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Sexo, crack e gravidez

14 de março de 2012



Sexo, crack e gravidez



Um olhar sobre o grupo mais vulnerável da Cracolândia


CRISTIANE SEGATTO


O “faxinão” da Cracolândia, a tentativa de dispersar os viciados do centro de São Paulo sem oferecer a eles nenhuma forma adequada de tratamento, obriga a sociedade a discutir o que deu errado ali nos últimos 20 anos. Proponho um olhar construtivo. Uma reflexão sobre quem mais sofre onde o Estado fracassa.


Entre os diversos grupos que usam crack, nenhum parece ser tão vulnerável quanto o das jovens grávidas. Em junho do ano passado, ÉPOCA publicou uma reportagem sobre o aumento dos casos de dependentes da droga que tinham seus bebês na principal maternidade pública da Zona Leste da capital.


O uso da droga durante a gravidez pode provocar diversos problemas: descolamento da placenta, falta de oxigenação, retardo do crescimento, baixo peso no nascimento e morte da criança. Naquela reportagem, ouvi dos profissionais da Maternidade Leonor Mendes de Barros as dificuldades cotidianas que enfrentavam na tentativa de aliviar o sofrimento desses bebês. Muitos são prematuros e acabam abandonados no hospital pelas mães.


A situação piora a cada dia. Em 2007, apenas uma criança nascida na maternidade havia sido encaminhada para adoção. Em 2008, foram quinze casos. Em 2010, mais 43. Apenas nos três primeiros meses de 2011, outros 14 recém-nascidos foram enviados para abrigos e ficaram à espera de adoção.


Esses bebês costumam nascer hiperexcitados, irritados, chorosos. É sinal de que a droga chegou ao cérebro e pode ter provocado alterações de desenvolvimento. Mas o resultado desse contato precoce só pode ser observado anos depois, quando a criança começar sua vida escolar.


Poucos pesquisadores no mundo se dedicaram a acompanhar essas crianças a longo prazo. “As evidências disponíveis sobre prejuízos no desenvolvimento neuropsicomotor ainda são inconsistentes e controversas”, diz Marcelo Ribeiro, diretor de ensino da Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas (Uniad), da Unifesp. “Alguns estudos mostram que os bebês expostos ao crack durante a gestação crescem mais lentamente. Outros trabalhos não detectaram nenhuma diferença em relação aos filhos de mulheres que não usam qualquer droga”, afirma.


Marcelo Ribeiro e Ronaldo Laranjeira são os organizadores do livro O tratamento do usuário de crack, (664 páginas e R$ 88), um lançamento da Editora Artmed. A obra é completíssima. São 47 capítulos escritos por especialistas que abordam os mais diversos aspectos que envolvem a discussão em torno do crack (história, epidemiologia, diagnóstico, tratamento, neurobiologia etc). Quem pretende discutir o assunto sem dizer bobagem demais precisa ler esse livro.


Graças a ele, pude entender um pouco melhor a situação em que essas jovens se encontram. Muitas trocam sexo por pedras de crack. A falta de planejamento e de organização, típica da adolescência, é potencializada pelo vício. Muitas engravidam e não sabem quem é o pai da criança. Não têm o menor suporte emocional e social nem estabelecem vínculo afetivo com o bebê. É uma tragédia coletiva que São Paulo e o Brasil precisam enfrentar com as armas certas.


Num capítulo específico sobre troca de sexo por crack, o grupo da pesquisadora Solange A. Nappo relata que, quase sempre, o traficante é o primeiro “cliente” das moças. É uma condição imposta a elas para a aquisição da droga.


Assim como ocorreu nos Estados Unidos nos anos 80, as jovens que se prostituem para conseguir a droga se expõem a riscos que as profissionais do sexo aprenderam a evitar.


Prostitutas insistem no uso de camisinha. As meninas do crack, por sua vez, não têm poder de negociação para exigir o uso de preservativo. Nem capacidade de julgamento para pensar nisso quando estão sob efeito da droga. Fazem sexo na rua e estão expostas a todas as formas de violência e de humilhações.


“Mulheres que se submetem à prática de sexo por droga realizam uma prostituição ‘solitária’, isoladas de qualquer grupo que possa protegê-las. Têm maior número de parceiros e relatam inconsistência no uso de preservativo”, descreve Solange.


Muitas acreditam que o sexo oral seja uma alternativa menos arriscada do ponto de vista da transmissão de doenças sexualmente transmissíveis. Não é bem assim. O cachimbo para uso da droga pode causar ferimentos nos lábios, na garganta e na mucosa bucal. Isso aumenta a vulnerabilidade a infecções.


Para muitas garotas, o sexo é a única forma de conseguir a droga. O artigo traz o relato de uma delas:


“É só se prostituindo. É o jeito que mulher consegue crack. A gente sai na rua prá isso. Acaba de fumar, já pensa no programa prá conseguir mais grana. Faz programa e pensa em fumar... e é assim a nossa vida.”


Sob o efeito da droga, de fissura ou paranoia, não há a menor possibilidade de coerência em relação ao uso da camisinha. Esquecem dela ou aceitam passivamente a recusa do parceiro em usá-la. Há urgência em terminar o ato sexual para comprar a “pedra” e reiniciar o ciclo.


Em geral, mulheres que usam crack sofrem um significativo isolamento social quando comparadas às que usam outras drogas ilegais. Isso cria barreiras para lutarem por si mesmas e reforça a subserviência diante das agressões.


A primeira reação de quem ouve essas histórias é reagir com preconceito e intolerância. Ou até mesmo com raiva. Nada disso contribui para a busca de soluções. Discriminar essas mulheres não aumenta a probabilidade de que elas consigam acolhimento, tratamento e a chance de recomeçar a vida.


Nos últimos dias, muita gente tem perguntado se a Cracolândia tem jeito. O psiquiatra Marcelo Ribeiro acredita que sim. Segundo ele, a velocidade e as prioridades nesse processo é que estão equivocadas e fora de lugar.


“Seria mais tranquilo se todos os usuários topassem sair de lá direto para uma clínica, de onde sairiam abstinentes e prontos para a vida. Mas isso é o cúmulo da utopia”, diz ele.


Mais realista seria considerar a Cracolândia como uma tremenda dívida social, cuja solução não passa por soluções mágicas e espalhafatosas.


“As estratégias sociais, de saúde e de manutenção da ordem devem caminhar juntas, mas o usuário que lá habita deve ser o centro das preocupações e aquele que determina a velocidade das transformações”, afirma Ribeiro.


O “faxinão” é uma tentativa desastrada de varrer o problema para debaixo do tapete. Ele continuará explícito como toda ferida mal curada.


(Cristiane Segatto escreve às sextas-feiras.)


Matéria publicada na Revista Época, em 13 de janeiro de 2012.



Cristiano Carvalho Assis* comenta


Quando lemos a reportagem, ficamos muito condoídos. Lembramos de todo amor que temos por nossos filhos pequenos e pensamos que essas mulheres, que caminharam para o caminho das drogas, foram crianças com um futuro de esperanças pela frente. Mas em algum ponto de suas vidas perderam a direção e desbancaram ribanceira abaixo para o vício.


Tentamos analisar ou pensar o que as levou a buscarem este caminho e viajamos nas suposições de criação familiar, influência do meio, falta de força de vontade, realidades difíceis da vida e tantas outras que nos deixam de mentes cheias, mas de corações vazios e desanimados com tal realidade.


Como mães e pais que somos, fazemos todo o possível para distanciar nossos filhos de entrar em contato com as drogas, mas como tudo na vida não temos o controle, rezamos a cada dia para que Deus proteja nossa família desse mau que já se tornou de caráter emergencial e de Saúde Pública.


Pensar que a solução é apenas da polícia e de punição é um equívoco de nossa parte. O policiamento e a prisão dos responsáveis é apenas um dos pontos necessários. Achar que se deve fazer apenas uma evangelização e perdoar todos os atos dos responsáveis seria ingenuidade de nossa parte. “A cada um segundo suas obras”, aos que não respeitam a estrutura psicológica moral e espiritual das pessoas e comercializam narcóticos para ganhar dinheiro ou poder sem se importar em estar prejudicando alguém, devem ter a justiça que as leis dos homens requerem. Mas observamos que ficar só nisso não resolve por completo a situação, pois temos visto cadeias ficando cada vez mais superlotadas de traficantes e maior número de dependentes químicos.


São anos de displicência dos bons em sua apatia natural para permitir que este mal tenha se instalado tão profundamente em nossas estruturas sociais, que agora retirá-la é um trabalho difícil e cuidadoso. Funcionará da mesma forma que remover uma simbiose na natureza. O trabalho que precisamos empreender requer profundidade e cuidados para com os que consomem e de prevenção para os que poderão ser os futuros dependentes.


Para os dependentes, apenas remover seus distribuidores não irá melhorar em nada sua vontade de consumir, nem sua parte íntima em desequilíbrio que os levou a buscar as drogas como forma de resolver ou de esquecer seus problemas. Haverá, além do trabalho de polícia, a necessidade de um trabalho interdisciplinar com psicólogos, assistentes sociais, médicos e qualquer outra área, no intuito de reestruturá-los bio-psiquica-espiritualmente.


Para prevenção, teremos que melhorar as nossas bases familiares e a educação moral de nossos filhos. Allan Kardec nos adverte quanto a isso no comentário da questão 685a, de O Livro dos Espíritos: “Há um elemento, que se não costuma fazer pesar na balança e sem o qual a ciência econômica não passa de simples teoria. Esse elemento é a educação, não a educação intelectual, mas a educação moral. Não nos referimos, porém, à educação moral pelos livros e sim à que consiste na arte de formar os caracteres, à que incute hábitos, porquanto a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos. Considerando-se a aluvião de indivíduos que todos os dias são lançados na torrente da população, sem princípios, sem freio e entregues a seus próprios instintos, serão de espantar as consequências desastrosas que daí decorrem? Quando essa arte for conhecida, compreendida e praticada, o homem terá no mundo hábitos de ordem e de previdência para consigo mesmo e para com os seus, de respeito a tudo o que é respeitável, hábitos que lhe permitirão atravessar menos penosamente os maus dias inevitáveis. A desordem e a imprevidência são duas chagas que só uma educação bem entendida pode curar. Esse o ponto de partida, o elemento real do bem-estar, o penhor da segurança de todos.”


Precisamos utilizar a religião que cada um professe não para aumentar dogmas, preconceitos ou disputas entre as pessoas, mas para nos dar forças e estruturas psicológicas para suportar as contrariedades da vida. Dando-nos direcionamento e disciplina para nos desviar dos perigos que temos condições de escapar por nossas escolhas e suportando com aceitação e amadurecimento as que precisamos passar.


Nossas escolas e educação devem se reformular e não deixar de lado a nossas estruturas psicológicas e espirituais. Saímos sabendo fazer equações de 2º grau ou sabendo executar as mais difíceis fórmulas de física, mas não sabemos como nos comportar ou lidar com a perda de um ente querido, a rejeição de uma namorada ou as brincadeiras de mal gosto de um amigo. É mais fácil, atualmente, você mexer com a complexidade de um computador de última geração do que com seus sentimentos e emoções.


Pode parecer utopia, mas no dia em que nossos filhos ou todos nós possuirmos a capacidade de tirar de nós mesmos aquilo que buscamos nas drogas, não teremos mais usuários. Alguns buscam nelas a coragem para a timidez, a inclusão na turma, a fuga para o enfrentamento das dificuldades ou curiosidade de novas emoções. Mas esquecemos que Deus depositou todas essas potencialidades e muitas outras latentes dentro de todos nós, esperando apenas serem desenvolvidas. Acabando com quem consome, não teremos mais fornecedores, já que só existe oferta se houver procura.


Não pensemos que o trabalho para combater o mal dos entorpecentes seja apenas do Setor Público. Como educadores, formadores de opinião ou simplesmente como irmãos de humanidade, façamos a nossa parte em ajudarmos a desenvolver a capacidade inata dos que nos rodeiam. Mesmo sabendo que temos o livre-arbítrio, e por mais que nos esforcemos, se o outro não quiser ser ajudado, não conseguiremos muita coisa. Semeemos as sementes em qualquer terreno sem esperar resultado. Apenas como o semeador que saiu a semear, tenhamos a certeza que as pequenas atitudes fazem diferença, pois nos surpreendemos da força de um olho d’água pequeno e sem potência em sua origem, mas capaz de formar grandes rios no decorrer de seu caminho.


* Cristiano Carvalho Assis é formado em Odontologia. Nasceu em Brasília/DF e reside atualmente em São Luís/MA. Na área espírita, é trabalhador do Centro Espírita Maranhense e colaborador do Serviço de Atendimento Fraterno do Espiritismo.net.