Espiritismo .NET

EUA buscam saídas para frear suicídios de soldados

29 de julho de 2013



EUA buscam saídas para frear suicídios de soldados



Beatriz Díez
Da BBC Mundo


Estatísticas mostram que o suicídio mata hoje mais militares dos Estados Unidos do que as próprias operações de combate em guerras. Acredita-se que, todos os dias, um militar americano que regressou ao país após servir em uma zona de conflito tira sua própria vida.


O número de suicidas após servir no Afeganistão é particularmente ilustrativo. Ele já supera o número total de militares dos EUA que morreram em combate no país centro-asiático.


O alto número de suicidas levanta questões sobre o tratamento dado aos veteranos de guerra americanos. O que estaria errado no cuidado prestado a eles?


Alguns motivos têm sido citados para explicar as mortes, entre eles o fato de que os veteranos sofrem de sequelas psiquiátricas e que o sistema para dar assistência a eles está sobrecarregado, já que governo não dedicaria suficientes recursos para ajudá-los.


Entretanto, desde o ano passado, o governo americano tem ampliado o apoio aos veteranos, e novas terapias têm sido usadas para tentar minimizar os efeitos do trauma.



Estresse pós-traumático


Os transtornos psiquiátricos são um dos principais motivos que levam os militares que chegam de zonas de conflito a buscar ajuda no Departamento de Assuntos para Veteranos, mantida pelo governo dos Estados Unidos.


O diagnóstico mais frequente é o de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), mas muitos também sofrem de depressão e relatam dependência de drogas.


Paula Schnurr, vice-diretora executiva do Centro Nacional para TEPT nos Estados Unidos, disse à BBC Mundo que "o TEPT é um problema muito significativo entre os veteranos e militares da ativa, já que este é um dos transtornos que mais afetam os indivíduos que vivem uma experiência traumática durante o serviço militar, como por exemplo, a exposição a uma zona de guerra".


Mas não é necessariamente correto atribuir o grande número de suicídios de militares americanos ao diagnóstico de estresse pós-traumático.


"A incidência de suicídio em pessoas com TEPT juntamente com outros transtornos mentais é alta", responde Schnurr. "Porém, a grande maioria das pessoas que sofrem de TEPT não tenta se suicidar. É um problema sério, mas temos que salientar que a maioria desses pacientes não têm tendência ao suicídio".



Investimento


Percebendo a gravidade da situação, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, resolveu investir mais recursos materiais e humanos na atenção psicológica aos veteranos de guerra e militares em serviço.


No dia 31 de agosto do ano passado, Obama publicou um decreto de lei que transfere mais recursos e poder a um conjunto de departamentos que oferece assistência a membros do Exército ─ o Departamento para Assuntos dos Veteranos, a Secretaria de Defesa e o Serviço de Saúde.


Além disso, no ano passado, foram investidos US$ 5 bilhões (cerca de R$ 10,6 bilhões) nos serviços de para apoio à saúde mental.


De acordo com o Departamento para Assuntos dos Veteranos, foram criados 15 projetos piloto em sete Estados, onde a entidade mantém agentes que ajudam os veteranos a ter acesso a serviços de saúde mental.


Foram contratados 1,6 mil agentes de saúde mental e 248 novos especialistas na área.


Foi ainda criada uma campanha nacional para prevenção do suicídio com a finalidade de aproximar os veteranos e militares ativos dos serviços de saúde mental.



Dinheiro não é tudo


Contudo, julgar que a situação é resultado da mera falta de recursos é, segundo especialistas, simplificar o problema.


Essa é a opinião de Raúl Coimbra, diretor do sistema de saúde do Hospital de San Diego, na Califórnia. Segundo ele, existem outros fatores que têm um papel muito importante, como o estigma que persiste em torno dos problemas mentais: muitos militares não se sentem confortáveis para pedir ajuda, pois não querem ser classificados como loucos.


Existem ainda os que querem receber ajuda, mas não pelas mãos de um especialista civil. Os militares se queixam que os civis desconhecem a realidade enfrentada pelos membros do exército e por isso preferem recorrer a outras fontes de ajuda.


É o caso da organização Veterans4Warriors (Veteranos para os Guerreiros, em tradução livre do inglês), que oferece assistência específica a todo militar veterano.


Por meio de um serviço telefônico ou por e-mail, um ex-militar que sofre de algum tipo de sequela mental pode receber ajuda de uma outra pessoa que pode compreender melhor sua situação.


No caso do governo, o Departamento para Assuntos dos Veteranos atende 9 milhões de militares em busca de ajuda, de um total de 22 milhões de veteranos que existem em todo o país.



Terapias alternativas


No caso dos militares que sofrem de estresse pós-traumático, outra crítica frequente é que nos tratamentos existe uma tendência de medicar os pacientes em vez de se oferecerem a eles terapias mais prolongadas, que exigem mais recursos humanos, mais tempo e, assim, mais investimento.


Mas terapias tradicionais estão sendo reavaliadas. Entre as alternativas que surgem com mais força está a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT, na sigla em inglês) ou a teoria do crescimento pós-traumático, segundo a qual as experiências traumáticas pode se converter, a médio e longo prazo, em uma experiência que transforma a pessoa num sentido positivo.


Na terapia de ACT, o paciente é estimulado a não negar a causa de sua ansiedade, mas a aceitá-la, enfrentá-la, para assim aprender a se afastar do trauma. Mais ainda, o paciente deve identificar os valores que formam a base de sua existência e se comprometer a viver em conformidade com eles.


Segundo Paula Schnurr, tanto a medicação como a psicoterapia são eficazes no tratamento de TEPT. "Todos os manuais de saúde mental em vigor nos Estados Unidos recomendam que utilizemos tais métodos", explica.


Schnurr ressalta, ainda, a importância da educação e difusão de informações sobre o TEPT, assim como o apoio dos familiares e pessoas que convivem com o paciente, para combater o estigma associado ao mal.


Notícia publicada na BBC Brasil, em 6 de junho de 2013.



Raphael Vivacqua Carneiro* comenta


De um modo geral, todas as religiões condenam o suicídio, considerando-o contrário às leis da natureza. Ninguém tem o direito de abreviar voluntariamente a própria vida, que é uma dádiva de Deus. Entretanto, por que não se tem esse direito? Por que não é livre o homem para pôr fim ao seu sofrimento? O Espiritismo veio demonstrar isso na prática, pelo testemunho daqueles que sucumbiram. Nada ganha quem tenta pôr fim ao seu sofrimento eliminando a vida corporal, uma vez que ocorre justamente o contrário do que imagina. A sobrevivência da alma dá continuidade ao seu drama, de forma ainda mais tormentosa. Não obstante, a intencionalidade é um fator muito relevante. Aquele que se encontra privado de lucidez, tomado por graves transtornos mentais, não sabe o que faz. A justiça divina leva em conta tais atenuantes.


É louvável o esforço empregado pelo governo norte-americano para tentar reduzir o número de suicídios de seus cidadãos, especialmente entre os veteranos de guerra, em cujo grupo há um elevado índice de ocorrências. Para tanto, investe cifras vultosas nos serviços de saúde mental, acreditando combater a principal causa dos suicídios. Mas, será esta a verdadeira raiz do problema? A prática do suicídio, de fato, é uma das possíveis consequências dos estados de transtorno mental, como a depressão e o transtorno de estresse pós-traumático. Este, por sua vez, é consequência das vivências traumáticas ocorridas em situações de guerra, como por exemplo, assistir à morte de colegas ou participar de cenas de horror e selvageria. Estas vivências, por sua vez, são decorrentes da própria existência do conflito armado. A guerra, por sua vez, é consequência da inabilidade – ou falta de vontade política – de resolver um conflito de interesses, de maneira civilizada, pacífica e diplomática. Esta vontade, por sua vez, depende da evolução moral dos povos e dos seus representantes. Se quisermos eliminar os efeitos nefastos disso tudo, tratemos então a causa-raiz. Neste breve exercício de causa e consequência, a conclusão a que chegamos é que a raiz do problema está na pouca elevação moral dos seres humanos. Eis aí um ótimo ponto a se investir.


A Doutrina Espírita prevê que chegará o dia em que a guerra desaparecerá da face da Terra. Nessa época, os homens compreenderão a justiça e praticarão a lei de Deus; todos os povos serão irmãos. Jesus também profetizou isto em seu Evangelho: “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a Terra”. Os bens da Terra têm sido apoderados pelos violentos. Nos tempos de barbaria, os povos só reconheciam um direito: o do mais forte. Impérios floresceram e foram derrocados, num contexto em que o estado de guerra era o normal; a paz, exceção. Apesar dos pesares, a guerra fez-se instrumento de liberdade e de progresso, em vários momentos da História, mostrando que, até das tragédias, a Providência divina consegue extrair algum bem. Deus também leva em conta o sentimento de humanidade ou de crueldade com que o homem age durante o combate, quando está constrangido pela força e lutando pela própria vida.


Ainda hoje, as paixões egoístas predominam nos corações humanos, sobrepujando o sentimento de amor incipiente. À medida que o homem progride, menos frequente se torna a guerra, porque ele evita as suas causas. A cultura da paz, pouco a pouco, vai desabrochando.


* Raphael Vivacqua Carneiro é engenheiro e mestre em informática. É palestrante espírita e dirigente de grupo mediúnico em Vitória, Espírito Santo. É um dos fundadores do Espiritismo.net.