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Elas mudaram a História

Elas mudaram a História



Livro do historiador inglês Felipe Fernández-Armesto cataloga quase 400 ideias que foram determinantes na formação do mundo atual. Conheça como algumas delas surgiram


DANILO CASALETTI


A descoberta do fogo, da pólvora, da roda, do avião, das comunicações, da luz elétrica, estão sempre na lista das invenções que mudaram o rumo da história. Mas como surgiu o casamento por amor? Quem determinou que deve existe um amor universal entre os povos? E quem passou a ideia de que os Estados Unidos são uma nação superior?


Essas e outras ideias foram fundamentais para a transformação da humanidade e até chegaram a mudar o mundo de forma palpável, como a escrita, a representação artística e o terrorismo. Outras, alteram a maneira como as pessoas percebem o mundo, entre elas a vida após a morte, a ideia do zen e o destino.


Para o historiador inglês filho de espanhol, Felipe Fernández-Armesto, professor da Universidade de Londres, a trajetória humana é repleta de mudanças justamente pelo fato de o homem ter a capacidade de guiar sua história no campo das ideias. Em seu novo livro, Ideias que mudaram o mundo (Editora Arx, 400 páginas, R$ 59,90), ele mostra como os conceitos criados pelo homem moldam e determinam a sociedade. “Estou convencido de que a maior parte das mudanças históricas tem origem intelectual e que as ideias são agentes transformadores poderosos”, escreve o autor na introdução do livro.


A publicação é dividida em sete capítulos. O primeiro deles começa no ano 30.000 antes de Cristo, com o conceito de canibalismo. O autor passa pelo surgimento das civilizações e das crenças, pelos preceitos trazidos pelo Iluminismo, às ilusões do progresso e à era da incerteza do século XX.


A maioria das ideias tem origem bem antiga, muitas até mesmo antes da invenção da escrita. Na opinião do autor, é, de certa forma, “humilhante” para o homem moderno admitir, que, apesar de ser capaz de promover o avanço tecnológico, uma grande parcela de seu pensamento foi antecipada há muito tempo.


Matéria publicada na Revista Época, em 9 de agosto de 2009.



Jorge Hessen* comenta


No transcurso dos milênios, o homem foi descobrindo fórmulas para lidar com a natureza, ante os impositivos da sociedade. Dominou o fogo, adaptou a roda, inventou a pólvora, conquistou a escrita, materializou a representação artística, fez a luz elétrica, criou o avião, aprimorou as comunicações, desenvolveu o supercondutor, construiu o computador e mais uma imensa lista das invenções e inovações que melhoram a qualidade de vida terrena. Nesse percurso, as ideias dos pensadores(1) foram ditando preceitos, alterando o formato de percepção do mundo, da vida após a morte e da noção de destino.


Pesquisadores atuais afirmam que a "trajetória humana é repleta de mudanças justamente pelo fato de o homem ter a capacidade de guiar sua história no campo das ideias, que são agentes transformadores poderosos."(2) Realmente, o mundo é reflexo das ideias, todavia nem sempre percebemos quais delas estão por trás de comportamentos e situações cotidianas. A rigor, o que existe são múltiplas ideias e ou "filosofias"(3), isto é, várias concepções diferentes sobre a existência. Na apoteótica e clássica Grécia, Sócrates forjou o pensamento de Platão, que influenciou a mente de Aristóteles, que foi mestre de Alexandre, o Grande macedônico. Decorrido um milênio e meio pós-Sócrates, o sacerdote Tomás de Aquino retomou o trabalho de Aristóteles, adaptando-o ao Cristianismo. Séculos depois o filósofo Descartes, arauto do Cogito ergo sum, debruçou nos escritos Tomasistas e filosofou na matemática, sendo hoje considerado um dos pensadores mais importantes e influentes da História do Pensamento Ocidental.(4) A rigor, as ideias subsistem, vivem, se alteram, se adaptam. Elas são forjadoras de incalculáveis impactos das circunstâncias sobre as utopias e os sonhos humanos.


A maioria das pessoas, em quase todos os contextos históricos, vê o estoque acumulado dos ideários de uma civilização como legados que pode torná-la melhor. Alguns homens realizaram façanhas que afetaram as vidas de milhares, ou milhões de pessoas. Em certos casos, o impacto de tais influências só tem maior importância em relação àquele momento específico; em outros casos, o impacto transcende, se faz sentir por muitas gerações, chegando a ser decisivo em tudo que ocorre daquele momento em diante. Os exemplos de Moisés, Jesus, Buda, Gutenberg, Lutero, Kardec permanecem como paradigmas para bilhões de pessoas até hoje. Influências que até mesmo Hitler, Stálin, Mao Tsé-Tung ainda são lembrados, embora sejam tais ditadores a representação do destroçamento da liberdade e da vida de milhões. Graças a Deus, os ditadores desencarnam, as armas enferrujam-se, porém os sonhos de quem ama a liberdade não se podem destruir.


Certa vez, Karl Marx afirmou que: "Os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diferentes maneiras; era preciso, porém, transformá-lo." Com a publicação de O Livro dos Espíritos, em meados de século XIX, surge a proposta de uma filosofia transformadora e, de certa forma, revolucionária, propondo nova reflexão sobre os fundamentos da existência de Deus, do Ser, do destino e da dor. O Espiritismo inaugurou uma outra etapa do pensamento humano. É, efetivamente, novo paradigma do conhecimento, possuindo sólido alicerce de ideias concretas, sem se tornar, no entanto, temporalizado, fechado, pois que acompanha o avançar das novas informações e saberes, na medida em que busca explicar a realidade através da razão e da lógica, utilizando-se de discurso científico, filosófico e religioso, que se justifica com base nos fatos.


Allan Kardec foi o maior livre-pensador do movimento de ideias progressistas e transformadoras em temas sociológicos, ontológicos, transcendentes e espirituais. O magistral lionês percebeu o projeto doutrinário como nova visão histórica do mundo, que revolucionaria os debates filosóficos, com seus princípios e suas propostas libertárias. Urge, porém, reconhecermos que a construção mental [modo de pensar] de Kardec [bom senso encarnado, segundo Flammarion] foi decisivo e determinante para contribuir com a nova ordem dos acontecimentos sociais posteriores ao século XIX. O ex-druida, das remotas Gálias, concebeu novo modelo de princípio filosófico, de profundas consequências éticas e morais, sem as amarras separatistas das religiões, o que faz atualmente da Doutrina Espírita uma das propostas de transformação social mais consistente, jamais vista na História.


O Codificador consultou os pensadores do além (Espíritos) sobre um universo de questões que sempre inquietaram o pensamento humano: Deus, a alma, a origem da vida, o homem na condição de espírito imortal e pluriexistencial, a morte, os problemas sociais e familiares, a liberdade, o sofrimento, o destino e a felicidade, entre outros. Mas convenhamos que o legado de Rivail impõe necessária renovação na mentalidade de todos os "praticantes espíritas", sobretudo os que ainda exercitam um Espiritismo apenas nos limites dos fenômenos mediúnicos nos Centros Espiritas. É necessária uma efetiva participação dos Espíritas nas questões sociais do país, ainda que sem a absoluta necessidade de militância de partidos políticos, até porque para esse escopo a nossa política é a do Evangelho e PONTO.


Allan Kardec explica que o escopo pragmático de O Livro dos Espíritos "é propor guiar os homens que desejem esclarecer-se, mostrando-lhes, nos estudos, um fim grande e sublime: o do progresso individual e social e o de lhes indicar o método que conduz a esse fim."(5)


O Codificador nos chama a atenção para um ponto importante, ou seja, não podemos supor que a natureza humana possa transformar-se de súbito, por efeito das ideias espíritas. Até porque a influência que estas exercem não é certamente idêntica, nem do mesmo grau, em todos os que a professam. Contudo, o resultado dessa influenciação, qualquer que seja, ainda que extremamente fraca, representa sempre uma melhora, principalmente no que tange dar a prova da existência de um mundo extra-corpóreo, o que implica a negação das doutrinas materialistas.


Por essas e outras, que o Espiritismo "caminhando de par com o progresso jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrarem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificará nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará."(6).


Distantes dos conflitos ideológicos, consequentes de discussões estéreis no campo intelectual, com o objetivo de entronizar o pensamento racionalista, para justificar "certezas" das nomeadas ciências exatas, que se contrapõem às conhecidas ciências humanas, os pensamentos do Cristo, resgatados pela Doutrina dos Espíritos, irão representar o asilo dos aflitos, para os que ouvirem aquela misericordiosa exortação: Vinde a mim, vós que sofreis e tendes fome de justiça e Eu vos aliviarei. Porém, para que esse alívio se efetive, urge estejamos dispostos a seguir o Mestre, tomando-Lhe a cruz e acompanhando-Lhe os passos.(7)



Referências:


(1) Subconjunto especial de homens que pensa de forma diferente;


(2) Segundo o historiador Felipe Fernández Armesto, professor da Universidade de Londres;


(3) Considerando um conjunto de saberes, uma visão de mundo ou um modelo explicativo da vida;


(4) Descartes, por vezes chamado de "o fundador da filosofia moderna" e o "pai da matemática moderna";


(5) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2001 - Introdução, item XVII;


(6) Kardec, Allan. A Gênese, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2000 - item 55, do Cap. I;


(7) Cf. Mateus 11:28.


* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal lotado no INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.