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Por que você deve começar a comer insetos

3 de junho de 2013



Por que você deve começar a comer insetos



por Luiz Romero


Larvas e baratas estão prestes a chegar ao seu prato. E são essenciais para o futuro da alimentação. Conheça sete razões (e três receitas) que podem convencer você a encarar estes insetos do mesmo jeito que olha para o arroz e o feijão.


1. O nojo que você sente é relativo
Insetos podem, sim, ser bons substitutos para bois, porcos e frangos. No "pasto", eles ajudariam a economizar água e custariam menos, além de serem mais nutritivos do que outras carnes. Tudo muito legal se não fosse um detalhe: imagine como seria mastigar uma larva. Sentir a textura do bicho e o jeito que ele explode dentro da sua boca. Ruim? Saiba que o nojo que você sente é natural, mas pode ser domesticado. Tanto que existem provas de gente capaz de comer insetos espalhadas pelo mundo todo. Dos índios brasileiros, que adoram formigas, aos glutões japoneses, viciados em gafanhotos, passando por povos do México e aborígenes da Austrália. Você também pode dizer que a questão não está só na cabeça, mas no próprio bicho: eles são sujos. Bom, nem sempre.


2. Insetos não são sempre sujos
Está vendo as larvas deste macarrão? Elas cresceram protegidas da sujeira, comendo ração em fazendas especializadas na criação de insetos. Para Gilberto Schickler, um dos responsáveis pelo desenvolvimento deste gado meio diferente, nenhum animal é sujo por natureza. "Tudo depende do jeito que você cria. Porcos, por exemplo, podem crescer em granjas ou em lixões." Schickler trabalha na Nutrinsecta, que forneceu os bichos mostrados nesta matéria. Com planos de produzir insetos para consumo humano, a empresa de Minas Gerais foi a primeira do Brasil a consultar o Ministério da Agricultura sobre o assunto. Agora, planejam abrir um restaurante na região para divulgar a iguaria.


3. Insetos estão cheios de energia
Adicione um fator importante à limpeza: eles são ricos em proteína. E costumam carregar mais deste nutriente do que outros bichos. Compare: enquanto a carne de boi é composta por apenas 28% de proteína, o corpo de moscas e mosquitos chega a quase 59%, e libélulas têm 58%. "Eles também são ricos em vitaminas, principalmente a B, e minerais, como ferro e cálcio", enumera Marcel Dicke, professor de entomologia da Universidade de Wageningen, na Holanda. Para terminar, possuem ácidos graxos essenciais, um tipo de gordura também encontrada em peixes, que ajuda nosso corpo a metabolizar energia.


4. Eles não são sempre nojentos
Está mais convencido? Pronto para encarar uma pizza de larvas? Se a resposta for negativa, olhe para o pote branco bem ao lado da pizza, com uma colher dentro. A proteína, as vitaminas e a gordura estão todas neste potinho, porque isso é larva de mosca. E você nem desconfiou. Até mesmo uma inofensiva porção de pão de queijo pode ter baratas dentro. Não, você não vai encontrar asas ou patas no meio da mordida. Nesse caso, o bicho é esquentado, triturado e transformado em pó antes de ser misturado à massa. Isso faz com que todos os nutrientes do inseto fiquem escondidos na comida. Ou seja, a repulsa causada pela aparência pode ser evitada com um simples triturador. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação acredita nesta farinha. E defende que seja usada para reforçar a comida distribuída a povos que sofrem com a falta de comida.


5. Criar insetos é mais barato
Além de mais nutritivos do que outros tipos de carne, é mais barato criar insetos do que gado. "Por terem sangue frio, eles precisam de menos comida", explica Lynn Kimsey, professora de entomologia da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, "e essa ração é mais simples e barata de produzir". Além disso, os bichinhos ocupam menos espaço e se reproduzem mais rápido do que os outros animais que estamos acostumados a ver em pastos. E, no final do processo, são mais bem aproveitados. Afinal, muitas partes do boi não são consumidas - pense em pés, dentes, ossos e pele. Enquanto isso você pode mandar uma larva numa mordida, de uma vez só.


6. Bifes serão como caviar
Ainda prefere arroz e bife? No futuro, talvez esta não seja uma boa escolha. Porque, em algumas décadas, carne será uma iguaria de luxo. A previsão, da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, diz que o pedaço de terra destinado à criação de animais precisará crescer em 70% para alimentar a população do planeta em 2050, que deve chegar a 9 bilhões de pessoas. "É simples: não teremos alimento se continuarmos usando a pecuária como a grande fonte de proteína", resume Marcel Dicke, da Universidade de Wageningen. Ajuda lembrar que, mesmo com a pouca quantidade de insetos que pode ser consumida por humanos (são apenas 1 600 tipos comestíveis entre 1,5 milhão de espécies catalogadas), o ritmo frenético com que eles se reproduzem transforma a carne de insetos numa fonte de comida abundante.


7. Você vai gostar de comer insetos
Se você ainda não se convenceu, chegou a hora do argumento final: eles são gostosos. E eu não precisei ouvir isso dos entrevistados. Experimentei as três receitas que você vê nesta matéria (além de ter comido apenas os insetos, sem molhos e temperos, antes e depois do preparo) e descobri que eles são apetitosos. A única dificuldade é esquecer a natureza dos bichinhos. Para ajudar, lembrei que muitos dos alimentos que consumo no dia a dia já vêm com pedaços de insetos. "Porque é impossível separá-los da comida", explica Daniella Martin, jornalista especializada em gastronomia de insetos. "Sempre que colhemos uma safra, colhemos os bichos que andam pelas plantas também. E eles aparecem em muitos produtos vendidos no mercado." No fim das contas, acabei superando as impressões iniciais e até comeria uma segunda rodada de larvas. E você? Toparia um prato de arroz e baratas no jantar?


Macarrão com larvas gigantes*


Pizza com larvas de besouro e mosca*


Omelete com baratas*


*Nas receitas, a SUPER usou insetos tratados, mas que não estão à venda.


Notícia publicada na Revista Superinteressante, em dezembro de 2012.



Raphael Vivacqua Carneiro** comenta


A ideia insólita de comer um inseto parece, à primeira vista, tema de filme de horror ou de piada nojenta. Contudo, este é um assunto atualmente levado muito a sério. A FAO – Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, agência da ONU especializada em liderar esforços internacionais de erradicação da fome, desde 2003 vem publicando estudos sobre a contribuição de insetos comestíveis para a segurança alimentar e a sustentabilidade ambiental. O slogan da campanha é bem-humorado: “Insetos comestíveis: os humanos revidam a picada”.


Entre as razões para a aversão a insetos na alimentação humana, podem-se alegar preocupações com a higiene e o paladar. Afora estas motivações – compreensíveis, porém solucionáveis – não há dúvida de que o fator primordial é o sentimento de nojo. Isso nos leva a meditar sobre a origem deste sentimento tão disseminado na humanidade. O nojo é uma emoção intuitiva, uma experiência subjetiva, assim como o medo, o susto, a curiosidade. É um impulso que direciona o comportamento do indivíduo, gerado por forças internas, inconscientes, alheias ao processo de decisão. Acredita-se que o nojo tenha suas origens em reações instintivas que evoluíram como parte da seleção natural da espécie humana, uma vez que ele leva a comportamentos que ajudam na proteção contra envenenamento alimentar, exposição a doenças e infecções. Não por acaso, algumas das coisas que mais provocam nojo no ser humano são: alimentos podres, cadáveres em decomposição, excrementos, secreções. Quanto aos insetos, aqueles que vivem na imundície, como baratas, larvas e moscas, certamente são os que mais provocam nojo, ao contrário de borboletas e abelhas, que vivem entre as flores. O instinto é algo providencial – assevera a Doutrina Espírita. É uma espécie de inteligência rudimentar, sem raciocínio, pela qual todos os seres proveem às suas necessidades. No caso do sentimento instintivo de repulsa a insetos na alimentação, há um acerto de 99,9%, uma vez que apenas 0,1% das espécies catalogadas são comestíveis.


Assim como outros impulsos e emoções humanas, o nojo possui tanto um aspecto instintivo, como também um sociocultural. Por isso vemos comportamentos tão distintos entre os povos. Por exemplo, são considerados iguarias deliciosas: os caramujos escargot pelos franceses, os escorpiões pelos chineses, as formigas tanajura pelos brasileiros, enquanto tais alimentos são considerados nojentos por grande parte dos habitantes de outras terras. Esse componente sociocultural da alimentação resulta dos saberes adquiridos, das tradições, dos valores de cada povo. Em suma, é a razão, aliada à vontade ou à necessidade, sobrepujando o instinto. Se um determinado alimento é nutritivo, é de fácil obtenção, não é tóxico nem contaminante, nem é agressivo ao paladar, a repulsa a seu consumo não se dá por bases racionais, mas emocionais. Enfim, o que deve reger nossas escolhas?


A Doutrina Espírita não faz restrições quanto ao tipo de alimentação escolhido por cada um. “Permitido é ao homem alimentar-se de tudo o que não prejudique a saúde”, ensinam os espíritos. É um dever, perante a lei divina, cuidar da própria conservação, alimentando-se conforme exija o seu organismo. É lícito ao homem, em tempos de fartura, optar por aquilo que lhe proporcione maior bem-estar. Contudo, onde há escassez, Deus provê ao homem a inteligência para encontrar soluções. Nesse sentido, devemos louvar os esforços da FAO em ampliar os horizontes da Ciência na busca de alternativas para a sobrevivência da humanidade atual e vindoura.


** Raphael Vivacqua Carneiro é engenheiro e mestre em informática. É palestrante espírita e dirigente de grupo mediúnico em Vitória, Espírito Santo. É um dos fundadores do Espiritismo.net.