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Lições contra o preconceito

Lições contra o preconceito



Com a ajuda de escritores, ilustradores e movimentos sociais, a ONG brasiliense Indica lança uma coleção de livros de apoio à diversidade


Com reportagem de Danilo Venticinque


Luciana tem 57 pares de sapato. Mariana, apenas um. Mas nenhuma das duas dá importância para isso – elas gostam mesmo é de brincar descalças na praia, onde se encontram e constroem juntas um grande castelo de areia. A partir do dia 6 de julho, as duas estarão nas bibliotecas de 2.600 escolas públicas de todo o Brasil. A história delas faz parte de um dos livros infantis da coleção Bem-Me-Quer, criada para dar lições sobre preconceito e diversidade para crianças da pré-escola ao ensino fundamental.


Luciana e Mariana contam com a companhia de outros personagens: João é paquerado pela menina mais bonita da escola, mas gosta mesmo é de Vitinho. Gilberto e Otávio, brancos, percebem que podem ser amigos de Tobias, que é negro. Já Marina tem síndrome de Down, o que não a impede de jogar bola com o irmão. Ao todo, são nove livros ilustrados sobre temas como orientação sexual, raça, gênero e deficiência, acompanhados de um audiolivro para deficientes visuais com todas as histórias, trilha sonora e um encarte em braile.


A coleção faz parte do projeto Bem-Me-Quer, desenvolvido pela ONG brasiliense Indica, o Instituto dos Direitos da Criança e do Adolescente, com o objetivo de diminuir o preconceito entre os jovens brasileiros. O instituto foi fundado em 2002 pelo libanês Agop Kayayan, ex-representante no Brasil do Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância. Segundo Kayayan, a ideia surgiu depois que ele constatou que o preconceito pode ter maior impacto sobre crianças que sobre adultos. “A discriminação é uma das principais causas de violência entre crianças. A criança discriminada sofre mais e perde muito de sua autoestima”, afirma.


Para ajudar a melhorar o ambiente nas escolas, o Indica organiza mostras de vídeo, eventos culturais e reuniões com educadores sobre diversidade. Mas a distribuição de livros infantis é a iniciativa mais ambiciosa da ONG até agora. Para viabilizar o projeto, o coordenador editorial Alex Chacon reuniu 14 autores e ilustradores do Brasil, da Argentina e do Chile. Giovane Aguiar, atual presidente do Indica, foi o responsável por estabelecer parcerias com órgãos como a Fundação Itaú Social, que vai financiar a distribuição dos livros. Agora, ele tenta fazer um acordo com o Ministério da Educação para incluir a coleção na lista de publicações indicadas pelo órgão do governo: “Isso seria revolucionário, porque a discussão da diversidade chegaria a todas as escolas”.


Uma pesquisa realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, a pedido do Ministério da Educação, em 501 escolas públicas do país, mostra que a discriminação em sala de aula é generalizada: 99,3% das pessoas entrevistadas demonstraram ter algum tipo de atitude preconceituosa. Entre os alunos, 19% já viram algum colega negro ser vítima de perseguição pelos colegas, aquilo que os anglo-saxões chamam de bullying. Classe social e orientação sexual, nessa ordem, completam a lista dos motivos mais frequentes para práticas discriminatórias.


Ao confrontar os dados das escolas com os resultados da Prova Brasil 2007, constatou-se que o desempenho dos alunos piora de acordo com o índice de preconceito nas instituições. “Em escolas com nível mais acentuado de atitude preconceituosa e bullying, a nota média de português e matemática foi menor”, afirma o coordenador da pesquisa, José Afonso Mazzon. Para ele, iniciativas que estimulem o respeito à diversidade podem melhorar o desempenho dos alunos. “É natural, porque se cria um ambiente mais propício ao aprendizado”, diz.


Alex Chacon acredita que os livros infantis podem cumprir essa função. “A ideia é ajudar a criança a reconhecer o preconceito e levar isso em conta em suas decisões”, afirma. “Ela vai perceber que, às vezes, deixa de ser amiga de outra criança por preconceito.” Antes de serem publicados, os textos e as ilustrações da coleção foram avaliados por psicólogos e membros de ONGs de minorias, que sugeriram alterações e o uso de termos politicamente corretos. Outra preocupação foi garantir a qualidade artística do material. “São livros produzidos para crianças carentes, que também são carentes de cultura”, afirma Giovane Aguiar. A pedido de Aguiar, o Indica também elaborou um guia para orientar os educadores sobre o uso dos livros em sala de aula.


A proposta agradou a especialistas. Carlos Laudari, um dos coordenadores do projeto Escola sem Homofobia, que prepara professores para discutir a orientação sexual em sala de aula, acredita que a capacitação pode romper barreiras. “Eles querem ser preparados para lidar com a diversidade, porque sabem que alguns alunos sofrem muito”, diz. O pedagogo Luiz Ramires Neto, responsável por um grupo de discussões semelhante em São Paulo, concorda: “Os educadores costumam afirmar que desconhecem o assunto e que isso nunca foi abordado em sua graduação e licenciatura”.


Para o idealizador do projeto, Agop Kayayan, a coleção é apenas o primeiro passo para combater o preconceito no país. “Como os adultos, e aprendendo deles, as crianças discriminam outras crianças e adolescentes diferentes em religião, cor de pele, classe social e outros fatores.” Kayayan espera que, depois de aprenderem a respeitar a diversidade em sala de aula, as crianças levem a discussão para fora da escola e ajudem a mudar o comportamento de seus pais. Segundo ele, esse efeito “subversivo” ajuda ações sociais contra o preconceito a atingir um grande público, apesar do orçamento reduzido.


Matéria publicada na Revista Época, em 29 de junho de 2009.



Sonia Maria Ferreira da Rocha* comenta


O preconceito, de uma forma geral, é uma das maiores chagas da nossa humanidade, que teve origem no início da nossa civilização e nos persegue até os nossos dias. Devemos combatê-lo, dentro de cada um de nós, para que possamos seguir a nossa caminhada evolutiva e, consequentemente, a evolução do nosso planeta. É a causa de muitas violências que vemos todos os dias nos nossos meios de comunicação.


A notícia acima só vem reforçar a tese de que a educação é a base de tudo. Sem dúvida que um projeto educacional é um excelente recurso para modificar a nossa sociedade, e, por que não dizer, a humanidade. Dar o primeiro passo é tão importante quanto chegar ao último. E começar pelos pequeninos é como regar uma semente que se transformará em uma linda árvore com flores e dando bons frutos.


Qualquer tipo de preconceito fere a Lei Divina, que trata a todos como iguais. Diferenças existem porque estamos em diferentes degraus na escala evolutiva. Sempre temos o que aprender com o nosso semelhante da mesma forma que também temos o que acrescentar na nossa sociedade.


Incluir a todos num mesmo contexto, respeitando suas diferenças, que só nos faz crescer como pessoas, é uma questão humanitária que visa um futuro com mais amor e respeito. E, como consequência, teremos pessoas mais solidárias e menos violentas.


Esperamos que este projeto consiga concretizar todos os seus objetivos. E cabe a nós, como beneficiados, valorizá-lo como fonte de caridade para as nossas crianças, tão carentes de atenção por parte daqueles que deveriam fazê-lo.


Esse planejamento, também, tem como alvo, indiretamente, toda a família que muita das vezes não teve essa oportunidade, no passado.


Através dos livros, nossas crianças viajam pelas suas fantasias, desenvolvem suas criações e transformam-se em grande profissionais, no futuro. Assim, é a Lei do Progresso, a evolução intelectual agindo para o bem da coletividade. Inserir todos na mesma conjuntura é a Lei do Amor, transformando amigos em irmãos e não em desafetos.


Eis a oportunidade que muitos querem e, infelizmente, não têm. Devemos aproveitar essa ideia e lançar dentro do nosso entorno que, de pequeno mundo, passa a alcançar toda sociedade.


* Sonia Maria Ferreira da Rocha reside em Angra dos Reis, RJ, estuda o Espiritismo há mais de 30 anos e é colaboradora regular do Espiritismo.net.