Espiritismo .NET

Empresário abandona riqueza para cuidar de crianças pobres do Camboja

15 de setembro de 2013



Empresário abandona riqueza para cuidar de crianças pobres do Camboja



Parece história de filme: um ex-executivo abandona o salário de 6 dígitos, vende tudo o que tem e vai ajudar crianças pobres do Camboja, país asiático devastado por uma guerra de 20 anos e que possui 33% da população vivendo abaixo da linha de pobreza. Mas trata-se da história de vida de Scott Neeson, um norte-americano da Century Fox.


Ele não possui casa ou sequer um carro, mas diz que não poderia estar mais feliz. O motivo dessa felicidade ele encontrou no meio do lixão e das crianças necessitadas. A visão de crianças morando em um lixão foi, nas palavras do próprio Scott, "a coisa mais chocante da minha vida. [...] O cheiro era quase visível, tátil. Havia crianças por toda a parte, muitas delas abandonadas pelos pais, que não os queriam mais. Eles reviravam o lixão em busca de materiais recicláveis na tentativa de fazer 25 centavos de dólar no dia".


O então executivo mudou de vida no final de 2003, para começar o seu projeto de uma entidade beneficente que desse suporte a estas crianças. Scott hoje mora nos escritórios do Cambodian Children´s Fund, que engloba 4 residências, centros vocacionais, programas de assistência e reforço escolar e até mesmo uma padaria. Seu trabalho ajudou milhares de crianças a estudarem, conseguirem empregos e até mesmo a formar alguns médicos e enfermeiros.


Embora saudoso de Hollywood e dos hobbies caros que possuía quando era um executivo bem-sucedido, ele diz que não mudaria sua decisão radical de ajudar as crianças do Camboja. "Sinto saudades de jogar pádel aos domingos com meus amigos e de passear de lancha. Aqui, nos domingos estou no lixão. Mas sou feliz de verdade".


Com informações do The Huffington Post e Minuto Positivo. Dica do site SóNotíciaBoa


Notícia publicada na Agência da Boa Notícia, em 22 de fevereiro de 2013.



Raphael Vivacqua Carneiro* comenta


Segundo a tradição budista, no século V a.C. o príncipe Siddhartha vivia no conforto e na proteção de seus palácios no Nepal, ao lado de seu pai, o rei Suddhodana, o qual garantia que tudo lhe fosse fornecido e que lhe fosse afastado todo o contato com o sofrimento humano. Aos 29 anos, o príncipe resolveu sair do seu palácio e encarar as suas inquietações. Em suas andanças, Siddhartha encontrou pessoas velhas, doentes e mortas. Frente a esse choque de realidade, ele decidiu abandonar a vida palaciana e iniciar a sua vida ascética, pedindo esmolas, privando-se dos bens materiais, buscando elevados níveis de consciência meditativa, até atingir a iluminação espiritual. Quando compreendeu as causas do sofrimento humano e os caminhos necessários para eliminá-lo, tornou-se o Buda, ou “o iluminado”, guia espiritual de milhões de seguidores.


Avançando no tempo e no espaço, encontramos na Palestina, no século I, um moço rico que se dirige ao mestre Jesus e lhe pergunta o que devia fazer para conseguir a vida eterna. Jesus orienta-o a seguir os mandamentos de Moisés e também o que considera o maior de todos: “amarás o teu próximo como a ti mesmo”. O jovem afirma seguir tudo isso e indaga o que ainda lhe faltava. Então Jesus lhe responde: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me”. E o jovem, ouvindo isso, retirou-se triste, porque possuía muitos bens.


Entrando novamente em nossa máquina do tempo, chegamos a Assis, na Itália, no século XIII. O jovem Francisco di Bernardone era filho de um rico comerciante e afeito a extravagâncias, farras e aventuras. Numa delas, teve uma visão num sonho, em que uma voz lhe dizia: “Volta para a tua terra, e te será dito o que haverás de fazer”. Pouco depois, começou a perder o interesse por seus hábitos mundanos e mostrar preocupação com o lado espiritual e a ajuda aos necessitados. Enquanto orava na igreja de São Damião, ouviu uma voz que lhe dizia: “Francisco, repara a minha igreja, que está em ruínas”. Decidiu então romper com o seu passado e começar vida nova. Em praça pública, despiu-se de suas roupas luxuosas, renunciou à sua herança, e partiu para uma vida de pobreza e caridade, junto do povo, da qual jamais retornou. Tornou-se o amado São Francisco de Assis.


Mais uma vez avançando no tempo e no espaço, nossa próxima parada é em Los Angeles, no século XXI. O executivo Scott Neeson, de origem escocesa e australiana, realiza o chamado “sonho americano”, com uma carreira profissional de muito sucesso, alcançando o posto de presidente da 20th Century Fox International, uma das gigantes do ramo cinematográfico. Durante uma década na empresa, lidou com megaproduções como “Titanic”, “Star Wars” e mais de uma centena de filmes. Em 2003, trocou a Fox pela Sony Pictures. Antes de assumir o novo posto, resolveu tirar um pequeno período sabático, realizando uma viagem ao Camboja. Lá conheceu o lixão de Steung Meanchey, na periferia da capital Phnom Penh. No país devastado por 20 anos de guerra, com 33% da população vivendo abaixo da linha de pobreza, um grande número de crianças luta pela sobrevivência naquele lixão, catando materiais recicláveis, na esperança de obter um dólar por dia, se der sorte.


Enquanto observava aquele cenário desolador, o seu celular toca. Do outro lado da linha, um agente de estrelas de Hollywood reclamava, irritado, porque o jatinho particular que foi providenciado para a sua cliente não tinha o entretenimento de bordo que ela desejava. “Minha vida não foi feita para ser tão difícil”, bradava. O contraste era gritante. De um lado, vaidades e futilidades de um universo alienado; de outro, o ambiente fétido e insalubre ao seu redor, povoado de crianças esquálidas e doentes. Isso foi o estopim para uma guinada radical nos rumos de sua vida. Num intervalo de poucos meses, ele abriu mão do seu emprego de alto executivo, que lhe rendia um milhão de dólares por ano, vendeu tudo o que tinha, inclusive o seu Porsche e o seu iate. Em seguida, mudou-se para o Camboja, onde criou uma instituição de caridade chamada Cambodian Children’s Fund, que inicialmente abrigava 45 crianças que viviam em estado crítico e atualmente oferece educação, assistência médica e capacitação a mais de 1500 crianças cambojanas, sendo dois terços delas oriundas do lixão de Steung Meanchey. Desde então, Scott Neeson dedica-se integralmente a essas crianças e à instituição.


Feito esse ligeiro passeio pela História, o que vemos de semelhança nesses quatro personagens que pertencem a séculos e continentes tão distantes? O príncipe Siddhartha, o jovem da Palestina, Francisco di Bernardone e Scott Neeson – todos eram moços ricos e todos ouviram “o chamado”. E para atender ao chamado, era necessário abrir mão do extremo conforto que a vida lhes proporcionara até então. “Muitos são chamados, mas poucos escolhidos”.


A opção pela vida na pobreza, feita por Buda, Francisco de Assis e pelo próprio Cristo, pode levar a crer que a riqueza seja algo abominável. Porém este não é o âmago da questão. A Doutrina Espírita veio explicar que trabalhar pela melhoria material do planeta é também uma das missões do homem. A fim de encontrar os meios de executar seus trabalhos com maior segurança e rapidez, o homem procura evoluir a ciência e a tecnologia. Para tanto, precisa de recursos, e a necessidade faz o homem criar a riqueza, assim como o faz descobrir a ciência. A atividade que esses trabalhos impõem amplia e desenvolve a inteligência do homem; e essa inteligência concentrada na satisfação das necessidades materiais o ajudará mais tarde a compreender as grandes verdades morais. Sem a riqueza, não haveria grandes obras, nem descobertas. Portanto, a riqueza é um elemento de progresso. E o progresso é uma lei divina.


O ensino de Jesus, assim como as Nobres Verdades de Buda, orienta quanto ao desapego dos bens terrenos, como condição essencial à bem-aventurança. Isto não significa a abominação da riqueza, mas do apego que o homem tem a ela. O homem é um depositário, um administrador dos bens que Deus lhe pôs nas mãos. Terá de prestar contas do emprego que lhes haja dado com o seu livre-arbítrio. O mau uso consiste em aplicar esses bens exclusivamente na sua satisfação pessoal; o bom uso, ao contrário, é quando disso resulta um bem para outros. Como na parábola dos talentos, o bom rico é aquele que multiplicou as dádivas recebidas. E Deus lhe dirá: “Bom e fiel servo, compartilha da alegria do teu Senhor!”. Neste sentido, Scott Neeson veio demonstrar a todos nós, pelo exemplo de vida, que a prova da riqueza pode ser muito bem-sucedida.


* Raphael Vivacqua Carneiro é engenheiro e mestre em informática. É palestrante espírita e dirigente de grupo mediúnico em Vitória, Espírito Santo. É um dos fundadores do Espiritismo.net.