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Estudo com criminosos descreve mutação que pode causar impulsividade

Estudo com criminosos descreve mutação que pode causar impulsividade



De 96 presidiários na Finlândia, 17 tinham alteração genética; resultado saiu na ‘Nature’


Agência Fapesp


SÃO PAULO - A impulsividade tem sido relacionada a vários distúrbios psiquiátricos e a formas diferentes de comportamento violento. Um novo estudo acaba de descobrir uma mutação que pode predispor os portadores a reagir sob o impulso do momento e de maneira irrefletida.


A pesquisa foi feita por um grupo internacional com 96 presidiários na Finlândia, e teve seus resultados publicados na edição da última quinta-feira, 23, da revista "Nature".


A mutação está presente no gene HTR2B, um receptor de serotonina, neurotransmissor que atua no controle de impulsos. A descoberta foi feita após os cientistas sequenciarem e compararem o DNA de condenados por crimes violentos com um grupo de controle.


Denominada HTR2B Q20, a mutação se mostrou três vezes mais presente entre os presidiários que nos demais indivíduos. Os 17 condenados que carregavam a mutação (do total de 96 analisados) cometeram em média cinco crimes violentos, 94% dos quais sob influência de bebidas alcoólicas. Os delitos se constituíram em reações agressivas a eventos menores, sem premeditação ou ganho financeiro.


Apesar de a presença da mutação ter se mostrado mais frequente nos criminosos, os pesquisadores ressaltam que a presença dela não é suficiente para provocar ou prever o comportamento impulsivo.


Segundo Laura Bevilacqua, do Instituto Nacional sobre Abuso de Álcool e Alcoolismo dos Estados Unidos, e colegas, outros fatores devem ser levados em conta ao discutir o tema, como gênero, níveis de estresse e consumo de álcool. Por conta disso, eles reforçam, novos estudos são necessários para entender melhor o papel particular dessa mutação recém-descoberta.


Notícia publicada no estadao.com.br, em 24 de dezembro de 2010.



Luiz Gustavo C. Assis* comenta


A descoberta de uma mutação genética que predispõe o indivíduo à impulsividade e agressividade nos leva a diversos questionamentos: Qual a influência do organismo sobre a personalidade da pessoa? O nosso jeito de ser, a nossa forma de pensar e o nosso modo de agir são predeterminados, então, pelo nosso organismo, por nossa química cerebral e nossos neurotransmissores? Se for dessa maneira, a diferença entre um Ghandi, ou um Francisco Cândido Xavier, e um criminoso está apenas na genética, no organismo de cada um? Sendo assim, o nosso destino é pré-determinado pelo nosso corpo?


O espiritismo vem nos explicar que não é bem assim. A alma não é criada no momento da concepção e o espírito é pré-existente ao corpo. Dessa forma, o corpo é apenas o envoltório material do espírito. Quando o espírito une-se ao corpo, conserva os atributos de natureza espiritual.


É claro que há uma influência direta do corpo na manifestação do espírito, conforme a questão de número 369, de O Livro dos Espíritos:


“O livre exercício das faculdades da alma está subordinado ao desenvolvimento dos órgãos?”


Resposta: “Os órgãos são os instrumentos da manifestação das faculdades da alma, manifestação que se acha subordinada ao desenvolvimento e ao grau de perfeição dos órgãos, como a excelência de um trabalho o está à da ferramenta própria à sua execução.”


Entendemos, assim, que, para que o espírito consiga exercer as suas faculdades espirituais, o corpo deve estar em boas condições. Porém, daí a dizer que é o corpo que dá os atributos do espírito vai uma longa distância. Conforme nos explicam os Espíritos Superiores, respondendo ao codificador, nas perguntas 370 e 370-a:


“Da influência dos órgãos se pode inferir a existência de uma relação entre o desenvolvimento dos do cérebro e o das faculdades morais e intelectuais?”


Resposta: “Não confundais o efeito com a causa. O Espírito dispõe sempre das faculdades que lhe são próprias. Ora, não são os órgãos que dão as faculdades, e sim estas que impulsionam o desenvolvimento dos órgãos.”


“Dever-se-á deduzir daí que a diversidade das aptidões entre os homens deriva unicamente do estado do Espírito?”


Resposta: “O termo — unicamente — não exprime com toda a exatidão o que ocorre. O princípio dessa diversidade reside nas qualidades do Espírito, que pode ser mais ou menos adiantado. Cumpre, porém, se leve em conta a influência da matéria, que mais ou menos lhe cerceia o exercício de suas faculdades.”


Para clarear ainda mais o nosso entendimento a respeito da questão, explica-nos o próprio Allan Kardec, em comentário às questões acima destacadas:


“Encarnando, traz o Espírito certas predisposições e, se se admitir que a cada uma corresponda no cérebro um órgão, o desenvolvimento desses órgãos será efeito e não causa. Se nos órgãos estivesse o princípio das faculdades, o homem seria máquina sem livre-arbítrio e sem a responsabilidade de seus atos. Forçoso então fora admitir-se que os maiores gênios, os sábios, os poetas, os artistas, só o são porque o acaso lhes deu órgãos especiais, donde se seguiria que, sem esses órgãos, não teriam sido gênios e que, assim, o maior dos imbecis houvera podido ser um Newton, um Vergílio, ou um Rafael, desde que de certos órgãos se achassem providos. Ainda mais absurda se mostra semelhante hipótese, se a aplicarmos às qualidades morais. Efetivamente, segundo esse sistema, um Vicente de Paulo, se a Natureza o dotara de tal ou tal órgão, teria podido ser um celerado e o maior dos celerados não precisaria senão de um certo órgão para ser um Vicente de Paulo. Admita-se, ao contrário, que os órgãos especiais, dado existam, são consequentes, que se desenvolvem por efeito do exercício da faculdade, como os músculos por efeito do movimento, e a nenhuma conclusão irracional se chegará. Sirvamo-nos de uma comparação, trivial à força de ser verdadeira. Por alguns sinais fisionômicos se reconhece que um homem tem o vício da embriaguez. Serão esses sinais que fazem dele um ébrio, ou será a ebriedade que nele imprime aqueles sinais? Pode dizer-se que os órgãos recebem o cunho das faculdades.”


Interpretando, então, os ensinamentos do codificador e dos espíritos superiores, a mutação no gene HTR2B seria efeito e não causa da impulsividade, inclusive da impulsividade apresentada em existências anteriores. Como falamos anteriormente, o espírito antecede o corpo que trás gravado em si tendências e predisposições do espírito reencarnante. Por isso, Allan Kardec, em A Gênese, esclarece:


“Com a preexistência, o homem traz, ao renascer, o gérmen das suas imperfeições, dos defeitos de que se não corrigiu e que se traduzem pelos instintos naturais e pelos pendores para tal ou tal vício”.


Desse modo, assim como o homem traz gravado em si mesmo a tendência a alguma doença que pode vir a se desenvolver, ou não, dependendo de vários fatores, mas que são heranças do seu passado espiritual, traz gravado também a tendência à impulsividade que, a depender do seu livre- arbítrio, irá se manifestar ou não. Ressalte-se, conforme descrito na reportagem, que a presença da mutação não é suficiente para provocar ou prever o comportamento impulsivo. É que a escolha de agir é sempre do homem e depende da sua vontade. E, conforme nos ensinam os espíritos superiores, em O Evangelho Segundo o Espiritismo:


“Compenetrai-vos, pois, de que o homem não se conserva vicioso, senão porque quer permanecer vicioso; de que aquele que queira corrigir-se sempre o pode. De outro modo, não existiria para o homem a lei do progresso”. – Hahnemann. (Paris, 1863.)


* Luiz Gustavo C. Assis é psicólogo, trabalhador do Centro Espírita Maranhense, em São Luís do Maranhão, e da equipe do Espiritismo.net.