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Raças humanas não existem como entidades biológicas, diz geneticista

4 de agosto de 2013



Raças humanas não existem como entidades biológicas, diz geneticista



Kelly Cristina Spinelli
Do UOL, em São Paulo


Se é inegável concluir que o racismo ainda existe – e tem força – a ideia de que a espécie humana pode ser dividia em raças está cada vez mais obsoleta.


Desde o final da Segunda Guerra Mundial, depois do nazismo, começaram a ser promovidos estudos que discutiam a ideia de raça na biologia e nas ciências sociais.


A inexistência das raças biológicas ganhou força com as recentes pesquisas genéticas. Os geneticistas descobriram que a constituição genética de todos os indivíduos é semelhante o suficiente para que a pequena porcentagem de genes que se distinguem (que inclui a aparência física, a cor da pele etc) não justifique a classificação da sociedade em raças. Essa pequena quantidade de genes diferentes está geralmente ligados à adaptação do indivíduo aos diferentes meio ambientes.


No Brasil, Sergio Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais, em conjunto com uma série de pesquisadores, publicou dezenas de artigos científicos na área. "Nossos estudos revelaram que em nosso país, a cor avaliada pela aparência das pessoas tem uma correlação fraca com o grau de ancestralidade africana estimada geneticamente. Em outras palavras, no Brasil, a nível individual, a cor, como socialmente percebida, tem pouca relevância biológica. Importantemente, cada brasileiro tem uma proporção individual única de ancestralidade ameríndia, europeia e africana", diz Pena.


Para ele, a noção de raças humanas "é tóxica": "Como uma casca de banana, o conceito de raça é vazio e perigoso. Vazio, porque sabemos que "raças humanas" não existem como entidades biológicas. Perigoso, porque o conceito de "raça" tem sido usado para justificar discriminação, exploração e atrocidades", diz.


Para os sociólogos, o perigo é entendermos que se a raça biológica não existe, o racismo também não. "Antônio Sérgio Guimarães afirma que o conceito não faz sentido senão no âmbito de uma ideologia", diz Márcia Lima, do departamento de sociologia da USP. "Não é necessário reivindicar nenhuma realidade biológica das "raças" para fundamentar a utilização do conceito em estudos sociológicos".


"O problema é descontextualizar esses processos científicos do cenário histórico que os está produzindo. Eu compreendo racismo como um fenômeno social e não um biológico. As raças não existem, mas a mentalidade relativa às raças foi reproduzida socialmente", concorda Gevanilda Santos, autora de Racismo no Brasil, entre outros livros sobre o tema.


A discussão é muito pertinente em um momento em que ações afirmativas baseadas em conceitos raciais, como a lei de cotas, surgem para tentar corrigir os problemas sociais ligados ao racismo.


Para os geneticistas, a conclusão de que a raça não está nos nossos genes pode ser mais uma ferramenta no combate ao racismo, já que corrige o erro histórico dos cientistas do passado.


Notícia publicada no Portal UOL, em 5 de fevereiro de 2013.



Jorge Hessen* comenta


Para a ciência contemporânea, o conceito de raça é abstrato e agressivo, pois raças humanas não existem como entes biológicos. É agressivo porque a concepção de raça tem sido usada para abonar discriminação, opressão e barbaridades. “As raças não existem, mas a mentalidade relativa às raças foi reproduzida socialmente.”(1) Do ponto de vista espírita, a percepção de que o homem possa (re)encarnar na condição de branco, negro, mulato ou índio estabelece uma ruptura com o preconceito e a discriminação.


Infelizmente, ainda hoje na Grã-Bretanha adeptos do “neo-espiritualismo” recusam a tese da reencarnação, por não aceitarem a probabilidade de terem tido encarnações em posições inferiores quanto à raça e à condição social. Sob a ótica dos princípios espíritas, “apaga-se, naturalmente, toda a distinção estabelecida entre os homens segundo as vantagens corpóreas e mundanas, sobre as quais o orgulho fundou castas e os estúpidos preconceitos de cor”.(2) O Espiritismo não compactua, sob quaisquer pretextos, com ideologias que visem o apartheid étnico entre os grupos sociais.


A afirmação das raças biológicas multicoloridas tem sido cada vez mais rejeitada pela genética. Os pesquisadores descobriram que a natureza genética de todos nós é idêntica o bastante para que a mínima porcentagem de genes que se caracterizam na aparência física, cor da pele etc... invalide a composição da sociedade em raças. Isso porque o acanhado número de genes desiguais está comumente conectado à adequação do indivíduo ao tipo de meio ambiente em que vive.


Os brasileiros atualmente mostram-se, aparentemente, menos preconceituosos do que há duas décadas. Contudo, reconhecemos o preconceito no outro, mas não em nós mesmos. Ou, como já definiu a historiadora da USP, Lilia Moritz Schwarcz, “todo brasileiro se sente como uma ilha de democracia racial, cercado de racistas por todos os lados”.(3) É preocupante constatar que a ambivalência se mantém. Parece que os brasileiros jogam, cada vez mais, o preconceito para o outro. Eles são, mas eu não. Irrisão!


O pesquisador Sérgio Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais, atesta que a cor da pele, como socialmente percebida, tem pouca relevância biológica. “Cada brasileiro tem uma proporção individual única de ancestralidade ameríndia, europeia e africana.”(4) Para os geneticistas, “a conclusão de que a raça não está nos nossos genes pode ser mais uma ferramenta no combate ao racismo, já que corrige o erro histórico dos cientistas do passado”.(5)


A discussão é muito pertinente em um momento em que ações afirmativas fundamentadas em conceitos raciais, como a lei de cotas, surgem para tentar corrigir os problemas sociais ligados ao racismo. A Constituição do Brasil estabelece que “ninguém terá tratamento desigual perante a lei e o acesso ao ensino superior se dará por mérito”.(6) As cotas para negros nas universidades, desde sua implantação no Brasil, em 2002, têm dividido opiniões. Pouco mais da metade da população, ou melhor, 51%, são favoráveis à reserva de vagas para negros, mas, paradoxalmente, 86% defendem as cotas para pessoas pobres e de baixa renda, independentemente de raça.


O mapa estatístico retrata que 53% dos brasileiros creem que estabelecer cotas para negros é humilhá-los. Todavia, contraditoriamente, 62% concebem que elas são fundamentais para ampliar o acesso de toda a população à educação. Contudo, 62% dizem que essas cotas podem gerar atos de racismo. Em verdade, “a sobrevivência da ideia de raça é deletéria, por estar ligada à crença continuada de que os grupos humanos existem em uma escala de valor”.(7)


No bojo da literatura basilar da Terceira Revelação, Kardec ressalta que, “na reencarnação desaparecem os preconceitos de raças e de castas, pois o mesmo Espírito pode tornar a nascer rico ou pobre, capitalista ou proletário, chefe ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher. Se, pois, a reencarnação funda numa lei da Natureza, o princípio da fraternidade universal também funda na mesma lei, o da igualdade dos direitos sociais e, por conseguinte, o da liberdade”.(8)


Num artigo publicado na Revista Espírita, de abril de 1862, “Frenologia espiritualista e espírita – Perfectibilidade da raça negra”(9), Kardec faz uma espécie de releitura dessa “ciência”, com um enfoque espiritualista, demonstrando que o “atraso” dos negros (habitantes da África à época) não se deveria a causas biológicas, mas por seus espíritos encarnados ainda serem, relativamente, jovens.


Porém, sem dúvida alguma, o racismo brasileiro, ainda escamoteado e acobertado pelo mito da “democracia racial”, é um estigma, uma nódoa presente na mente dos brasileiros, e que faz parte do cotidiano de todos nós. Deus não concedeu superioridade natural aos homens, nem pelo nascimento, nem pela morte. Diante d’Ele, todos são iguais. Dessa forma, é mais do que lógico o próprio negro entender que somente ele poderá conquistar seu espaço nas diversas áreas do conhecimento. Ninguém fará por ele aquilo que deve ser feito para o seu próprio bem estar, e isso vale para todas as raças.


A verdade é que nos grandes debates de cunho sociológico, antropológico, filosófico, psicológico etc., o Espiritismo provocará a maior revolução histórica no pensamento humano, conforme está inscrito nas questões 798 e 799 de O Livro dos Espíritos, sobretudo quando ocupar o lugar que lhe é devido na cultura e conhecimento humanos, pois seus preceitos morais advertirão os homens da urgente solidariedade que os há de unir como irmãos, apontando, por sua vez, que o progresso intelecto-moral na vida de todos os Espíritos é lei universal, e tendo por modelo Jesus, que, ante os olhos do homem, é o maior arquétipo da perfeição que um Espírito pode alcançar.(10)



Referências bibliográficas:


(1) Disponível em http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2013/02/05/ciencia-busca-explicacoes-sociais-e-biologicas-para-explicar-o-preconceito.htm>, acessado em 20/07/2013;


(2) Kardec, Allan. Revista Espírita de abril de 1861, págs. 297-298;


(3) Disponível em http://zelmar.blogspot.com.br/2010/09/todo-brasileiro-se-sente-uma-ilha-de.html> acessado em 22/07/2013;


(4) Disponível em http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2013/02/05/racas-humanas-nao-existem-como-entidades-biologicas-diz-geneticista.htm>, acessado em 15/07/2013;


(5) Disponível em http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2013/02/05/racas-humanas-nao-existem-como-entidades-biologicas-diz-geneticista.htm>, acessado em 18/07/2013;


(6) Constituição Federal, Editora Saraiva;


(7) Sérgio Pena, autor do livro “Humanidade Sem Raças?” (Publifolha, 2008), da Série 21;


(8) Kardec, Allan. A Gênese, Rio de Janeiro: Editora FEB, 2002, pág. 31;


(9) Publicado na Revista Espírita, artigo “Frenologia espiritualista e espírita – Perfectibilidade da raça negra”, de abril de 1862;


(10) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Editora FEB, 2003, parte 3ª, q. 798 e 799, cap. VIII, item VI – Influência do Espiritismo no Progresso.


* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal lotado no INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.