alguns comportamentos simples que poderiam ajudar a diminuir o desperdício alimentar: Cozinhar a sua própria comida; aproveitar comida que sobrou; não abusar da comida empacotada e pré-preparada; se tiver possibilidades, cultivar uma pequena horta; evitar o “Junk Food”; diminuir as porções de carne e peixe, aumentando as verduras e legumes; comer apenas o necessário para saciar a fome e providenciar as necessidades energéticas das nossas atividades diárias.


Mais do que uma necessidade social, estes tipos de comportamentos ameaçam transformar-se num dever diante da nossa consciência. É que se cada um de nós mantiver o valor moral e o princípio ético de respeito a si mesmo, ao próximo, ao planeta que nos recebe e à própria vida, estará dando a sua contribuição para a transformação da sociedade. Como a Doutrina Espírita pode contribuir para solucionar este problema? Ajudando à educação alimentar das pessoas. Não apenas providenciando com o alimento que mata a fome, mas também lembrando coisas que elas foram se esquecendo ou nem tiveram tempo para pensar. Esclarecendo-as, pois muitas vezes elas se encontram muito vulneráveis às tentações da publicidade e do seu marketing amoral. Em todos os campos que envolva pessoas, a educação transformadora é a maior contribuição que o Espiritismo pode dar à nossa sociedade. Para implantarmos a Nova Era que tanto desejamos, é imprescindível formar os homens que a habitarão. Educar e preparar o Homem do futuro é uma tarefa inadiável de todos nós.


* Carlos Miguel Pereira trabalha na área de informática e é morador da cidade do Porto, em Portugal. Na área espírita, é trabalhador do Centro Espírita Caridade por Amor (CECA), na cidade do Porto, e colaborador regular do Espiritismo.net.