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Estresse transforma medo em doença

Estresse transforma medo em doença



Uma em cada quatro pessoas sofre com ansiedade. O corpo sinaliza com infarto, úlcera, insônia. Veja como procurar ajuda.


ISABELA ASSUMPÇÃO
Rio de Janeiro


Insegurança, gripe mortal, violência, estresse e medo – muito medo. Bons tempos aqueles em se podia morar em um bairro tranquilo, agradável e andar na rua sem qualquer preocupação. Hoje, nas grandes cidades, é preciso ter nervos de aço. A tensão é permanente. Não importa se é dia, noite, bairro pobre ou bairro nobre – o medo faz parte da rotina de todos.


O medo é um sentimento natural, parte da preservação da espécie. Mas a dura realidade do dia a dia está transformando algo que é fundamental para nossa sobrevivência em uma doença.


"O medo é positivo, mas ele pode se tornar algo negativo, patológico, doentio, e aí trazer prejuízos para a saúde física, psíquica e social", diz o psiquiatra Jorge Alberto Costa e Silva.


Foi assim com a microempresária Júlia Lima, uma mulher independente e bem resolvida. Mas, para ela, o medo ultrapassou todos os limites. "Eu tinha uma dor física, que não tem como explicar. Só quem passa por ela sabe", conta ela.


Júlia tinha uma vida normal, até o dia que sofreu um assalto dentro de um ônibus. Levaram o celular e R$ 30. Mas o maior prejuízo foi emocional. O trajeto para o trabalho nunca mais foi o mesmo. "Se eu cismasse com alguma pessoa, não entrava no ônibus. Se eu estivesse no ônibus e essa figura entrasse, eu dava sinal e saía. Descia tremendo, gelada, paralisada", descreve.


Logo depois, outro choque: Júlia quase caiu no golpe do telefonema do falso sequestro. Ela conseguiu localizar o filho a tempo, mas a angústia aumentou dramaticamente. "Eu comecei a infernizar a vida dos meus filhos para saber onde estavam e com quem estavam. Eu torturava. Sabia disso, mas era muito mais forte do que eu. Eu não dormia enquanto eles não chegavam", conta.


O sofrimento emocional se tornou físico. "Eu não sabia de nada, mas todo dia de manhã eu vomitava ao acordar. A primeira coisa que eu fazia era vomitar", lembra Júlia. E os problemas com a saúde viraram rotina. "De 15 em 15 dias eu estava na emergência de um hospital. Chegava lá, era a mesma coisa sempre: fazia eletrocardiograma e hemograma de imediato, e os médicos diziam que eu estava ótima", conta.


Júlia não está sozinha. Uma pesquisa norte-americana estima que uma em quatro pessoas sofre efeitos físicos e emocionais da ansiedade, desse medo permanente. E mostrou que as pessoas ansiosas vão cinco vezes mais a médicos. Muitos especialistas acreditam que essa tensão constante pode se tornar um problema de saúde pública.


"Esse estresse crônico pode gerar – e certamente vai gerar em uma parcela muito importante da população – problemas físicos e emocionais, como infarto do miocárdio, úlcera, insônia", diz o médico Jorge Alberto Costa e Silva.


O medo repercute no organismo de várias maneiras. No cérebro, pode provocar insônia e depressão. No coração, aparecem arritmia e hipertensão. O sistema endócrino pode sofrer baixa taxa de açúcar no sangue e problemas com a tireóide. E no sistema gastrointestinal, indigestão, colite.


Nas grandes cidades brasileiras, como São Paulo e Rio de Janeiro, o nível de ansiedade cresce com a violência desenfreada.


"Você vê pela maneira como as pessoas andam na rua ou no automóvel. A grande maioria anda assustada, olhando para os lados, como se tivesse sendo perseguida. Em suma, se alguém encosta para pedir uma informação, você dá um pulo no meio da rua", diz o médico Jorge Alberto Costa e Silva.


Uma mulher que é profissional liberal, da classe média alta, prefere não mostrar o rosto. Ela já foi vitima da violência três vezes. "Eu já fui vítima de um sequestro-relâmpago. Uma vez bandidos roubaram meu carro e ameaçaram levar minha filha, que ainda era um bebê. Recentemente, dois assaltantes entraram no meu carro, com a minha filha e meu marido dentro", conta.


Para se sentir mais segura, ela passou a tomar alguns cuidados. "Eu blindei o carro. Assim, se eu paro em um sinal, fico mais tranquila. Se paro na porta de uma festinha para esperar minha filha, eu paro com mais tranquilidade. Por conta da segurança, procuro não ter horário para ir aos lugares ou chegar", diz ela, que se preocupa com alguns programas que a filha adolescente gosta de fazer. "Eu não gosto que ela ande pela Lagoa de bicicleta durante a semana porque fica mais deserto e eu tenho medo que ela seja assaltada ou sofra alguma violência", conta.


As pessoas das comunidades carentes também sofrem. "Eu me preocupo muito com essa violência que toca as comunidades mais carentes. Elas vivem em um universo quase que totalmente cercado pela violência. Não é só a violência como ameaça física, mas a violência de dignidade humana, dignidade de viver. Essa talvez seja uma violência mais grave do que as outras", avalia o médico Jorge Alberto Costa e Silva.


Se o medo está em todos os lugares, em alguns, ele tem um efeito ainda mais terrível. É o medo que cala. Há meses o Morro Dona Marta, no Rio de Janeiro, está ocupado pela polícia para garantir a segurança dos moradores. Ainda assim, o Globo Repórter não conseguiu nenhuma pessoa que quisesse contar como é viver no local. O Dona Marta e outros morros cariocas estão sendo finalmente libertados do domínio dos traficantes. Resta saber quando as pessoas serão libertadas do medo que ficou.


E quando é hora de procurar ajuda? O psiquiatra Jorge Alberto Costa e Silva lembra que o corpo sinaliza. "A pessoa começa a sentir úlcera, não dorme bem, tem ansiedade, tristezas, pânicos. O coração dispara. A sensação é de que vai morrer. É o medo que já está trazendo consequências para a mente ou para o físico. É hora de procurar um profissional para tratar a consequência do medo", orienta.


Para ele, ter hábitos saudáveis também ajuda. "A atividade física relaxa o indivíduo porque todo o medo e toda a tensão se refletem no músculo, você se contrai. E quando você faz exercício, acaba relaxando o músculo. O indivíduo deve procurar se alimentar da melhor maneira possível", aconselha.


Júlia procurou ajuda e graças ao tratamento já retomou a vida que levava antes. "Hoje tomar ônibus é tranquilo. Se acontecer, seja feita a vontade de Deus. Medo nunca mais. Tenho certeza que estou preparada", afirma.


Notícia publicada no site do Globo Repórter, em 17 de setembro de 2009.



Jorge Hessen* comenta


Em uma situação de crise, seja de ordem econômica ou agravamento da insegurança pública, como sói ocorrer nos dias de hoje, as relações sociais, pessoais e familiares se alteram. Diante desse quadro, é perfeitamente normal que sintamos medo. Na verdade, sentir medo nos leva à imobilização, pois essa fobia aumenta, consideravelmente, a incerteza do que uma atitude poderá causar. Pensar que não conseguiremos enfrentar uma doença, nossos erros, a perda do emprego ou dos bens, a velhice, a solidão, a perda de um amor e assim por diante, amedronta-nos, causa-nos ansiedade e desconforto psicológico.


Se tivéssemos certeza do sucesso das atitudes a tomar, não teríamos medo de coisa alguma. Não devemos, pois, desconsiderar nossos medos, mas, antes, valorizá-los como fonte de transformações a serem realizadas dentro de nós mesmos. Quando usados como instrumento de coerção, controle e exercício do poder e de autoridade sobre os outros, compromete-se a consciência dos indivíduos, criando, neles, a necessidade de mentir. É quando professores e pais usam os medos e ameaças para limitarem seus alunos e filhos. Contos e histórias infantis, que podem ser usados como armas para amedrontar e controlar as crianças, estão ajudando a realizar a tarefa da antipedagogia. É o antiensino. É a deseducação.


André Luiz ensina que “o corajoso suporta as dificuldades, superando-as. O temerário afronta os perigos sem ponderá-los.”(1) É verdade! Há atitudes que, frente aos medos, podem ser fruto da nossa irresponsabilidade. Trata-se de um erro de percepção ou da nossa incapacidade de julgamento. Sem medir as consequências dos nossos atos, seja qual for a razão, enfrentamos a ameaça e o perigo, sem, antes, analisá-los. Somos, muitas vezes, inconsequentes nos nossos atos, não avaliarmos a imprudência que cometemos. Exemplos comuns de irresponsabilidade são as atitudes impulsivas ou exibicionistas praticadas por quem não pensa em correr quaisquer riscos com tais atitudes. A morte e a vida lhe são indiferentes.


Por essas razões, é preciso que aceitemos nossos próprios medos, a fim de darmos início ao nosso autoconhecimento. Consiste, isso, em admitir que temos medos. Admitir também que todos têm medos. É o primeiro e decisivo passo para iniciar o caminho que nos levará a superá-los e, consequentemente, a superação de si mesmo.


A instabilidade psíquica e emocional faz parte da rotina de todos. É necessário ter “nervos de aço” para sobreviver nas grandes cidades modernas. Embora o medo seja um sentimento natural, a drástica realidade do cotidiano está transformando em patologia crônica um sentimento que é fundamental para nossa sobrevivência. “Ninguém poderá dizer que toda enfermidade esteja vinculada aos processos de elaboração da vida mental, mas todos podem garantir que os processos de elaboração da vida mental guardam positiva influenciação sobre todas as doenças”.(2) O medo é normal quando é moderado. Quando excessivo, torna-se doença, passa a prejudicar a nossa vida.


“Toda emoção violenta sobre o corpo é semelhante a martelada forte sobre a engrenagem de máquina sensível, e toda aflição amimalhada é como ferrugem destruidora, prejudicando-lhe o funcionamento”.(3) O medo excessivo (fobias) é o mesmo que semear espinheiros magnéticos e adubá-los no solo emotivo de nossa existência; é intoxicar, por conta própria, a tessitura da vestimenta corpórea, estragando os centros de nossa vida profunda e arrasando, consequentemente, sangue e nervos, glândulas e vísceras do corpo, que Deus nos concede com vistas ao desenvolvimento de nossas faculdades para a Vida Eterna.


Para Sigmund Freud, uma emoção como o medo, por exemplo, “é uma preparação para enfrentar o perigo. É um estado biologicamente útil, já que, sem ele, a pessoa se acharia exposta a consequências graves. Dele derivariam a fuga e a defesa ativa. Quando, porém, o desenvolvimento de certos estados vai além de determinados limites, passa a contrariar o objetivo biológico e dá lugar às formas patológicas”.(4)


Os ansiosos (estressados) visitam cinco vezes mais médicos que uma pessoa normal. O sintoma crônico do medo está gerando problemas físicos e emocionais, tais como infarto do miocárdio, úlcera e insônia. Essa síndrome repercute no organismo de várias maneiras. No cérebro, pode provocar insônia e depressão. No coração, surgem as arritmias e a hipertensão. O sistema endócrino pode sofrer baixa taxa de açúcar no sangue e problemas com a tireóide; no sistema gastrointestinal, indigestão e colite. Portando, o stress(5) do medo desenvolve a úlcera, a ansiedade, as tristezas e os pânicos. “O medo [patológico] é um dos piores inimigos da criatura, por alojar-se na cidadela da alma, atacando as forças mais profundas”.(6)


Para nós, estudiosos do Espiritismo, a solução para o medo é, sem dúvida, o exercício “da fé que remove montanhas”(7), mostrando-nos o rumo da vitória. É, igualmente, a certeza da reencarnação, a convicção de que a vida terrena não é mais do que um longo dia perante a eternidade real da vida do Espírito. Somos seres pensantes e imortais e, ante essas verdades, podemos enriquecer a nossa atividade mental, indefinidamente, rumo aos objetivos superiores. Podemos desenvolver recursos que nos conduzam a um relacionamento humano e social mais saudável, através do trabalho solidário e fraternal, aprendendo a entender as dores e angústias dos nossos companheiros, a ter compaixão, e, finalmente, “a amar o próximo como a nós mesmos”.(8)


Fundamentalmente, a fé deve apoiar-se na razão, para não ser cega. Por isso, fé não é um "dom" fornecido por Deus para alguém em especial, seja por essa ou aquela atitude exterior, mas sim o produto da nossa conquista pessoal na busca da compreensão do caminho correto, das verdades que permeiam a essência das nossas próprias vidas, por meio do conhecimento, da vivência, da experiência, das reflexões pessoais e pelo esforço que fazemos em nos modificar para viver com mais amor, por entender que o amor é a causa da vida, e a vida é o efeito desse amor. Na mensagem do Mestre, aprendemos a lição da coragem, do otimismo vivo, fatores psicológicos, esses, capazes de renovar nossos pendores, obstando que o medo, a depressão e a angústia se apossem de nossa mente.



Fontes:


(1) Xavier, Francisco Cândido. Agenda Cristã , ditado pelo Espírito André Luiz , Rio de Janeiro: Ed Feb, 2001;


(2) Idem;


(3) Idem;


(4) ABBAGNANO, N., citado por. Dicionário de Filosofia. Sigmund Freud (1856-1939). Nascido na Áustria de família judia. Foi o fundador da Psicanálise, tendo formulado os conceitos de inconsciente, libido, o método da livre associação no tratamento psicanalítico, etc, cujos fundamentos teóricos colaboraram para a compreensão do psiquismo humano;


(5) O stress pode ser causado pela ansiedade e pela depressão devido à mudança brusca no estilo de vida e a exposição a um determinado ambiente, que leva a pessoa a sentir um determinado tipo de angústia. Quando os sintomas de estresse persistem por um longo intervalo de tempo, podem ocorrer sentimentos de evasão (ligados à ansiedade e depressão). Os nossos mecanismos de defesa passam a não responder de uma forma eficaz, aumentando assim a possibilidade de vir a ocorrer doenças, especialmente cardiovasculares;


(6) Xavier, Francisco Cândido. Nosso Lar, ditado pelo Espírito André Luiz, Capítulo 42, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2001;


(7) Cf. Mt. 21.18-22;


(8) Cf. (Mateus 9:20-22; Marcos 1:40-42; 7:26, 29, 30; João 1:29).


* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal lotado no INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.