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Um gene capitalista?

Um gene capitalista?



No livro Um Adeus às Esmolas, o escocês Gregory Clark diz que o sucesso das nações depende mais das características da população do que das instituições


Diogo Schelp


Uma das questões que mais intrigam os economistas é por que alguns povos enriquecem, enquanto outros parecem fadados a ficar para trás. Várias teses já surgiram ao longo dos últimos séculos, e certamente a mais recente não pode ser classificada de politicamente correta. Em seu livro Um Adeus às Esmolas – Uma Breve História Econômica do Mundo (a obra não tem publicação prevista no Brasil, mas pode ser lida em português na tradução feita pela editora Bizâncio, de Lisboa), o escocês Gregory Clark, professor da Universidade da Califórnia, atribui o sucesso ou o fracasso econômico às características individuais dos cidadãos de cada nação. De acordo com ele, de nada adianta um país ter sistema econômico, leis e instituições propícios ao crescimento se a maior parte da população não for composta de pessoas naturalmente dotadas das qualidades necessárias para ascender em uma economia de mercado. A saber, a paciência, a disposição para o trabalho duro, a inventividade, a habilidade com números, a facilidade de aprendizado e a aversão à violência.


Para entender por que as qualidades capitalistas são mais disseminadas entre certos povos, Clark cruzou dados demográficos e econômicos da Inglaterra entre os anos 1200 e 1800. A opção por estudar os ingleses é evidente: são de sua forja a primeira e segunda revoluções industriais – os tremendos saltos tecnológicos que, entre os séculos XVIII e XIX, possibilitaram a expansão do capitalismo. Ao analisar o padrão de crescimento populacional nos seis séculos anteriores à segunda Revolução Industrial, Clark concluiu que os ingleses com o maior número de filhos sobreviventes – ou seja, que chegaram à idade adulta – não eram os nobres nem os camponeses, mas os integrantes das camadas médias da sociedade. Isto é, aqueles que se reproduziam com mais eficiência eram os mais produtivos e bem-sucedidos economicamente. Com o tempo, seus filhos, netos e bisnetos passaram a formar a maior parcela da população, fertilizando, assim, todas as classes sociais com seu espírito empreendedor.


Clark nomeou sua teoria de "sobrevivência dos ricos". Sua descoberta mais surpreendente é que, na Inglaterra pré-industrial, havia uma intensa mobilidade para baixo das camadas médias da população. Eram os filhos de famílias abastadas que, por não contarem com um bom quinhão de herança, dado a prole paterna ser imensa, desciam alguns degraus na pirâmide social. Eles, porém, levavam consigo conhecimento e iniciativa. Esse fato, aliado à reduzida fecundidade das famílias pobres e a eventuais pragas que as ceifavam, fez com que as camadas mais baixas da sociedade fossem sendo ocupadas por descendentes de gente não só mais rica, como mais bem preparada.


Um Adeus às Esmolas apresenta argumentação consistente, amparada em dados estatísticos, para sustentar a tese de que o capitalismo acabou impregnando os ingleses de alto a baixo, graças a essa circulação de pessoas e aos valores repertórios que elas portavam. Mas Clark é bem menos convincente ao debruçar-se sobre os mecanismos que permitiram a transmissão de determinadas características de geração para geração. Ele sugere que o sucesso do capitalismo inglês – e também o de outras latitudes – deve-se a fatores culturais e genéticos. Como está longe de ser um geneticista, a sua teoria de que houve, na Inglaterra, uma seleção natural de indivíduos mais bem adaptados à economia de mercado circunscreve-se mais no terreno da crença do que no científico. "Não tenho dúvidas de que existe um gene capitalista", disse Gregory Clark a VEJA (leia a entrevista abaixo). "No futuro, a ciência será capaz de selecionar indivíduos com base nele."


À parte as derrapadas na biologia, o mérito de Um Adeus às Esmolas está em não se contentar com as explicações habituais para o sucesso das nações. A primeira delas é a marxista, pela qual a acumulação de capital é, principalmente, fruto da espoliação colonial e da exploração do homem pelo homem. A segunda, de origem determinista, ganhou divulgação por meio do americano Jared Diamond, autor do livro Armas, Germes e Aço, de 1997. De acordo com ele, fatores como geografia e clima permitem ou impedem o desenvolvimento de tecnologias essenciais para o avanço das sociedades. A terceira, de cunho religioso, baseada no pensamento do alemão Max Weber (1864-1920), enfatiza que a ética protestante, de valorização do trabalho e da riqueza, está na base do êxito de países como Inglaterra, Estados Unidos e Alemanha. Por fim, a explicação mais aceita na atualidade é a institucional, inaugurada pelo pai do liberalismo econômico, o escocês Adam Smith (1723-1790). De acordo com ela, são necessários incentivos para que uma economia se desenvolva. Isso inclui impostos baixos, segurança jurídica, direito de propriedade assegurado e liberdade para os mercados funcionarem. Ou seja, um país precisa ter instituições democráticas azeitadas para progredir.


Clark está de acordo com o receituário de Adam Smith, mas não aceita a ideia de que, por si só, seja suficiente para que os países floresçam. Segundo o autor de Um Adeus às Esmolas, já havia um bem pavimentado terreno institucional para o crescimento econômico em boa parte da Europa e também na China e no Japão muito antes do século XIX. Na Inglaterra, ele existia antes mesmo da Revolução Gloriosa de 1688, que estabeleceu a monarquia constitucional. Mas por que foi na Albion vitoriana que o capitalismo moderno nasceu e moldou o mundo? Porque apenas na Inglaterra a taxa de fecundidade dos estratos burgueses era nitidamente maior que a dos outros níveis sociais. Os ingleses economicamente bem-sucedidos tinham o dobro de filhos em comparação com os pobres e os nobres. Para Clark, o que ocorreu na Inglaterra foi uma aceleração de um processo seletivo que começou 9 000 anos antes, com a revolução neolítica, quando sociedades primitivas descobriram a agricultura, deixaram de ser nômades e, desse modo, frutificaram.


O gene capitalista descrito pelo autor teria seus inícios justamente nesse período longínquo, quando surgiu o primeiro germe (não confundir com os de Jared Diamond) de organização econômica lastreada na acumulação de bens. O capitalismo moderno só se difundiu no século XIX, contudo, porque, a partir das características demográficas inglesas daquele momento, a humanidade pôde livrar-se do jugo das leis malthusianas. Ou seja, os avanços tecnológicos da Revolução Industrial produziram excedentes suficientes para dar conta da demanda criada por um aumento exponencial da população e ainda proporcionar uma melhoria extraordinária das condições de vida. Naquele instante, diz Clark, a Inglaterra contava com trabalhadores que tinham um dom – "inato" – para alcançar altíssima produtividade. Para provar esse ponto, Clark comparou a qualidade dos operários em indústrias têxteis na Inglaterra e na Índia no início do século XX. Conclusão: mesmo trabalhando em fábricas semelhantes – a Índia era colônia da Inglaterra –, os operários ingleses eram muito mais produtivos que os indianos. Para o autor, é a escassez de indivíduos adaptados cultural e geneticamente à economia de mercado que explica a pobreza de regiões como África e América do Sul. Interessante. Só falta, agora, combinar com a genética.



Uma tese perigosa


O economista Gregory Clark concedeu a seguinte entrevista a VEJA:


Mabel Feres


O crescimento econômico de um país depende da qualidade de seus cidadãos ou das instituições?
Os economistas acreditam que, para um país crescer, basta dar incentivos às pessoas. Meus estudos indicam o contrário. As características da população são mais relevantes para a economia do que instituições sólidas, proteção aos direitos de propriedade e governo reduzido. Tudo isso existe há 5 000 anos em algumas partes do mundo, mas só nos últimos dois séculos a economia começou a crescer de maneira significativa. A explicação é que as atitudes e as aspirações das pessoas ainda não eram propícias. A convivência com um sistema de mercado por um longo período moldou a cultura e a genética dos indivíduos.


O que o leva a crer que este não é um fenômeno puramente cultural, mas também genético?
No século XIX, por exemplo, chineses pobres foram exportados para todo o mundo. Em todos os lugares em que se estabeleceram, inclusive na América do Sul, os chineses foram bem-sucedidos. Na Malásia e nas Filipinas, eles se sobrepuseram aos cidadãos locais nas atividades de comércio. Há algo na história e no DNA de populações como a chinesa que as torna mais aptas a se destacar economicamente. Pesquisas comparando gêmeos idênticos e bivitelinos também indicam que há um componente genético para o sucesso financeiro.


A genética de uma população determina se um país será rico ou pobre?
Infelizmente, é isso mesmo. Os aborígines australianos, por exemplo, que nunca experimentaram um sistema semelhante a uma economia de mercado até a chegada dos europeus, são incapazes de competir economicamente. Também não há muita coisa que um governo possa fazer para desenvolver um país como o Brasil. Um dos mistérios do mundo moderno é saber por que, depois de algum tempo, cada grupo de imigrantes não tem a mesma proporção de indivíduos no topo, no meio e na base da sociedade. Nos Estados Unidos, há muito se tenta entender por que os negros continuam relativamente pobres, enquanto os judeus seguem bem-sucedidos socialmente. Não faltam indícios de que os indivíduos desses grupos herdaram características determinantes para o seu desempenho econômico.


Suas teses assemelham-se muito a ideologias racistas.
Outros pesquisadores vão ter de pensar nas implicações sociais das minhas conclusões. Concordo que há riscos. Coisas muito ruins foram feitas no passado em nome da genética. Ninguém discute, no entanto, que bons atletas são geneticamente diferentes da população em geral. Se essa ideia é aceitável para esportistas, por que não seria também para pessoas que se dão bem no mercado financeiro e em empresas?


Como reagir a esse determinismo?
Em genética, há apenas pequenas diferenças entre populações. Mas existe uma enorme variedade entre indivíduos. O destino está nas mãos de cada um. O fato de uma pessoa pertencer a um grupo populacional que fracassou economicamente não significa que ela vai pelo mesmo caminho. A herança genética não é o único componente para o sucesso, mas não há dúvida de que ele existe.


Matéria publicada na Veja.com, em 7 de outubro de 2009.



Carlos Miguel Pereira* comenta


Existem populações melhor preparadas para atingir o sucesso econômico? Existem particularidades físicas nos diversos grupos de pessoas que lhes permitam criar melhores condições de sobrevivência? O que determina a personalidade, o caráter ou mesmo a inteligência dos indivíduos? Estas são perguntas que sempre intrigaram os homens. Explicar o comportamento humano em seus diversos aspectos é um desafio para filósofos, psicólogos e cientistas em geral há muitos séculos. A ideia mais difundida atualmente pela comunidade científica é que o comportamento e a personalidade dos indivíduos dependem, em maior ou menor grau, de fatores genéticos e de fatores ambientais, culturais e sociais, interagindo de maneira extremamente complexa.


Antes da descoberta dos mecanismos hereditários, acreditava-se que o Homem era um produto do meio. Por meio ambiente, pretendemos especificar a educação recebida, as influências sociais, os estímulos, as experiências vividas e a cultura em que alguém esteja inserido. Posteriormente, após o monge austríaco Gregor Mendel ter descoberto os mecanismos hereditários através das suas experiências com ervilhas, a hipótese genética tornou-se a menina dos olhos dos cientistas, prevalecendo sobre as influências ambientais. A falência da hipótese geneticista isolada, que durante alguns anos os cientistas pretenderam impor como a resposta às inúmeras dúvidas, veio da existência de inúmeras exceções que impediam estabelecer um padrão rigoroso. Por exemplo, o estudo com gémeos autênticos veio demonstrar que, mesmo possuindo genes iguais, eles possuíam comportamentos e formas de pensar, por vezes, tão diferentes que impediam a aceitação da genética como única resposta a essa questão.


É inegável que os mecanismos hereditários têm um papel importante na nossa maneira de ser, isso já foi demonstrado pela ciência. Mas uma leitura deturpada dessas evidências leva muita gente a pensar que os genes determinam comportamentos, o que nos tiraria qualquer responsabilidade sobre as nossas atitudes e mesmo a liberdade de agir. Seríamos criminosos apenas porque teríamos um gene responsável por isso. Nos tornaríamos prósperos e trabalhadores porque estaríamos programados a tal. Da mesma forma aconteceria com as influências ambientais.


Meditemos na questão 846, de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec: “Sobre os atos da vida nenhuma influência exerce o organismo? E, se essa influência existe, não será exercida com prejuízo do livre-arbítrio? - É inegável que sobre o Espírito exerce influência a matéria, que pode embaraçar-lhe as manifestações. Daí vem que, nos mundos onde os corpos são menos materiais do que na Terra, as faculdades se desdobram mais livremente. Porém, o instrumento não dá a faculdade. Além disso, cumpre se distingam as faculdades morais das intelectuais. Tendo um homem o instinto do assassínio, seu próprio Espírito é, indubitavelmente, quem possui esse instinto e quem lho dá; não são seus órgãos que lho dão. Semelhante ao bruto, e ainda pior do que este, se torna aquele que nulifica o seu pensamento, para só se ocupar com a matéria, pois que não cuida mais de se premunir contra o mal. Nisto é que incorre em falta, porquanto assim procede por vontade sua.”


A Doutrina Espírita acrescenta a dimensão espiritual na construção da natureza humana, reforçando a sua complexidade. Como espíritas, sabemos que somos muito mais um Espírito encarnado num corpo do que um corpo com Espírito. Reconhecemos que o Espírito é imortal e que é portador de uma bagagem interior acumulada em inúmeras encarnações, interagindo com os elementos hereditários do corpo físico recebido, mas também da educação, envolvente social e cultural para moldar e fazer emergir uma personalidade gradualmente mais sublimada. Nós somos individualidades únicas, dotadas de livre-arbítrio, com inteligência e vontade própria, construídos pela força do nosso trabalho, dedicação e empenho ao longo de inúmeras existências. Os genes e o meio ambiente, que inegavelmente têm a sua influência no nosso comportamento, apenas definem tendências, mas são as vontades individuais que, sempre, as concretizam. Essa vontade mais não é do que a expressão do Espírito, que através da sua perseverança e esforço de superação pode ultrapassar os mais variados obstáculos e dificuldades, erguendo-se diante das provas mais rudes.


Isto a propósito da hipótese que o economista Gregory Clark desenvolveu sobre o gene capitalista que associa a riqueza de um país às características genéticas predominantes na sua população. Este tipo de respostas reducionistas e simplistas a conceitos tão abrangentes, complexos e dependentes de infindáveis fatores, desde culturais, sociais, genéticos, geográficos, políticos, psicológicos, espirituais, é de uma grande ousadia. É o próprio autor quem no final da sua entrevista, desmistifica um pouco a sua teoria afirmando: “O destino está nas mãos de cada um. (…) A herança genética não é o único componente para o sucesso, mas não há dúvida de que ele existe.”


Além disso, não podemos esquecer que o progresso de um povo ou de um país não pode ser medido unicamente pela sua riqueza financeira. Em resposta à pergunta 788, de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, é dito: “Os povos que só vivem materialmente, cuja grandeza se funda na força e na extensão territorial, crescem e morrem porque a força de um povo se esgota como a de um homem; aqueles cujas leis egoístas atentam contra o progresso das luzes e da caridade, morrem porque a luz aniquila as trevas e a caridade mata o egoísmo. Mas há para os povos, como para os indivíduos, a vida da alma, e aqueles, cujas leis se harmonizam com as leis eternas do Criador, viverão e serão o farol dos outros povos.” Na pergunta do mesmo livro, Allan Kardec questiona: “Por que sinais se pode reconhecer uma civilização completa? Vós a reconhecereis pelo desenvolvimento moral. Acreditais estar muito adiantados por terdes feito grandes descobertas e invenções maravilhosas; porque estais melhor instalados e melhor vestidos que os vossos selvagens; mas só tereis verdadeiramente o direito de vos dizer civilizado quando houveres banido de vossa sociedade os vícios que a desonram e quando passardes a viver como irmãos, praticando a caridade cristã. Até esse momento não sereis mais do que povos esclarecidos, só tendo percorrido a primeira fase da civilização.”


* Carlos Miguel Pereira trabalha na área de informática e é morador da cidade do Porto, em Portugal. Na área espírita, é trabalhador do Centro Espírita Caridade por Amor (CECA), na cidade do Porto, e colaborador regular do Espiritismo.net.