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Neurocientista explica por que o amor é cego

Neurocientista explica por que o amor é cego



IARA BIDERMAN
DE SÃO PAULO


No recém-lançado "Sobre Neurônios, Cérebros e Pessoas" (Atheneu), o médico e neurocientista carioca Roberto Lent, 62, fala sobre descobertas da neurociência em uma língua que todo mundo entende. Nesta entrevista à Folha, ele explica como a desativação de certas partes do cérebro comprovam que o amor é cego e o ser apaixonado, louco.


Folha - O que é o amor do ponto de vista da neurociência?
Roberto Lent -
É uma invasão de dopamina que ativa os centros de recompensa do cérebro e produz prazer.


Então age como uma droga?
O mecanismo [no cérebro] é parecido, mas não é igual.


Qual a diferença?
Para cada tipo de prazer, as reações corporais e mentais são diferentes em quantidade e em qualidade.


Quais são as reações ativadas pelo amor?
Do arrepio ao orgasmo, passando pelos intermediários. Você pode corar, suar, ofegar, o coração bate mais rápido. E você exerce os comportamentos de cortejar, se exibe para a pessoa amada.


Essas reações também acontecem quando você está com medo. Significa que ativamos os mesmos circuitos do amor?
Não sabemos com precisão, mas, como são muitas combinações [de circuitos cerebrais], um certo arranjo significa amor, outro medo. Segundo o pesquisador português Antônio Damásio, cada emoção tem uma combinação do que ele chama de marcadores somáticos. Quando você tem de novo a exata combinação, produz o mesmo sentimento. No caso do amor, fica marcada em seu cérebro uma combinação de circuitos e reações que é ativada quando você encontra a pessoa amada, vê uma foto dela ou apenas pensa nela.


É possível saber qual é essa combinação do amor?
Com estudos usando ressonância magnética funcional, que mostra imagens do cérebro em atividade, conseguimos fazer uma espécie de mapa de regiões que são ativadas em situações relacionadas ao amor.


Qual é o mapa da mina?
As principais regiões ativadas são a ínsula e o núcleo acumbente. Mas a grande descoberta foi que, ao mesmo tempo em que há ativação dessas regiões, outras áreas são desativadas no lobo frontal do cérebro.
As regiões frontais são associadas ao raciocínio, à busca das ações mais adequadas. Desativar essas regiões significa perder o controle. Na paixão, a pessoa deixa de levar em conta certas contingências sociais e faz coisas meio malucas. A expressão "o amor é cego" reflete a percepção dessa desativação do lobo frontal descoberta pela ciência.


As condições culturais podem modificar esses circuitos?
Não creio. Os circuitos são os mesmos, mas as regras mudam. Mas não temos resposta para isso.


Há diferença entre os circuitos do amor e do desejo sexual?
Cada pergunta difícil que você faz... Existe uma sobreposição entre o mapa cerebral da paixão e o do sexo. Mas, como nossa experiência diz que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, certamente existem diferenças entre esses dois mapas.


Somos programados para amar?
Sem dúvida. Animais são programados para reproduzir, mas não podemos dizer que se amam. No nosso caso, há um ingrediente a mais, que é a experiência subjetiva. A função do amor é aproximar pessoas, inclusive aproximações improváveis: como o amor é cego, você pode amar pessoas que normalmente são rejeitadas por outros. Sempre haverá um certo alguém para outro alguém. Sim, significa que mais pessoas vão se juntar. Já pensou se só se aproximassem entre si pessoas loiras de olhos azuis? Seria desfavorável e desagradável para a espécie.


Notícia publicada em Folha.com, em 29 de junho de 2011.



Breno Henrique de Sousa* comenta


Mente e Cérebro


Reportagens desta natureza são excepcionais ao exibirem os avanços da ciência sobre a compreensão do cérebro humano, mas lamento o aspecto de rebaixar a complexidade das emoções humanas a um conjunto de reações neuroquímicas. É como se o materialismo nos píncaros da sua prepotência dissesse: - Ei! Reles humanos, tudo o quê vocês são, não passa de reações fisiológicas da complexa máquina cerebral.


Não se trata aqui simplesmente de defender uma visão mais romântica da vida, mas de saber que dentro da própria ciência existem os que consideram a mente como um elemento distinto do cérebro e não como produto do mesmo. Ou seja, para o cientista materialista, o cérebro é que produz a mente através de suas reações químicas nas sinapses cerebrais. O fato de observar que certas reações cerebrais estão relacionadas com determinada ordem de comportamentos ou pensamentos, leva-o a crer, com certa lógica, que o cérebro produz os pensamentos.


De fato, o cérebro é uma estrutura complexa, concebida para manifestar reações emocionais. O cérebro é uma estrutura que decodifica e processa emoções, de outra maneira nosso corpo não seria afetado por nossas emoções, o coração não bateria mais forte, o rosto não ficaria vermelho. O corpo sente sim e também se equivocam os que dizem que é apenas o espírito que sente. É verdade que o núcleo propulsor do pensamento e do sentimento é o espírito imortal, mas sem um cérebro concebido para pensar e sentir, o espírito não manifestaria intelecto e emoções no plano físico e seríamos todos como autômatos. É tão certo isso, que o autista, que vive uma espécie de isolamento cognitivo e emocional, assim se encontra por apresentar algum comprometimento nos núcleos cerebrais responsáveis por estas manifestações, e, ainda que o espírito seja capaz de sentir, a sua condição física não lhe permite a manifestação destas emoções.


Fazer observações do tipo: este sentimento está relacionado com esta e com aquela área do cérebro, não significa dizer que esta área do cérebro seja a que produz tais sentimentos ou pensamentos, mas, apenas, que eles se processam ali a nível material, mas na verdade são captados de um nível mais sutil que é o espírito. Esta é nossa opinião, que faz tanto sentido quanto a de que é o próprio cérebro que produz os pensamentos e sentimentos, afinal, para estabelecer uma relação de causa e efeito entre o cérebro e mente, é necessário que os dois possam ser registrados, medidos e estabelecida a conexão direta entre eles e não apenas através de uma relação secundária. Ou seja, como estabelecer a relação entre duas coisas quando uma não está provada que existe? Sim, pois, quem prova que o pensamento existe? Tudo bem, todos sabemos que pensamos e em sentido prático todos sabemos que existe o pensamento, mas em ciência só tem validade o que é mensurável. Alguém já ouviu falar de que um pensamento foi pesado, medido ou gravado em alguma mídia? Os pensamentos podem ser manifestados por palavras, escritos, ações e reações, mas essa é uma manifestação indireta. Ainda que eu não fale, escreva ou reaja, eu continuo pensando e ninguém consegue pegar um pensamento. Então, se eu não posso provar cientificamente a existência do pensamento, como eu posso dar uma causa a algo que não sou capaz de provar que existe? Será que não posso dizer que o pensamento é causa ao invés de efeito? E que o cérebro reage porque pensamos e não que pensamos porque o cérebro decide?


Deixo estas reflexões iniciais, pois o tema é bem profundo. Mas estou de acordo com a conclusão de que o amor é cego dito de maneira neurofisiológica. Mas, na verdade, o amor cego é a paixão, uma emoção fugaz e frenética que nos arrebata a razão. O amor mesmo, este nos deixa mais conscientes, livres e felizes.


* Breno Henrique de Sousa é paraibano de João Pessoa, graduado em Ciências Agrárias e mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal da Paraíba. Ambientalista e militante do movimento espírita paraibano há mais de 10 anos, sendo articulista e expositor.