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Italiano morre após atear fogo ao próprio corpo em protesto

8 de outubro de 2012



Italiano morre após atear fogo ao próprio corpo em protesto



DA REUTERS


Um homem de 54 anos morreu neste domingo após ter ateado fogo ao próprio corpo na frente do Parlamento italiano na semana passada, a fim de chamar atenção para sua luta com o desemprego, afirmou a polícia.


Angelo di Carlo sofreu queimaduras em 85% de seu corpo após o incidente em frente à Câmara Baixa do Parlamento - Câmara dos Deputados - no centro de Roma, na manhã do dia 11 de agosto, disse a mídia italiana.


Policiais em serviço nas proximidades apagaram as chamas utilizando extintores de incêndio, e o levaram a um hospital.


O viúvo estava enfrentando dificuldades econômicas, após perder seu emprego e de ter batalhado durante anos antes disso com empregos temporários, que ofereciam pouca proteção ou benefícios, de acordo com relatos da mídia.


Os italianos estão lidando com uma recessão econômica e um aumento no desemprego enquanto enfrentam impostos mais altos e cortes de gastos do Estado, introduzido pelo governo numa tentativa de tentar controlar a imensa dívida pública do país.


A morte de Di Carlo é o último acontecimento em uma onda de suicídios de grande repercussão ligados a problemas financeiros que, nos últimos meses, realçaram o custo humano da crise econômica no país.


Notícia publicada no Jornal Folha de S. Paulo, em 19 de agosto de 2012.



André Henrique de Siqueira* comenta


O suicídio pode ser uma solução?


O suicídio é definido literalmente como o ato de matar a si mesmo - do latim "sui caedere". As causas que levam alguém a cometer suicídio variam muito, mas, de modo geral, pode-se considerar como fatores de risco que, estatisticamente, têm levado ao suicídio:


a) Fatores Sócio-econômicos - como o desemprego, a pobreza, a discriminação, o abandono, o rompimento de um relacionamento afetivo, a violência psicológica, etc;


b) O desespero - a crença de que não é possível melhorar a própria situação ou que não vale mais o esforço de tentar a mudança; o sentimento de culpa por acreditar ser um peso para outras pessoas ou por causar a elas muito sofrimento; o sentimento de profunda solidão - são todos exemplos de desespero que têm sido catalogados como causas de suicídios;


c) Os transtornos mentais - muitos suicidas foram anteriormente diagnosticados como vítimas de problemas mentais;


d) Obrigações culturais - em algumas culturas, a prática do suicídio é uma imposição socialmente imposta para certas pessoas e circunstâncias. Por exemplo, na Índia, mulheres ateiam fogo ao próprio corpo após a morte de seus respectivos maridos (prática conhecida como "sati" - vide http://www.bbc.co.uk/worldservice/learningenglish/news/words/general/ 020807_witn.shtml).


Além destas circunstâncias, há situações em que o indivíduo atenta contra a própria vida para trazer benefícios para outras pessoas - como é o caso de muitos ativistas que fazem greve de fome.


Não é fácil analisar a questão do suicídio de uma maneira geral. A vida é um assunto por demais pessoal para que consigamos analisar os prodecimentos individuais como derivados de um mesmo enquadramento teórico. Cada caso é um caso particular... A morte de alguém é um evento incomensurável, não pode ser comparada a outra morte.


Ao analisarmos o evento da morte de Angelo di Carlo, um italiano de 54 anos, que no dia 11 de agosto de 2012 ateou fogo ao próprio corpo para protestar contra sua luta pessoal contra o desemprego, não podemos fazer generalizações ou julgar os motivos exatos que o levaram ao tal cometimento. Contudo, ousamos considerar a memória do seu caso como motivação para pensar o problema do suicídio à luz da doutrina espírita.


O espiritismo é uma doutrina filosófica de fundamentos científicos e implicações ético-religiosas. Considera o homem como um Espirito imortal que existe antes do nascimento e que sobrevive à morte do corpo biológico. Para o Espiritismo, não é possível o suicídio, porque o Espírito não morre com o interrompimento da vida do corpo de carne. Mas o suicida sofre consequências de sua própria atitude. A este respeito, a opinião espírita pode ser identificada em O Livro dos Espíritos - a obra central da filosofia espírita, em seu item 957:


Pergunta: Quais, em geral, com relação ao estado do Espírito, as consequências do suicídio?


Resposta: “Muito diversas são as consequências do suicídio. Não há penas determinadas e, em todos os casos, correspondem sempre às causas que o produziram. Há, porém, uma consequência a que o suicida não pode escapar; é o desapontamento. Mas, a sorte não é a mesma para todos; depende das circunstâncias. Alguns expiam a falta imediatamente, outros em nova existência, que será pior do que aquela cujo curso interromperam.”


Observe-se que o comentário diz respeito ao problema de um modo geral. Um aspecto curioso sobre o assunto pode ser encontrado na pergunta 951 da obra citada:


Pergunta: Não é, às vezes, meritório o sacrifício da vida, quando aquele que o faz visa salvar a de outrem, ou ser útil aos seus semelhantes?


Resposta: “Isso é sublime, conforme a intenção, e, em tal caso, o sacrifício da vida não constitui suicídio. Mas, Deus se opõe a todo sacrifício inútil e não o pode ver de bom grado, se tem o orgulho a manchá-lo. Só o desinteresse torna meritório o sacrifício e, não raro, quem o faz guarda oculto um pensamento, que lhe diminui o valor aos olhos de Deus.”


Comentário de Allan Kardec: Todo sacrifício que o homem faça à custa da sua própria felicidade é um ato soberanamente meritório aos olhos de Deus, porque resulta da prática da lei de caridade. Ora, sendo a vida o bem terreno a que maior apreço dá o homem, não comete atentado o que a ela renuncia pelo bem de seus semelhantes: cumpre um sacrifício. Mas, antes de o cumprir, deve refletir sobre se sua vida não será mais útil do que sua morte.


O ato de Angelo di Carlo foi um ato de desespero? de fuga? de sacrifício nobilitante? Não o sabemos! O que sabemos, à luz do espiritismo, é que di Carlo não morreu! Extingui-se o corpo físico - veículo de sua expressão na Terra, mas o Espirito Imortal, senhor de seu próprio destino, continua existindo para responder pelos seus próprios atos, a depender do motivo que lhes deu origem. Considerando, portanto, que o sacrifício da vida, quando aquele que o faz visa salvar a de outrem, ou ser útil aos seus semelhantes não deva ser classificado de suicídio, podemos afirmar que o suicídio não é uma solução!


É preciso combater os fatores de risco do suicídio.


Os Fatores Socio-econômicos - como o desemprego, a pobreza, a discriminação, o abandono, o rompimento de um relacionamento afetivo, a violência psicológica, etc, representam situações que devem ser enfrentadas pelo indivíduo que as padece - buscando auxílio especializado e esforçando-se por construir oportunidades de melhoria e pela sociedade que deve mitigar a dor dos que padecem pela prática da ajuda humanitária, pelo aperfeiçoamento das legislações sociais, pela prática da caridade fraternal.


O desespero - a crença de que não é possível melhorar a própria situação ou que não vale mais o esforço de tentar a mudança deve ser desconstruído pelas ações de valorização da vida, nas quais a educação dos sentimentos permite ao indivíduo o reconhecimento de seu próprio valor na constelação social. O sentimento de culpa, que faz o indivíduo acreditar ser um peso para outras pessoas ou por causar a elas muito sofrimento, deve ser combatido pela benevolência fraterna que ampara sem humilhar e que constrói relações saudáveis na medida em que promove a autonomia afetiva e o amadurecimento sentimental. O sentimento de profunda solidão, que assola tantos indivíduos, deve ser diagnosticado como um problema de saúde pública e os indivíduos educados devem mobilizar-se para amparar os aflitos e desesperados, seja na formulação de políticas de atendimento comuns, seja no esforço individual de atender ao próximo que está em situação de risco emocional.


Os transtornos mentais deveriam receber a atenção especializada da Medicina e isto depende da construção de uma melhor justiça social e do esforço dos profissionais de saúde para humanizar as relações com os que padecem nos labirintos do desequilíbrio mental.


Quando os esforços individuais e coletivos passarem a valorizar a vida como patrimônio comum que deve ser comemorado a cada dia qual benefício insubstituível, mesmo os atavismos culturais encontrarão solução e serão adequadamente descontinuados. O suicídio não é um problema individual, como geralmente pensamos. Ele é resultado de nossas atitudes coletivas que impõem a certos indivíduos a porta da morte como aparente solução de suas agonias. Mas lembremo-nos disto e repitamo-lo: O suicídio não é solução!


* André Henrique de Siqueira é bacharel em ciência da computação, professor e espírita.