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Egoísmo poderia ter extinto seres humanos, diz pesquisa

17 de setembro de 2013



Egoísmo poderia ter extinto seres humanos, diz pesquisa



Melissa Hogenboom
Repórter de Ciência, da BBC News


A evolução não favorece às pessoas egoístas, segundo uma nova pesquisa realizada por cientistas americanos.


O resultado contraria uma teoria anterior que sugeria ser melhor tomar decisões favorecendo a si mesmo.


Ao contrário disso, o novo estudo afirma que ser cooperativo traz vantagens sobre o egoísmo.


Divulgado pela publicação científica Nature Communications, o estudo concluiu que se todos preferissem exercer ações egoístas os seres humanos poderiam ter sido extintos.


Para conduzir a pesquisa, os cientistas usaram uma teoria que envolve a simulação de situações de conflito ou de cooperação. Ela também permite desvendar estratégias de tomadas de decisão complexas e estabelecer porque certos tipos de comportamento surgem entre os indivíduos.



Dilema do prisoneiro


O estudo, realizado por uma equipe da Michigan State University, nos Estados Unidos, usou como modelo o chamado "jogo do dilema do prisioneiro", onde dois suspeitos são interrogados em celas separadas e devem decidir se delatam um ao outro ou se preferem se calar.


Nesse modelo, um acordo de liberdade é oferecido a cada prisioneiro se eles decidirem denunciar o outro.


A liberdade só é alcançada por aquele que denuncia, desde que o outro oponente decida ficar calado, o que leva este último a ser punido com seis meses de prisão.


Se ambos os prisioneiros denunciam um ao outro, os dois pegam três meses de prisão - delação.


No caso dos dois decidirem ficar em silêncio juntos - cooperação - eles ficariam apenas um mês na prisão.


O importante teórico matemático John Nash demonstrou, nesse modelo, que a tendência mais observada era a de não cooperar.


"Por muitos anos, as pessoas se questionaram se Nash estava certo. Por exemplo: por que vemos cooperação no reino animal, no mundo dos micróbios e até mesmo dos humanos?", diz o autor da pesquisa, Christoph Adami, da Michigan State University, que começou a questionar o conceito de Nash.



A resposta


A resposta, afirma Adami, é de que a comunicação entre os indíviduos do "jogo do dilema do prisioneiro" nunca havia sido levada em consideração.


"A teoria parte do pressuposto de que os dois prisioneiros interrogados não podem falar entre si. Caso isso acontecesse, eles fariam um pacto e ganhariam a liberdade em um mês. Mas, proibidos de conversar, a tentação é de que haja uma delação, de um ou de outro", diz o cientista.


"Agir de má fé pode dar uma vantagem competitiva a curto prazo mas certamente não a longo prazo. E, inevitavelmente, levaria à extinção da nossa espécie".


Essas últimas descobertas contradizem um estudo realizado em 2012. A pesquisa revelou que os egoístas apresentariam uma vantagem frente aos que prezassem pela cooperação.


O resultado foi batizado como a estratégia "egoísta e de má fé" e dependeria de que o participante soubesse da decisão prévia de seu adversário, ao que adaptaria sua estratégia de acordo com esse conhecimento.


Crucialmente, em um ambiente evolucionário, conhecer a decisão de seu adversário poderia não se tornar uma vantagem a longo prazo, porque o oponente poderia desenvolver o mesmo mecanismo de reconhecimento que o seu, explicou Adami.


Essa foi exatamente a conclusão a que a equipe chegou. Para obter tal resultado, eles usaram um poderoso modelo de computador para realizar centenas de milhares de combinações, simulando um simples intercâmbio de ações que, no entanto, levou em conta uma comunicação prévia entre os "usuários".


"Nós criamos um modelo no computador para coisas muito generalistas, notadamente decisões entre dois tipos de comportamentos. Nós as chamamos de cooperação e deserção. Mas no mundo animal há todos os tipos de comportamentos que são binários (com apenas duas opções), por exemplo, fugir ou combater", afirmou Adami à BBC News.


"É como se tivéssemos uma corrida armamentista durante a Guerra Fria – mas essas corridas armamentistas ocorrem todo o tempo na biologia evolutiva".



Darwin


O professor Andrew Coleman da Universidade de Leicester, no Reino Unido, disse que o novo trabalho "freia interpretações com excesso de zelo" da estratégia prévia, que propôs o avanço de padrões egoístas e manipuladores.


"Darwin ficou intrigado com o que observou na natureza. Ele se atinha particularmente aos insetos e seu modelo de cooperação", explicou.


"Pode-se pensar que a seleção natural poderia favorecer indivíduos que são exploradores e egoístas, mas, na verdade, nós sabemos agora, depois de décadas de pesquisa, que essa é uma visão simplista das coisas, especialmente se o "gene egoísta" da evolução for levado em consideração".


"Explico-me: não são os indivíduos que têm de sobreviver, mas sim seus genes. Os genes só usam os organismos – de animais ou de humanos – como veículos de propagação."


"Os genes egoístas" se beneficiam, portanto, de organismos que cooperam entre si", conclui.


Notícia publicada na BBC Brasil, em 3 de agosto de 2013.



Jorge Hessen* comenta


Novas pesquisas revelam que o princípio da evolução pode ocorrer em termos bem mais caritativos do que habituamos conceber. Contrariando a velha tese de Charles Darwin que sugeria ser melhor para o homem tomar decisões favorecendo a si mesmo (egoísmo), estudiosos têm alegado que o princípio evolucionista só favorece aos altruístas. Tais pesquisas atestaram que se os homens elegessem desempenhar relações egoístas, a raça humana poderia ter sido extinta do planeta. Assim a abnegação e o espírito cooperativo trazem a conservação da humanidade.(1)


Edward Wilson, da Universidade de Harvard, Estados Unidos, afiança que a evolução do altruísmo é o problema teórico central da sociobiologia(2). A questão já intrigava o Pai da Teoria da Evolução, que em 1871, no livro “A Origem do Homem”, utilizou a seleção de grupo para explicar a evolução da moralidade humana. Darwin defendia que o comportamento moral não traz vantagem para o indivíduo, que lucraria mais desobedecendo as regras para agir de acordo com sua vontade própria. Embora, reconheça que uma tribo regida por valores que enfatizem “o espírito de patriotismo, fidelidade, obediência, coragem e solidariedade” certamente será mais coesa e organizada e assim terá maiores chances de vitória na disputa por recursos naturais ou territórios com tribos menos virtuosas. Destarte, a seleção natural agiria não somente sobre indivíduos, mas também sobre grupos competidores.


Na visão do biólogo Robert Trivers, da Universidade de Rutgers, em Nova Jersey, os seres humanos são menos cooperativos do que os insetos sociais [formigas e abelhas]. Entretanto, os seus colegas Williams Hamilton, considerado um dos maiores teóricos da evolução de todos os tempos, e Richard Dawkins, da Universidade de Oxford,  entendem que a natureza não é pródiga e guarda tantos ou mais exemplos de egoísmo quanto de altruísmo.(3)


Alguns teóricos afirmam que entre os humanos há um sistema de altruísmo recíproco com um meio de troca – o dinheiro – que uniu o mundo inteiro em uma economia interligada, mas com muito mais conflito interno e muito menos altruísmo. Afirma-se que quem é altruísta aos “seus” não é generoso – é nepotista.(4) Será que podemos qualificar de altruísmo aquilo que fazemos com vistas a uma retribuição futura? Fica a sensação de que, sob a pele de cordeiro do altruísmo, vamos sempre encontrar um lobo egoísta. Aliás, é exatamente o que afirmou em 1974 o biólogo americano Michael Ghiselin: “arranhe um altruísta, e você verá um egoísta sangrar”.(5)


A palavra "altruísmo" foi cunhada em 1831, por Augusto Comte, Pai do Positivismo, para caracterizar o conjunto das disposições humanas (individuais e coletivas) que inclinam os homens a dedicarem-se aos outros. Esse conceito opõe-se, portanto, ao egoísmo, que são as inclinações específica e exclusivamente individuais (pessoais ou coletivas).


O pensador Samuel Bowles(6) coloca em dúvida a teoria do Darwin sobre a ideia de que os homens são inteiramente egoístas. O comportamento humano é muito mais complexo do que a teoria da evolução supõe. Para Bowles a seleção natural pode produzir espécies altruístas e cooperativas. Diversas pesquisas que realizou demonstraram que a seleção natural pode produzir espécies altruístas e cooperativas – em vez de seres humanos inteiramente egoístas. No ponto de vista de Samuel Bowles, o naturalista Charles Darwin estava errado.


Bowles radicaliza sua tese ao afirmar que as pessoas se ajudavam antes de existir a bíblia. Para ele, ajudar é um ato humano, sem necessariamente estar relacionado a aprendizagem de uma religião. A maioria das pessoas não age de maneira egoísta, como se acreditava antigamente à luz da teoria da evolução, até porque, menos de um terço das pessoas é egoísta. O mundo está se tornando mais altruísta e menos egoísta segundo a concepção de Bowles.(7)


Será que a tese de Bowles procede? As instruções dos Espíritos não confirmam. “Tendo o Espiritismo a tarefa de colaborar para o desenvolvimento moral da humanidade, o que elevará a Terra na hierarquia dos mundos, o egoísmo é o alvo, para o qual, os espíritas, principalmente, 'devem dirigir suas armas, suas forças e sua coragem', combatendo-o em si próprio.”(8) O egoísmo, considerado por Emmanuel, como o “filho do orgulho” e o “monstro devorador de todas as inteligências”, porque as domina, direcionando-as para o mal, a dor e o sofrimento, “é a fonte de todas as misérias terrenas”, porque leva o homem a pensar somente em si, impedindo-o de fazer crescer o amor, inerente em si, no ser espiritual, em potencialidade a ser desenvolvida por sua vontade. “A Terra é um planeta surpreendente, um rico educandário, mas o único elemento que aí destoa da Natureza é justamente o homem, avassalado pelo egoísmo. O atual estado de espírito do homem moderno, que tanto se preocupa com o “estar bem na vida”, “ganhar bem” e “trabalhar para enriquecer” constitui forte expressão de ignorância dos valores espirituais na Terra, onde se verifica a inversão de quase todas as conquistas morais. Esse excesso de inquietação, no mais desenfreado egoísmo, tem provocado a crise moral do mundo. Em face disso os maiores obstáculos que Deus encontra em nós, para que recebamos os seus socorro indireto, afetuoso e eficiente são oriundos da ausência de humildade sincera nos corações; para o exame da própria situação de egoísmo.”(9)


As anomalias morais nos procedimentos de desordem e de brutalidade são indícios de atraso moral ou de estacionamento no exclusivismo. “As criaturas, de um modo geral, ainda têm muito da tribo, encontrando-se encarcerados nos instintos propriamente humanos, na luta das posições e das aquisições, dentro de um egoísmo quase feroz, como se guardassem consigo, indefinidamente, as heranças da vida animal.”(10)


A Doutrina Espírita expõe que na eclosão dos manifestos egoísticos, inatos no seres humanos,  há sempre o sabor amargo da inutilidade no coração dos seres desenganados pela hegemonia do individualismo. Nesse sentimento de frustração pode degustar a expansão de suas buscas irresistíveis e profundas para o “mais alto”. Nesse ensejo, o altruísmo, a fraternidade e o amor conquistam uma nova expressão no íntimo da criatura, a fim de que o homem possa alçar o grande voo para os mais excelsos destinos.



Referências bibliográficas:


(1) Divulgado pela publicação científica Nature Communications e disponível em http://super.abril.com.br/ciencia/evolucao-bondade-443958.shtml>, acessado em 12/09/2013;


(2) Ciência que busca entender em bases biológicas o comportamento social dos seres;


(3) Disponível em http://super.abril.com.br/ciencia/evolucao-bondade-443958.shtml>, acessado em 12/09/2013;


(4) Idem;


(5) Idem;


(6) Conselheiro econômico em Cuba, na Grécia, do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela e dos ex-candidatos à Presidência dos Estados Unidos Robert F. Kennedy e Jesse Jackson. Seus estudos sobre a evolução genética e cultural dos humanos têm repercutido em publicações de prestígio, como as revistas “Nature” e “Science”;


(7) Disponível em http://www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/129045_CHARLES+ DARWIN+ESTAVA+ERRADO+>;


(8) Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XI: Amar o próximo como a si mesmo, Instruções dos Espíritos: o egoísmo, item 11, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2001;


(9) Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, ditado pelo espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1990, perguntas 68, 72, 125, 183, 313, 348 e 410;


(10) Idem.


* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal lotado no INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.