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Doador de órgãos não estava morto

Doador de órgãos não estava morto



Jean-Yves Nau
França


Os cirurgiões que cercavam o paciente inerte quase desmaiaram: o homem cujo coração estava parado há uma hora e meia e cujos órgãos eles estavam se preparando para recolher a fim de utilizar em transplantes terminou despertando na mesa de cirurgia.


Trata-se de um caso na fronteira entre vida e morte, e de um tema que suscita reflexão e emoção entre os profissionais da medicina - especialmente os especialistas em reanimação e as autoridades que regulamentam a bioética -, e os obriga a questionar que critérios objetivos permitem definir a partir de que momento um paciente que foi submetido a tentativas de reanimação pode começar a ser considerado um doador de órgãos, sabendo-se que esses órgãos, quando colhidos, permitem prolongar a esperança de vida de outros doentes.


No começo deste ano, em Paris, um homem de 45 anos caiu na rua, e apresentava todos os sintomas de um infarto maciço do miocárdio. Mais tarde, os médicos descobriram que, embora soubesse estar enfrentando uma situação de alto risco cardíaco, o homem não seguia seu tratamento.


A intervenção quase imediata do serviço de assistência médica confirmou o diagnóstico inicial, e os paramédicos iniciaram imediatamente os procedimentos de reanimação, menos de 10 minutos depois do incidente cardíaco sofrido pelo paciente. No entanto, os esforços deles não resultaram em retomada espontânea do batimento cardíaco.


O fato de que estavam próximos ao complexo hospitalar de La Pitié-Salpêtrière, onde seria possível praticar uma dilatação das artérias coronárias da vítima, fez com que os paramédicos decidissem continuar tentando as manobras padronizadas de reanimação do paciente, enquanto o transportavam em alta velocidade rumo ao hospital especializado.


Quando chegaram, o coração do paciente ainda não havia recomeçado a bater e, depois de uma análise rápida da ficha, uma equipe de cardiologistas do hospital concluiu que uma dilatação coronária não poderia ser realizada, por motivos técnicos. Os médicos começaram imediatamente a considerar o paciente como potencial doador de órgãos: um doador classificado como "inativo em termos cardíacos".


O que aconteceu em seguida nesse estranho caso foi relatado em um documento oficial preparado durante uma reunião de um grupo de trabalho que trata das questões morais envolvidas nesse tipo de situação, e que recentemente veio a formar um núcleo sob os auspícios do "espaço ético" da Assistência Pública-Hospitais de Paris (AP-HP), a organização municipal de saúde da capital francesa.


Na reunião, foi descoberto que os cirurgiões que poderiam proceder à coleta de órgãos para possíveis transplantes não estavam imediatamente disponíveis. Quando eles por fim chegaram ao bloco em que o paciente estava internado, encontraram seus colegas ainda envolvidos em massagem cardíaca do paciente, depois de uma hora e meia de paralisação do coração, e ainda sem resultado aparente.


Mas, no exato momento em que estavam se preparando para iniciar a coleta de órgãos, os médicos descobriram, com imensa surpresa, que o paciente estava apresentando sinais de respiração espontânea, que suas pupilas pareciam se ter reanimado e que ele exibia traços de reação a procedimentos de estímulo doloroso.


Ou seja, para dizer de outra maneira, havia "sinais de vida", um enunciado equivalente a determinar a ausência de sinais clínicos de morte, como afirma o relatório, que prossegue alegando que "depois de diversas semanas de tratamento e de enfrentar uma séria de outras complicações graves, o paciente agora está andando e falando, e os detalhes concernentes ao seu estado neurológico não são conhecidos".


O texto infelizmente não informa se o paciente está ou não ciente de que seus órgãos quase foram colhidos para transplantes.



Mais comum do que se pensa


No curso da mesma reunião, diversos outros especialistas em reanimação, a começar por aqueles que trabalham no departamento de emergência de Paris, evocaram situações nas quais "uma pessoa estava convencida da sobrevivência de um paciente, depois de manobras de reanimação prolongadas, com duração bem superior à habitual, e consideradas como razoáveis em casos dúbios como esses".


Todos os presentes reconheceram que esses casos envolvem histórias bastante excepcionais, mas admitiram tê-las encontrado ao longo de suas carreiras. "Os participantes enfatizaram que, caso as recomendações oficiais que estão em vigor no momento tivessem sido seguidas à risca, o paciente provavelmente teria sido considerado como morto".


A situação representa uma ilustração poderosa de questões que persistem, irresolvidas, no ramo da reanimação médica, quanto a modalidades de intervenção e critérios que permitam determinar o fracasso de um esforço de reanimação, consideraram os especialistas.


Um caso como o do paciente parisiense não poderia ter acontecido na França antes de 2007, quando a prática de coleta de órgãos de pacientes com o coração inativo era proibida. Até o ano passado, a coleta de órgãos para transplantes só podia ser realizada no país em casos de coma nos quais a morte cerebral do paciente fosse constatada e confirmada por eletrocardiogramas e por exames neuro-radiológicos.


Para atender à escassez crônica de órgãos para transplante disponíveis, as autoridades que comandam a Agência de Biomedicina francesa decidiram lançar no começo de 2007 um programa experimental, nos hospitais, sob o qual pessoas cujo coração tenha deixado de bater seriam submetidas a esforços de reanimação por massagem cardíaca, respiração mecânica e, em certos casos, circulação extracorpórea.


Le Monde


Notícia publicada no Portal Terra, em 12 de junho de 2008.



Jorge Hessen* comenta


Quando se pode precisar que uma pessoa esteja realmente morta? Para a American Society of Neuroradiology, é através da morte encefálica, isto é, "quando constatado o estado irreversível de cessação de todo o encéfalo e funções neurais (resultante de edema e maciça destruição dos tecidos encefálicos), apesar da atividade cardiopulmonar poder ser mantida através de avançados sistemas de suporte vital e mecanismo de ventilação”.(1) Morte cerebral significa a desvitalidade do cérebro, incluindo tronco encefálico que desempenha funções cruciais como o controle da respiração. Quando isso ocorre, a parada cardíaca é inevitável. Embora, ainda, haja batimentos cardíacos, a pessoa com morte cerebral não pode respirar sem os aparelhos e o coração não baterá por mais de algumas poucas horas. Por isso, a morte encefálica já caracteriza a morte do indivíduo. A medicina, no mundo inteiro, tem como certeza que a morte encefálica, incluída a morte do tronco cerebral, só terá constatação através de dois exames neurológicos, com intervalo de seis horas, e um complementar. Assim, quando for constatada cessação irreversível da função neural, esse paciente estará morto, para a unanimidade da literatura médica.(2)


Recentemente, um homem, cujo coração estava parado há mais de uma hora e cujos órgãos os médicos estavam se preparando para recolher, a fim de utilizar em transplantes, despertou na mesa de cirurgia, ou seja, havia nele "sinais de vida", a rigor, um enunciado equivalente a determinar a ausência de sinais clínicos de morte. "Os participantes da equipe de cirurgiões presentes enfatizaram que, caso as recomendações oficiais que estão em vigor no momento tivessem sido seguidas à risca, o paciente, provavelmente, teria sido considerado como morto.”(3)


Os Espíritos afirmaram a Kardec que o desligamento do corpo físico é um processo altamente especializado e que pode demorar minutos, horas, dias, meses.(4) O fato, obviamente, demonstra que a fronteira entre vida e morte suscita uma rigorosa reflexão dos profissionais de medicina (especialmente, entre especialistas em reanimação e as autoridades que regulamentam a bioética), e os obriga, algumas vezes, a questionar sobre quais critérios objetivos permitem definir o momento exato em que um paciente, que foi submetido a tentativas de reanimação, pode começar a ser considerado um potencial doador de órgãos. A situação representa uma ilustração pujante de questões que persistem, irresolvidas, pelo menos, na área da reanimação médica, quanto às modalidades de intervenção e critérios que permitam determinar o fracasso de um esforço de reanimação.


Em que pesem as controvérsias sobre a morte encefálica, na vigência da qual os órgãos ou partes do corpo humano são removidos para utilização imediata em enfermos deles necessitados (transplantes), é mister considerar que estar em morte encefálica é permanecer em uma condição de parada definitiva e irreversível do encéfalo, incompatível com a vida e da qual ninguém, em tempo algum, recupera-se. Havendo morte cerebral, verificada por exames convencionais e, também, apoiada em recursos de moderna tecnologia, apenas os aparelhos podem manter a vida vegetativa, por vezes, por tempo indeterminado. "É nesse estado que se verifica a possibilidade do doador de órgãos "morrer" através da ortotanásia e, só então, seus órgãos serem aproveitados - já que órgãos sem irrigação sanguínea não servem para transplantes.


"Eutanásia? Evidentemente que caracterizar o fato como tal carece de argumentação científica (...) para condenarem o transplante de órgãos. A eutanásia de modo algum se encaixaria nesses casos de morte encefálica comprovada."(5) A doação de órgãos é um procedimento médico moderno que não é, especificamente, mencionado nos textos evangélicos. Algumas pessoas se opõem a esse avanço da medicina, simplesmente, porque é "novo" e "diferente", mas esse argumento não serve de base correta para julgar a questão. O Criador deu ao homem a capacidade de pensar e a habilidade de inventar e nunca condenou o progresso tecnológico em si. Imaginemos o seguinte: Se a doação do próprio braço direito ou do rim direito salvar a vida do próprio filho, qual o pai amoroso que se recusaria a doá-lo? Portanto, a doação é um ato de bondade e amor que beneficia também um receptor desconhecido. O órgão que já não serve mais para a pessoa morta pode permitir a uma jovem mãe cuidar de seus próprios filhos, ou a uma criança chegar à idade adulta. "Se a misericórdia divina nos confere uma organização física sadia, é justo e válido, depois de nos havermos utilizado desse patrimônio, oferecê-lo, graças às conquistas valiosas da ciência e da tecnologia, aos que vieram em carência a fim de continuarem a jornada."(6)


A temática "doação de órgãos e transplantes" é bastante coetâneo no cenário terreno. Sobre o assunto, talvez, porque as informações instrutivas dos Benfeitores Espirituais não serem abundantes, há o receio do desconhecido que paira no imaginário de muitos homens. Eis o motivo pelo qual alguns espíritas se recusam a autorizar, em vida, a doação de seus próprios órgãos após o desencarne.


Porém, é interessante introjetarmos a seguinte reflexão: se, hoje, somos doadores, amanhã, poderemos ser (ou nossos familiares e amigos) receptores de órgãos. Para a maioria das pessoas, a questão da doação é tão remota e distante quanto à morte. Mas, para quem está esperando um órgão para transplante, ela significa a única possibilidade de vida! Joanna de Ângelis, sabendo dessa importância, ressalta "(...) Verdadeira bênção, o transplante de órgãos concede oportunidade de prosseguimento da existência física, na condição de moratória, através da qual o Espírito continua o périplo orgânico. Afinal, a vida no corpo é meio para a plenitude - que é a vida em si mesma, estuante e real."(7)


Em entrevista à TV Tupi, em agosto de 1964, publicada na Revista Espírita Allan Kardec, ano X, nº 38, Francisco Cândido Xavier comenta que o "transplante de órgãos, na opinião dos Espíritos sábios, é um problema da ciência muito legítimo, muito natural e deve ser levado adiante." Os Espíritos, segundo ele, "não acreditam que o transplante de órgãos seja contrário às leis naturais. Pois é muito natural que, ao nos desvencilharmos do corpo físico, venhamos a doar os órgãos prestantes a companheiros necessitados deles, que possam utilizá-los com proveito."(8)


Não se pode perder de vista a questão do mérito individual. "Estaria o destino dos Espíritos desencarnados à mercê da decisão dos homens em retirar-lhes os órgãos para transplante, ou em retalhar-lhes as vísceras por ocasião da necropsia?! O bom senso e a razão assinalam que isso não é possível, porquanto seria admitir a justiça do acaso e o acaso não existe!"(9) E mais, em síntese, a doação de órgãos para transplantes não afetará o espírito do doador, exceto se acreditarmos ser injusta a Lei de Deus e estarmos no Planeta à deriva da Sua Vontade. Lembremos que nos Estatutos do Criador não há espaço para a injustiça e o transplante de órgãos (conquista da ciência humana) é valiosa oportunidade, dentre tantas outras, colocada à nossa disposição para o exercício do amor.



Fontes:


(1) In: "Dos transplantes de Órgãos à Clonagem", de Rita Maria P.Santos, Ed. Forense, Rio/RJ, 2000, p. 41;


(2) Pode-se ter certeza do diagnóstico de morte encefálica quando dois médicos de diferentes áreas examinam o paciente, sempre com a comprovação de um exame complementar, procedimento esse regulamentado pelo Conselho Federal de Medicina;


(3) Disponível em http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI2944622-EI8146,00.html>, acessado em 02/02/2010;


(4) Kardec, Allan, O Livros dos Espíritos, RJ: Ed FEB/2003, questão nº 155, Cap. XI;


(5) Bezerra, Evandro Noleto. Transplante de Órgãos na Visão Espírita, publicado na Revista Reformador - outubro/1998;


(6) Franco, Divaldo Pereira. Seara de Luz, Salvador: Editora LEAL [o livro apresenta uma série de entrevistas ocorridas com Divaldo entre 1971 e 1990];


(7) Franco, Divaldo Pereira. Dias Gloriosos, ditado pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador/BA: Ed. LEAL, 1999, Cf. Cap. Transplantes de Órgãos;


(8) Entrevista de Francisco Cândido Xavier à TV Tupi, em agosto de 1964, publicada na Revista Espírita Allan Kardec, ano X, nº 38;


(9) Bezerra, Evandro Noleto. Transplante de Órgãos na Visão Espírita, publicado na Revista Reformador- outubro/1998.


* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal lotado no INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.