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A cura está no doente, diz médico

A cura está no doente, diz médico



Por Luiz De França


Não é habitual ouvir um médico respeitável, de uma instituição de saúde modelar, falar sobre o papel da energia do corpo humano e da religião no caminho para a cura. É justamente o caso do cirurgião Paulo de Tarso Lima, do Hospital Albert Einstein, de São Paulo. A medicina integrativa é uma prática em ascensão. Surgida nos Estados Unidos na década de 1970, une a medicina tradicional oriental, com sua abordagem holísitica, e a ocidental, apoiada na produção científica e na tecnologia. A reunião tem revolucionado a busca pela cura de doenças como o câncer. "A ideia não é excluir nada, mas juntar tudo e mostrar que a pessoa é detentora da capacidade de cura da própria doença", afirma Lima, que estudou a medicina interativa na Universidade do Arizona (EUA) e cursa o primeiro ano da Barbara Brenner School of Healing, na Flórida, onde a cura é perseguida a partir do estudo da energia humana. O médico é também autor do livro Medicina Integrativa - A Cura pelo Equilíbrio (MG Editores, 139 págs., 32,20 reais). Na entrevista a seguir, ele explica os fundamentos da medicina integrativa e aposta que a prática vai se espraiar por aqui por razões econômicas - por ora, apenas alguns hospitais e somente cinco universidades brasileiros se dedicam ao assunto.


Afinal, o que é medicina integrativa?
É um movimento que surgiu nos Estados Unidos na década de 1970 e que começou a ser organizado com mais rigor na década de 1980, quando entrou para as faculdades de medicina. Hoje, existem 44 universidades americanas ligadas à pratica, que traz uma visão mais holística da pessoa no seu todo: corpo, mente e espírito. O que buscamos é oferecer uma assistência com informação e terapias que vão além da medicina convencional para ajudá-la a se conectar com a promoção de saúde. Eu não tenho a menor dúvida de que a medicina convencional é extremamente efetiva em se tratando de doença, mas saúde não é apenas ausência de doença.


Que terapias são essas?
Sistemas tradicionais como a medicina chinesa e indiana nos oferecem uma gama de alternativas, como acupuntura, reiki, yoga, entre outras, que trabalham a energia do nosso corpo, estimulando uma reação aos sintomas das doenças. A ideia desse movimento não é excluir nada, mas juntar tudo e mostrar que a pessoa é detentora da capacidade de cura da própria doença. Isso é uma mudança de paradigma, porque a possibilidade de voltar ao estado saudável não é algo dado à pessoa, mas é algo inato a ela.


Qual a explicação para só agora a medicina integrativa despertar interesse de médicos convencionais?
Há duas razões: a demanda dos pacientes e a produção acadêmica, que cresce a uma velocidade muito alta. Se entendemos como as coisas funcionam, sabemos que é seguro.


Qual a situação da prática no Brasil?
Estamos em uma situação de dualidade. Os alinhados à prática muitas vezes não usam a medicina convencional de maneira integrada, e os convencionais não usam a medicina integrativa. Temos no Brasil um movimento diferente dos Estados Unidos, menos acadêmico, mas que vem crescendo graças a uma portaria de 2006 que autorizou procedimentos de acupuntura, homeopatia, uso de plantas medicinais e fitoterapias no Sistema Único de Saúde (SUS).


E por que a resistência dos médicos convencionais?
Eu não entendo. Estamos falando de energia e não precisamos ir muito longe para provar que energia corporal existe. A partir do momento que temos uma mitocôndria que produz energia dentro de cada célula, e isso é ensinado no primeiro ano de medicina, não há o que discutir. Temos energia no corpo, e pronto. O curioso é que muitos exames hospitalares rotineiros são baseados em mensuração do campo energético do corpo, como a ressonância magnética, o eletroencefalograma e outros mais sofisticados. Mas se você falar para um neurologista sobre a manipulação da energia do corpo, ele pira.


Por quê?
Porque entramos em um outro ponto da discussão sobre a energia humana, que é a interface com a religião. Estamos vivendo em uma nova fronteira em que se tenta entender essa energia, como ela é produzida, como pode ser manipulada e conduzida. E isso tem um impacto importante na questão da espiritualidade. Por isso, se algum paciente meu acha conforto na religião, se ele se sente bem assim, eu o estimulo a praticá-la.


E como se medem os resultados da medicina integrativa?
Começamos a medir os resultados pelas questões econômicas. A Prefeitura de Campinas, em São Paulo, registrou uma redução substancial de uso de analgésico dentro do SUS ao oferecer terapias ligadas à medicina chinesa focadas na questão ósseo-muscular. Além disso, tem uma série de trabalhos acadêmicos ligados à genética provando que a qualidade de vida produz efeitos na expressão genética da doença. E uma nova fase de trabalho investiga se uma gestante, cujo feto apresenta uma expressão genética de determinada doença, pode ajudar seu bebê se tiver uma gestação muito cuidadosa.


Como isso seria possível?
O homem carrega no seu código genético informações de doenças que podem ser a causa de sua morte. Isso já é provado. Só que você pode ter a característica genética da doença e não desenvolvê-la, ou tê-la precocemente. Isso vai depender da qualidade da sua vida. Comer bem, respirar melhor, praticar atividades físicas, lúdicas e contemplativas são fatores muito importantes ligados à qualidade de vida e que vão provocar um impacto no nosso bem-estar e, consequentemente, na resposta do corpo às doenças já estabelecidas e àquelas que estão programadas para acontecer. O Prêmio Nobel do ano passado de Medicina (dividido entre os pesquisadores Elizabeth H. Blackburn, Carol W. Greider e Jack W. Szostak) mostra que, se há uma importante mudança nutricional e de práticas contemplativas, há uma diminuição da expressão de câncer de próstata em determinados grupos de homens.


As pessoas, em geral, estão mais abertas para as práticas alternativas?
No Brasil, entre 45% e 80% dos pacientes diagnosticadas com câncer utilizam algum tipo terapia "alternativa" em conjunto com o tratamento. Nos Estados Unidos, 13% das crianças e 55% dos adultos saudáveis utilizam tais práticas.


O senhor acredita que essa corrente ganhará espaço no futuro?
Acredito. Não por razões humanitárias, mas por uma questão econômica. Afinal, a forma como a medicina é praticada atualmente implica altos custos. Não posso prever, porém, quanto tempo isso vai demorar, porque o convencimento dos profissionais a respeito do assunto exigirá um longo trabalho.


Matéria publicada na Veja.com, em 27 de janeiro de 2010.



Carlos Miguel Pereira* comenta


No último século, as ciências médicas têm evidenciado uma evolução significativa, não apenas ao nível dos instrumentos tecnológicos que têm à sua disposição e que lhes permitiram aperfeiçoar as técnicas de diagnóstico, prevenção e tratamento das doenças, mas sobretudo na forma como enxergam o indivíduo. À fase puramente materialista e cartesiana, onde os doentes eram comparados a máquinas biológicas avariadas, sucedeu uma visão dual de corpo e mente, amparada nos trabalhos psicanalíticos de Sigmund Freud, que demonstravam a influência de mecanismos inconscientes sobre o corpo físico. Seguiu-se o modelo biopsicossocial, em que a Medicina passou a procurar as estreitas relações existentes entre os aspectos biológicos, psicológicos e sociais, analisando o comportamento social, estudando a saúde emocional e psicológica dos indivíduos, descobrindo como isso afetava a saúde física dos pacientes. Analisando este percurso, pensamos que nos dirigimos em passo lento, mas sustentado, para o tempo em que a medicina reconhecerá o Homem Integral, não só nas suas vertentes biológica, psicológica e social, mas compreendendo também a dimensão espiritual, construindo uma perspectiva mais abrangente do conceito de doença e reinventando novas formas de efetuar os tratamentos. Visando a cura do doente, o médico terá que cuidar do paciente por inteiro.


No Oriente, existe uma cultura mais aberta à compreensão desta temática. A medicina tradicional chinesa há três milénios que incorpora a ideia das práticas meditativas, de respiração e circulação de energia para alcançar um equilíbrio orgânico. Isso funciona como método profilático para a manutenção da saúde, mas também como uma técnica para procurar a sua recuperação. Adoecemos, quase sempre, pelo desequilíbrio psíquico, o qual provoca uma alteração energética que irá repercutir depois no corpo físico. Segundo as suas ideias, o corpo humano dispõe de um sistema sofisticado para localizar os desequilíbrios e direcionar energia e recursos preciosos para curar os problemas por si mesmo. A ciência ocidental vai lentamente assimilando e compreendendo alguns destes conceitos milenares e incorporando-o nas suas excelentes técnicas terapêuticas, mas fica muitas vezes refém da desconfiança de algo que julga místico e supersticioso, acabando por nem ousar perceber os seus imensos sucessos.


Pensamentos e emoções, ideias e sentimentos, desejos e paixões não ficam enclausurados dentro do corpo daqueles que os produzem. A vida, o nosso corpo, o mundo são energias trabalhadas e convenientemente dirigidas. O nosso comportamento, as nossas atitudes, as nossas palavras, o que imaginamos, o que pensamos e não dizemos, o que criticamos, o que maldizemos, as nossas emoções, a felicidade que sentimos, a alegria que extravasamos, a tristeza que interiorizamos, o ódio que reprimimos, a raiva que exteriorizamos, tudo isso são fenômenos energéticos com cargas de diferentes intensidades e qualidades. Sabemos que a alegria, a confiança e as ideias positivas fortalecem o nosso sistema imunológico, enquanto pensamentos sombrios e depressivos deixam-nos vulneráveis a doenças. O pensamento é um dínamo em constante processo criativo e a vontade é o mecanismo orientador e dinamizador dessa força imensa. Já dizia o bondoso amigo: “Vós sois Deuses.” Dispomos de capacidades interiores para promover a nossa saúde ou a nossa doença, consoante a qualidade do nosso pensamento e a forma como nos posicionamos diante da vida. Cabe a cada um saber usá-las da melhor forma, em nosso proveito físico e equilíbrio espiritual.


Nesta lenta, mas admirável integração de diferentes conceitos científicos e filosóficos Orientais e Ocidentais, o Espiritismo surge pioneiro, como uma Doutrina Espiritualista dedicada ao conhecimento do homem integral, nas suas vertentes Espírito, perispírito e corpo físico, compreendendo os limites e propósitos da vida orgânica, encarando o Homem como um viajante do tempo, construído por sua força e vontade através de vivências sucessivas, em que procura constantemente o crescimento e o aprendizado rumo a níveis cada vez maiores de bondade e sabedoria.


* Carlos Miguel Pereira trabalha na área de informática e é morador da cidade do Porto, em Portugal. Na área espírita, é trabalhador do Centro Espírita Caridade por Amor (CECA), na cidade do Porto, e colaborador regular do Espiritismo.net.