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Tarda, mas não falha: história da princesa que levou a vingança muito a sério

2 de agosto de 2013



Tarda, mas não falha: a história da princesa que levou a vingança muito a sério



Júlia Matravolgyi


Era uma vez, num reino muito, muito distante, uma princesa chamada Olga. Ela e seu marido, o príncipe Igor de Kiev, viviam uma vida que poderia fazer parte de algum conto de fadas – até que o ano de 945 mudou a história do casal, tornando-a digna de filme de suspense. Naquele ano, Igor foi assassinado pela família Drevlian, durante uma viagem em que coletava impostos. Foi então que Olga mostrou seu lado vingativo.


Como a maioria da população a considerava ingênua, os Drevlian, que tinham interesse em estender seu reinado para uma nova área, tentaram arranjar um casamento com a viúva. Pouco tempo depois da morte de Igor, foram visitá-la para tratar do assunto.


A princesa, que de boba não tinha nada, recebeu os interesseiros de maneira muito simpática e sugeriu que fossem de barco até a entrada de seu castelo, para poupar-lhes a caminhada. Quando chegaram aos jardins do palácio, os visitantes foram despejados (com barco e tudo) em trincheiras gigantes – e enterrados vivos.


Para a sorte de Olga e azar de seus inimigos, no século X a informação não era rápida como nos dias de hoje. Por isso, a viúva ainda teve a oportunidade de receber em seu castelo mais alguns Drevlians interessados em discutir o matrimônio, sem saber que um destino fatal os esperava. Assim que chegavam, Olga dava ordens para que fossem enviados à casa de banho, onde as portas eram imediatamente trancadas, impedindo que os visitantes escapassem… do fogo que ela mandava atear no edifício.


Não satisfeita, Olga se dirigiu às terras dos Drevlians, com a desculpa de que faria um funeral para seu marido. Durante a cerimônia foram servidas bebidas – a princesa, no ápice de sua crueldade, esperou que as pessoas ficassem bêbadas para então ordenar que fossem mortas, uma a uma. Um pequeno detalhe: calcula-se que, apenas nesse episódio, Olga de Kiev assassinou cerca de 5 mil homens.


Calma, ainda não acabou! Como a vingança é um prato que se come frio, a princesa encerrou a sua em grande estilo. Depois de matar milhares de pessoas ligadas à família responsável pelo assassinato de Igor, ela viajou ao redor do império de seus inimigos para arrecadar tributos. Uma cidade chamada Iskorosten, que não tinha medo do perigo, se recusou a pagar os impostos. Olga, então, afirmou que poderia perdoá-los se cada casa a presenteasse com um pombo, proposta que os moradores aceitaram de bom grado. Naquela noite, enquanto a cidade dormia, Olga mandou que fossem amarradas brasas acesas nas patas dos animais, e que todos fossem enviados de volta a suas casas. Conclusão: a cidade toda pegou fogo – e ela ainda matou ou extorquiu aqueles que tentaram escapar das chamas.


Quando conheceram seu lado vingativo, os Drevlian desistiram de qualquer possibilidade de casamento (por que será?). Sendo assim, Olga reinou até que seu filho, Svyatoslav, tivesse idade para assumir o trono. Como governante ela foi responsável pela primeira reforma legal da Europa Oriental, efetuando mudanças no sistema de arrecadação de tributos. Foi a primeira governante russa a se converter ao catolicismo.


Notícia publicada na Revista Superinteressante, em 3 de junho de 2013.



Raphael Vivacqua Carneiro* comenta


Tão antiga quanto a fixação do homem à terra para dela extrair o seu sustento, é a sua ambição por expandir os seus territórios e dominar as criaturas que possam lhe servir. A princípio, os homens naturalmente formam pequenas comunidades autônomas; em seguida, o grupo militarmente mais poderoso se impõe sobre os demais e os reúne num reino, exigindo de cada comunidade o pagamento de tributos e a submissão às leis ditadas pelo soberano. Os reinos vizinhos medem forças entre si, e aquele militarmente predominante os aglutina num império, exigindo vassalagem ao imperador. Essa ambição expansionista só é contida quando se interpõem forças externas equivalentes ou superiores, ou então quando se deteriora a estrutura que impõe a unidade territorial à força. “Na infância das sociedades, a lei humana consagra o direito do mais forte”, comenta Allan Kardec. Assim tem sido em toda a história da civilização neste planeta, desde cinco milênios atrás, quando o faraó Menés consolidou os reinos do Alto e Baixo Egito, formando o primeiro e o mais duradouro império conhecido. Em 1947, o Japão deixou de ser o último império oficialmente constituído; porém ainda hoje existem outras formas de imperialismo em vigor pelo mundo, nas áreas econômica e cultural.


Obviamente, o processo de submissão de um povo a um domínio estrangeiro não ocorre pacificamente, mas com muita opressão e derramamento de sangue. Não há qualquer sentimento altruísta e humanitário envolvido nisso, apenas prepotência, ambição, ganância, orgulho e egoísmo. Não obstante, como a Providência divina é infinitamente sábia, ela sempre consegue extrair algo de bom da cupidez humana. Nesse processo de miscigenação de culturas, os povos mais desenvolvidos acabam por transmitir saber aos menos providos. E como o grupo dominante é sempre aquele mais avançado tecnologicamente, a ambição pelo poder acaba induzindo o homem a desenvolver a inteligência e a ciência. Os espíritos sábios afirmam: o progresso moral decorre do progresso intelectual; logo, mesmo trilhando caminhos tortuosos, o homem acabará chegando ao ponto que deveria.


A disputa entre Kiev e Iskorosten enquadra-se exatamente nesse contexto histórico de relação conflituosa entre império e província. Até o século IX, Kiev pagava tributo ao Império Cazar, cujo povo era de origem turcomana. Entre o final do século IX e o início do século X, a cidade foi conquistada pelos varegues, povo de origem escandinava, liderados pelo príncipe Oleg de Novgorod. Na região situada entre o mar Báltico e o mar Cáspio, os varegues criaram um império denominado Rússia Kievana, cuja capital passou a ser Kiev. Um dos vários povos conquistados por esse império foram os drevlianos, cuja capital era Iskorosten. Os drevlianos se opunham ferrenhamente ao domínio estrangeiro e, com a morte do príncipe Oleg no ano 912, pararam de pagar tributo a Kiev. O príncipe Igor de Kiev, sucessor de Oleg, tentou pessoalmente reativar a coleta de tributos, mas os drevlianos se revoltaram e assassinaram-no em 945, gerando a terrível represália de sua viúva, a princesa Olga.


Certamente há muito exagero e folclore na narrativa dos feitos de Olga, conforme o costume das crônicas medievais. Como exemplo disso, é muito inverossímil e impraticável a cena do envio de pombos com brasas acesas atadas às suas patas, a fim de incendiar uma cidade. Por outro lado, algo que é muito verossímil, principalmente naquele período histórico da Humanidade, é o emprego de tirania, brutalidade e crueldades hediondas para resolver disputas. Segundo um cronista da época, também houve requintes de crueldade na morte de Igor, que teve o seu corpo rasgado ao meio. A represália de Olga incluiu o assassinato de embaixadores e nobres drevlianos, além da destruição completa da capital Iskorosten.


Pode-se supor que Olga tenha sido movida apenas por impulsos de vingança. Entretanto, a sua reação condiz com a estratégia de dominação tirânica praticada por todos os impérios sobre as províncias rebeldes. O Império Romano praticava inúmeras “expedições punitivas”, como estratégia militar de manutenção da soberania sobre os povos conquistados. Mesmo em disputas regionais, a crueldade era prática comum. Na guerra entre hebreus e amonitas, temos a seguinte narração bíblica: “E, trazendo o povo que havia nela, o pôs às serras, e às talhadeiras de ferro, e aos machados de ferro, e os fez passar por forno de tijolos; e assim fez a todas as cidades dos filhos de Amom; e voltou Davi e todo o povo para Jerusalém” (2 Samuel 12:31).


A justiça divina se manifesta pelos mecanismos de ação e reação. Após o período de glórias de Davi e Salomão, os hebreus foram dominados sucessivamente por assírios, babilônios, persas, gregos e romanos. Roma sucumbiu às invasões bárbaras, no ano 476. E a Rússia Kievana foi arrasada pelos mongóis em 1240, liderados por Batu Khan, neto do imperador Gengis Khan. A agressão cometida em determinado momento, retorna posteriormente como agressão recebida. A glória obtida à custa de opressão retorna no futuro como humilhação e derrota. A dor é um dos dispositivos empregados pelas leis naturais para a educação do espírito, devido à própria iniquidade do ser humano.


Os ciclos de agressão e dor são recorrentes na história humana e perduram há milênios. As relações de ódio e vingança se propagam até o além-túmulo, e os papéis de algozes e vítimas se alternam, nas múltiplas reencarnações. A libertação do ser humano destes incontáveis ciclos de sofrimento só pode ser atingida com o aprendizado do altruísmo e do perdão. “Amai os vossos inimigos, retribuí o mal com o bem, reconciliai-vos com o vosso adversário, perdoai setenta vezes sete vezes”, ensinava Jesus. Parece uma receita inexequível ao ser humano comum, que ainda sente o sangue ferver em suas veias, ao menor sinal de ofensa. Entretanto, a receita ensinada por Jesus é única e inalterável. Só nos cabe aprender a praticá-la.


Como todo processo de aprendizado, este requer muita reflexão e repetição. A reflexão propicia o exercício de faculdades elevadas do espírito que nos afastam da animalidade primitiva. Propicia também a ampliação do nosso alcance de visão, rompendo o imediatismo que caracteriza as almas ignorantes e pouco evolvidas. A melhor forma de conhecer o futuro é observar o passado. A história é rica de exemplos sobre as causas e consequências da dor; basta refletirmos sobre isso. O segundo passo fundamental para o aprendizado é a repetição. Não basta praticar o altruísmo e o perdão uma vez na vida; é preciso repetir incessantemente o exercício, até que ele se torne um hábito enraizado e imanente ao ser. Devemos começar pelos desafios pequenos e simples, para depois irmos crescendo gradativamente, até nos tornarmos capazes de superar as grandes provas. Só então, o aprendizado terá sido concluído.


Como epílogo da história de Olga de Kiev, ela acabou tornando-se a primeira soberana russa a converter-se ao cristianismo, no ano 957. No final do século X, durante o reinado de seu neto Vladimir, a Rússia Kievana tornou-se um estado cristão. Por seus esforços para difundir o cristianismo pelo país e por sua influência no proselitismo, Olga veio a ser canonizada, tornando-se a primeira russa a ser proclamada santa. Só Deus pode julgar se ela fez por merecer tal honraria; mas que é um desfecho surpreendente, disso ninguém há de discordar...


* Raphael Vivacqua Carneiro é engenheiro e mestre em informática. É palestrante espírita e dirigente de grupo mediúnico em Vitória, Espírito Santo. É um dos fundadores do Espiritismo.net.