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Pesquisador vê má fé em estudos que ligam religião e saúde

29 de fevereiro de 2012



Pesquisador vê má fé em estudos que ligam religião e saúde



Em entrevista ao site de VEJA, Richard Sloan, professor de medicina comportamental, critica pesquisas que apontam vantagens da fé para a saúde das pessoas e afirma que elas afrontam a ética médica


Raphael Veleda


Pesquisas que relacionam fé e saúde aparecem com frequência nas revistas científicas. Segundo certos estudos, fiéis recuperam-se melhor de transplantes do fígado, superam com mais facilidade a depressão e aceitam melhor as sequelas de um acidente. A mais recente pesquisa, publicada na semana passada, afirma que pessoas que frequentam igrejas correm risco menor de ter hipertensão. Mas para Richard Sloan, professor de medicina comportamental na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, pesquisas deste gênero não têm valor científico. Pior: são uma afronta à ética médica. "A maioria destes pesquisadores está interessada em promover alguma religião", diz ele.


Autor de Blind Faith: The Unholy Alliance of Religion and Medicine (Fé Cega: a aliança profana entre religião e medicina, em tradução livre), Sloan é o maior crítico das pesquisas que apontam vantagens da fé para a saúde das pessoas. "Não há nenhuma evidência disso", diz.


O pesquisador não questiona o conforto que a religião pode oferecer ao paciente. Seu alvo são os pesquisadores por trás de certos estudos. "A grande maioria dos estudos tem graves problemas metodológicos", diz. "Ficar doente já é ruim o suficiente. E fica pior se a doença vem acompanhada pelo peso na consciência por não ter sido crente o suficiente."



Perfil


Richard P. Sloan é professor de medicina comportamental no Departamento de Psiquiatria da Universidade de Columbia, em Nova York, nos Estados Unidos. É o maior crítico de pesquisas que relacionam fé e saúde. Além de ter lançado um livro sobre o assunto, escreve com frequência artigos em jornais como The New York Times. Critica médicos que ‘receitam’ a prática religiosa a pacientes. Pesquisa também os mecanismos de risco no sistema nervoso autônomo que estão ligados a problemas cardíacos, como depressão e ansiedade.



Que relação existe entre religião e saúde? Não há nenhuma evidência sólida de que haja relação entre devoção religiosa e boa saúde.


Um novo estudo aponta que pessoas religiosas correm menos riscos de ter hipertensão. É mais um trabalho que sofre dos mesmos problemas de todos os estudos de observação, que são superficiais.


Quais são os problemas das pesquisas que ligam religião e saúde? A grande maioria dos estudos tem graves problemas metodológicos. Alguns usam amostras muito pequenas e escondem ou ignoram dados, escolhendo os que dão força às conclusões. Existe um problema na metodologia da literatura médica que é o das múltiplas comparações. Escolhe-se uma ou mais hipóteses e são feitos inúmeros testes. Eventualmente, se acha um resultado que atinge significância estatística, mas isso é metodologicamente inadequado. A religião, talvez, ajude de outras formas. Pessoas religiosas podem fumar menos, beber moderadamente, se exercitar mais... Ou talvez não. Mas como afirmar com certeza que a religião é a responsável por isso? Não é assim que se faz ciência.


O que motiva tantas pesquisas deste tipo? Pessoas têm diferentes motivações para fazer esse tipo de pesquisa. Mas a maioria destes pesquisadores está interessada em promover alguma religião, alguma atividade religiosa. E usar a medicina para promover religião é uma violação dos valores éticos da medicina. E uma violação da liberdade religiosa.


E por que esses estudos geram tanta repercussão? Eles sempre atraem a atenção da imprensa. A combinação de medicina é religião é simplesmente muito atrativa para que seja ignorada. Então eles escrevem sobre isso o tempo todo, mas o que escrevem é ruim.


As revistas especializadas deveriam rejeitar estes trabalhos? Minha visão é a de que não vale a pena. Essas pesquisas não podem ser provadas. São todas feitas com base em observação. Se fosse possível encontrar essa ligação entre religião e boa saúde, e de novo isso é hipotético, o certo a fazer seria procurar os mecanismos que ligam essas questões. A causa é a redução no isolamento social?  Religiosos são mais sociais porque participam de reuniões religiosas? Então teríamos um caminho por onde seguir, já que isolamento social de fato é ruim para a saúde. Se fosse possível chegar a isso, a próxima questão seria: o que fazer com essa informação? E o que não fazer com ela? Recomendar que as pessoas se tornem mais religiosas? Incentivar políticas que incentivem as pessoas a desenvolver mais interações sociais de qualquer natureza?


A religião não pode ajudar a dar essa esperança aos pacientes? Talvez possa fazer com que o paciente se sinta melhor e isso é uma coisa boa. Há evidências de que otimismo, que não é o mesmo que esperança, está associado com saúde melhor. Há estudos confiáveis mostrando isso. Mas não sabemos se podemos aumentar o senso de otimismo das pessoas. Ser otimista pode ser uma característica pessoal. Você não pode receitar isso. Alguns têm, outros não.


Entrevista publicada na Revista Veja, em 6 de janeiro de 2012.



Breno Henrique de Sousa* comenta


Fé e Cura


É impossível confirmar ou desmentir um preconceito. Preconceito é preconceito e todos são igualmente inqualificáveis. O entrevistado faz uma generalização dizendo que as pesquisas de um determinado gênero são feitas com má fé. Terá ele analisado todas as pesquisas que relacionam saúde e espiritualidade? Saberá ele das motivações íntimas dos pesquisadores a ponto de fazer tal afirmação?


No cotidiano, admitimos determinadas generalizações que são mais hábitos de linguagem que preconceito. Quando digo que as pessoas de uma determinada cidade são simpáticas, estou fazendo esse tipo admissível de generalização, mas quando um cientista dá uma entrevista a um importante órgão de imprensa, não se admite tais posicionamentos. Já demonstra, na partida, uma opinião passional que deixa transparecer, claramente, as suas convicções materialistas através das quais ele interpreta o mundo.


Certamente, haverá pesquisas mal elaboradas em qualquer área da ciência, não apenas por má fé. Haverá também má fé, ou quem sabe, despreparo. Outra explicação é que algumas pesquisas são preliminares, indicando o caminho para estudos mais aprofundados e criteriosos. Financiamento para pesquisas que toquem, ainda que tangencialmente, a temática espiritualista é uma raridade. Não poucas vezes, aqueles que se arriscam por esses caminhos, põem seus nomes na fogueira do clero científico materialista. Com poucos recursos, fazem o que podem, na esperança de alcançarem resultados, ainda preliminares, que justifiquem maiores investimentos para estudos mais completos que atendam plenamente ao rigor científico. Mas, temos também muitos trabalhos excelentes feitos com mais rigor do que a maioria das pesquisas com temas não espiritualistas, sofrendo, mesmo assim, o ataque vigoroso de céticos mal intencionados, ataques que não são aqueles que qualquer conhecimento deve sofrer no processo de validação científica, mas sim aqueles que deixam transparecer os preconceitos de seus opositores.


Quem lê esses trabalhos, sabe que a maioria dos pesquisadores não ignora as críticas feitas pelo Sr. Sloam, inclusive apontam relações entre religiosidade e convívio social, sendo talvez essa a causa da melhora da saúde do religioso. Porém, não nos esqueçamos de pesquisas do tipo em que grupos de enfermos, sem saber que estavam recebendo orações, apresentaram melhoras significativas quando comparados com outros grupos que não receberam oração. Há muitas outras pesquisas que descartam as explicações secundárias dadas por Sloam, deixando evidente o efeito positivo da espiritualidade na vida das pessoas. E digo aqui “espiritualidade”, e não religião, porque em muitas destas pesquisas havia voluntários que tinham alguma forma de espiritualidade, mas não necessariamente religião.


Um argumento muito comum entre os cientistas materialistas, contrários à relação saúde e espiritualidade, ainda que a cada dia ela se torne mais evidente e amplamente comprovada, é o de que isso faz as pessoas doentes se sentirem culpadas por não terem fé suficiente para curar-se. De fato, sob a perspectiva de algumas religiões tradicionais, que afirmam ser a fé o único elemento responsável pela cura, isso pode acontecer. Se outro fiel de minha igreja conseguiu curar-se, por que eu, que tenho fé, não consigo?


A cura, sob a ótica espírita, tem uma conotação bem mais profunda. Em primeiro lugar, não é preciso saúde física plena para ser feliz e nem está dito que alguém que tenha saúde seja por isso feliz. A principal cura não é a do corpo, mas a da alma, que nos permite olhar nossos problemas de maneira mais otimista. O otimismo se aprende! É algo que se alimenta através de uma filosofia de vida positiva e da vivência real desta filosofia. É claro que existem diferenças de caráter individual que fazem de uns naturalmente otimistas, enquanto outros necessitam esforçar-se bastante para isso. Na verdade, estas diferenças individuais são o resultado da soma das experiências adquiridas pelo espírito ao longo de suas encarnações. Isso reforça a ideia de que otimismo se aprende.


De fato, existe também a cura física pela intervenção do mundo espiritual. A fé é certamente um elemento que contribui para a cura, mas está longe de ser o único. Um dos fatores mais importantes é o merecimento, e não se trata aqui apenas do merecimento adquirido nesta vida, mas a soma de nossas ações positivas ao longo das vidas. Ao contrário, nossas escolhas negativas acumulam débitos que nos impedem de receber certos benefícios.


É importante saber que nem sempre a cura física é a melhor solução. Alguém que por um problema de fígado deixa de beber, e talvez o problema de fígado já seja consequência da bebida, poderia acabar com a própria vida se tivesse saúde. Deus, em sua sabedoria, conhecendo nosso íntimo, entende que a dor é fator educativo na caminhada evolutiva e aqui não há nenhuma conotação masoquista, porque a única dor que devemos aceitar é aquela que não podemos evitar.


Por fim, saúde ou enfermidade se estabelecem de maneira mais profunda através das energias que habitam nosso psiquismo, dos hábitos que alimentamos desta ou de outras vidas, deixando marcado no perispírito, que é o modelo organizador biológico, os nossos desmandos e materializando em existências futuras os reflexos dos desajustes cometidos por nós mesmos. Desconhece-se também o componente do planejamento reencarnatório, quando frequentemente escolhemos um determinado gênero de vida, escolhendo algumas provações físicas e limitações, como fator educativo ou prevenção contra a soberba e a vaidade. Assim, algumas deformidades ou incapacidades congênitas ou adquiridas, enfermidades crônicas, podem ser reflexo da escolha que o próprio espírito fez para esta existência antes de reencarnar.


Como podemos observar, a relação entre enfermidade, cura e saúde é bem complexa no Espiritismo e poderá ser alvo de estudos mais aprofundados na literatura espírita e nas pesquisas já desenvolvidas por cientistas que têm ou não conhecimento do Espiritismo. Não há razão para sentir-nos culpados diante da enfermidade, ela já é parte do processo de cura. Se sofremos as consequências do ontem, melhor é saber que o futuro será consequência das nossas escolhas atuais. Pior seria acreditar em um Deus injusto que dá mais fé a uns que a outros, ou que, por capricho, presenteia a uns com curas milagrosas, enquanto outros, não menos crentes, penam com suas dores.


O Espiritismo abre um novo caminho de conciliação entre ciência e religião, que se complementam e interligam-se por uma filosofia perene, laureada pelos princípios morais do Cristo.


* Breno Henrique de Sousa é paraibano de João Pessoa, graduado em Ciências Agrárias e mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal da Paraíba. Ambientalista e militante do movimento espírita paraibano há mais de 10 anos, sendo articulista e expositor.