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O tratamento pela escrita

20 de março de 2012



O tratamento pela escrita



Novos estudos confirmam que escrever sobre a própria doença ajuda na recuperação. Pode ser até mesmo em blogs


Monique Oliveira


Há muito a psicologia clínica indica que mudar as emoções diante de um evento é uma maneira eficaz de conseguir viver em paz com uma experiência dolorosa. Agora, a ciência confirma que a escrita não só é uma ferramenta importante nesse processo como pode alterar as respostas fisiológicas a doenças crônicas, melhorando o quadro de saúde de pacientes. Ao escrever os doentes tornam suportável uma experiência tida anteriormente como pesada demais. Ela passa a integrar a biografia de quem vive o trauma, abrindo o caminho para a recuperação, como se cada um reescrevesse sua história.


Por essa razão, a chamada “expressive writing” (algo como expressão pela escrita, em inglês) ganha cada vez mais espaço na medicina. Na última semana, por exemplo, dois novos estudos reforçaram o poder do método. O primeiro, aliás, apontou uma evolução interessante. Cientistas da Universidade de Haifa, em Israel, descobriram que a técnica, quando usada em blogs pode ser tão ou mais eficaz que no papel. Os pesquisadores chegaram à conclusão após analisar a reação ao experimento por eles organizado com a participação de 161 adolescentes com ansiedade e fobia social. Os jovens foram divididos em grupos que receberam orientações distintas. Alguns, por exemplo, deveriam escrever em blogs abertos, com comentários, e outros, em blogs fechados.


Depois de dez semanas escrevendo pelo menos duas vezes semanalmente, todos apresentaram melhora na autoestima, na autoconfiança e na capacidade de se sentir confortável em situações sociais que evitavam antes de iniciar a prática da escrita. Mas aqueles que escreveram em blogs com espaço para comentários manifestaram melhora mais significativa. De acordo com os autores do estudo, as características da internet e das qualidades da “expressive writing” podem ser potencializadas no blog. “Ele fornece uma combinação única de espaço confortável para a autoexpressão com um ambiente de interação social”, escreveram.


O segundo trabalho, da Universidade de Waterloo, no Canadá, mostrou a eficiência da técnica no controle do peso. Nele, a psicóloga Christine Logel demonstrou que as mulheres convidadas a escrever sobre seus sentimentos e valores perderam, em média, 3,4 quilos, enquanto as que não participaram da oficina ganharam cerca de 2,7 quilos. “Escrever funcionou como um incentivo”, disse Christine à ISTOÉ. A pesquisadora observou que a escrita ajudou as participantes a se sentir bem com elas próprias na medida em que descreviam o que consideravam importante em suas vidas. “E elas não utilizaram a comida como escape”, explicou Christine.


De fato, um estudo da Universidade de Baylor (EUA) com 48 portadores de câncer de testículo revelou que escrever sobre as emoções relacionadas à doença acelerou a recuperação dos participantes. Como justificativa, os cientistas levantaram a hipótese de que, como a escrita auxiliou no controle do estresse ocasionado pela enfermidade, o sistema imunológico entrou em equilíbrio. Resultado: ele deixa de reconhecer como nocivos agentes inofensivos, causando complicações como alergias, e continua a luta contra a doença.


Outras pesquisas também demonstraram os efeitos positivos da escrita no tratamento de doenças infecciosas, como a Aids, e diversos tipos de câncer. A dona de casa Izabel Modesto de Araújo, 47 anos, de São Paulo, por exemplo, encontrou na escrita uma maneira de amenizar o sofrimento após passar por três cirurgias para retirar um tumor cerebral. No processo de recuperação, ela começou a escrever já na cama do hospital. Acabou escrevendo dois livros e mantém o hábito da escrita até hoje, já recuperada. “Mesmo nos momentos mais difíceis não precisei tomar antidepressivo”, conta. “Escrever é minha terapia.”


No Rio Grande do Sul, a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da seção brasileira da International Stress Management Association, organização internacional para o controle do estresse, indica a escrita terapêutica para pacientes que não conseguem lidar com o acesso de raiva. “Ela tem efeitos positivos naquelas pessoas com dificuldade de descrever a experiência sem se descontrolar ou ficar extremamente emocionadas.”


Não basta, entretanto, apenas escrever. “É preciso ter um propósito. A escrita organiza o pensamento e facilita o autoconhecimento”, diz a professora Solange Pereira Pinho, que comanda uma oficina de escrita terapêutica em Brasília. Isso é possibilitado porque, sob orientação correta, o paciente não somente descreve a reação ao evento, mas o que foi sentido no momento.


Também não é qualquer conteúdo que surtirá resultados positivos. Na literatura médica, as investigações do pesquisador americano James Pennebaker, que descreveu o poder da escrita terapêutica em “Abra o Seu Coração: O Poder da Cura Através da Expressão das Emoções” (Editora Gente), apontaram que escrever sobre os aspectos emocionais afeta a saúde positivamente, mas descrever apenas os fatos da experiência traumática pode surtir o efeito contrário.


Matéria publicada na Revista ISTOÉ, em 13 de janeiro de 2012.



Luiz Gustavo C. Assis* comenta


Esta matéria da Revista ISTOÉ é muito interessante e benéfica para todos nós, interessados pela ciência e pelo Espiritismo.


A escrita, conforme nos coloca a reportagem acima destacada, é importante porque nos ajuda a elaborar os nossos sentimentos e emoções, a organizar nossos pensamentos, facilitando, dessa maneira, o trabalho de autoconhecimento.


Há muito sabemos da necessidade do autoconhecimento e da necessidade de conscientização do que sentimos, pensamos e fazemos. Agora, cada vez mais, as pesquisas científicas vêm comprovar, através dos seus diversos estudos, os benefícios desta prática.


Para nós, espíritas, a recomendação da necessidade de autoconhecimento como ferramenta essencial para o nosso melhoramento espiritual também não é nova. Santo Agostinho, espírito, em resposta à questão de número 919, de O Livro dos Espíritos, já nos orientou a respeito dessa prática. Vejamos:


“Qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal?”


Resposta: “Um sábio da antiguidade vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo.”


Allan Kardec, querendo se aprofundar ainda mais, na questão 919-a, pede um método, um meio de conseguir conhecer-se a si mesmo, no que o espírito amigo, responde:


“Fazei o que eu fazia, quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a minha consciência, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever, se ninguém tivera motivo para de mim se queixar. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma (...)”.


Apesar de que, na resposta, Santo Agostinho não citou o ato de escrever, devemos lembrar que foi através da escrita que ele nos legou, encarnado, suas Confissões, uma notável obra, levando-nos a crer (quem sabe?) que também pudesse usar a escrita como ferramenta de autoconhecimento.


Para todos nós que buscamos o nosso melhoramento moral e espiritual, quanto mais ferramentas conhecermos para alcançarmos o nosso autoconhecimento, melhor. Quantas vezes em um acesso de raiva, ou quando passamos por situações difíceis, não conseguimos serenar a mente para uma oração? A escrita pode nos ajudar neste ponto.


Busquemos, portanto, o nosso crescimento através do autoconhecimento e da tomada de consciência das nossas emoções e sentimentos. Lembremo-nos que só conseguiremos mudar os pontos que conseguimos enxergar em nós mesmos. A escrita, conforme nos mostra os experimentos científicos, ajuda-nos a enxergar estes “pontos cegos” que muitas vezes deixamos passar. Eu mesmo, desde que li essa matéria, estou experimentando e posso atestar os efeitos positivos desta prática.


Assim, sigamos em frente, meus irmãos e irmãs, sabendo que somente através de um trabalho íntimo de melhoria e crescimento conseguiremos atingir o nosso objetivo que é, um dia, conseguir alcançar o nosso aperfeiçoamento espiritual. Eis mais uma forma de trabalharmos o autoconhecimento, além daquela sugerida por Santo Agostinho: a escrita. Usemo-la, quando necessário. Melhoremo-nos. Aperfeiçoemo-nos, sempre. Lembremo-nos da exortação do mesmo Santo Agostinho, nosso irmão espiritual, na questão 919-a, de O Livro dos Espíritos:


“Formulai, pois, de vós para convosco, questões nítidas e precisas e não temais multiplicá-las. Justo é que se gastem alguns minutos para conquistar uma felicidade eterna.


Não trabalhais todos os dias com o fito de juntar haveres que vos garantam repouso na velhice? Não constitui esse repouso o objeto de todos os vossos desejos, o fim que vos faz suportar fadigas e privações temporárias? Pois bem! que é esse descanso de alguns dias, turbado sempre pelas enfermidades do corpo, em comparação com o que espera o homem de bem? Não valerá este outro a pena de alguns esforços?”.


Esforcemo-nos, portanto, para nos melhorar e conseguirmos alcançar as recompensas que sempre esperam os homens de bem.


* Luiz Gustavo C. Assis é psicólogo, trabalhador do Centro Espírita Maranhense, em São Luís do Maranhão, e da equipe do Espiritismo.net.