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Pais não revelam sexo de sua criança de dois anos e meio

Pais não revelam sexo de sua criança de dois anos e meio



por Kátia Mello


Alguns pais decidem não querer saber o sexo da criança durante a gestação. Esperam pela hora do parto para descobrirem se é um menino ou uma menina. Um casal de 24 anos na Suécia levou esta prática além dessa realidade. Eles se recusam a dizer o sexo de sua criança, que já tem dois anos e meio de idade. “Queremos que Pop cresça com maior liberdade e que não seja forçado a um gênero que o/a moldará”, disse a mãe. Pop (um nome fictício para proteção da criança) usa vestidos e também calças masculinas e seu cabelo muda do estilo feminino para o masculino a cada manhã. Apesar de Pop saber as diferenças entre um menino e uma menina, os pais se recusam a adotar pronomes para chamar a criança. A controversa atitude do casal gerou um intenso debate no país.


O jornal sueco que entrevistou os pais, The Local, conversou com a pediatra sueca Anna Nodenström do Instituto Karolinska sobre os efeitos a longo prazo no comportamento da criança. “Afetará a criança, mas é difícil de dizer se fará mal a ela”, diz a pediatra. “Não sei o que os pais querem com isso, mas certamente ela será diferente”, completou. Anna ainda afirmou que quando Pop entrar na escola, se seu gênero ainda for desconhecido, ela chamará muito a atenção dos coleguinhas.


A psicóloga canadense Susan Pinker autora do livro The Sexual Paradox, também entrevistada pelo jornal sueco, disse que será difícil manter incógnito o sexo da criança por muito mais tempo. “As crianças são curiosas sobre suas identidades e tendem a gravitar em torno das de mesmo sexo no começo da infância”.


Pop logo ganhará um irmãozinho ou irmãzinha, porque a mãe está grávida. Ela afirmou que irão revelar o gênero ”quando Pop quiser”.


http://www.svd.se/nyheter/idagsidan/barnunga/artikel_2559041.svd
Quem lê em sueco pode ver a entrevista com a mãe de Pop.


E vocês, acreditam que esconder o gênero de uma criança é saudável?


Matéria publicada na Revista Época, em 2 de julho de 2009.



Carlos Miguel Pereira* comenta


A Doutrina Espírita defende que as crianças, naqueles seus aspectos inocentes e frágeis, são espíritos imortais, com uma bagagem de experiências enorme, fruto das inúmeras encarnações por que já passaram. Cada criança é uma alma com as suas particularidades, dívidas e conquistas próprias, que por afinidade ou necessidades de reajuste, foi para os braços dos pais, para que estes a possam auxiliar na tarefa de preparação da vida adulta, onde o Espírito terá que enfrentar as suas grandes provas. A reencarnação é uma nova oportunidade para o Espírito prosseguir a sua evolução e crescimento, é a continuação da sua busca por novos comportamentos que permitam a sua contínua sublimação, fornecendo-lhe novas condições para reeducar suas estruturas mentais. Na reencarnação, ele se beneficia da dádiva de um recomeço, a possibilidade de começar de novo, ignorando conscientemente um passado com os erros normais da sua imperfeição e que poderiam ser um obstáculo ao seu progresso. Ou seja, a criança encarna com todas as suas potencialidades morais e espirituais conquistadas, mas num novo corpo físico, em condições sociais, culturais e familiares também com especificidades próprias e que influenciarão o espírito na manifestação das suas potencialidades.


Segundo a notícia, a preocupação destes pais seria não restringir a liberdade da criança, procurando que ela crescesse desembaraçada dos preceitos sociais e condicionalismos sexuais, podendo assim criar a sua identidade de uma forma autônoma e livre. Algumas questões merecem a nossa reflexão:


Os pais têm uma importante missão: Educar os seus filhos. O que é a educação? A educação é o processo de socialização responsável pela transmissão de modos culturais e morais de ser, estar e agir, ajudando a criança a se integrar no seu grupo, quer este seja a família ou a sociedade. É importante que haja esta integração, mas também que seja estimulada uma autonomia e liberdade que permita à criança dispor de condições para ser crítica, experimentar por si mesmo os desafios que a aguarda, os valores estabelecidos, para que ela os possa aceitar, rejeitar ou até criar novos valores quando tiver capacidade para tal. Não cabe aos pais impor soluções e caminhos, mas é preciso que eles não se demitam da sua responsabilidade de orientação e auxílio, respeitando a personalidade, opiniões e opções de vida dos seus filhos.


O Espírito não tem sexo. Ao longo do seu caminho evolutivo, através das múltiplas existências que vai colecionando e das experiências que vai tendo, o Espírito ocupa posições ora femininas ou masculinas, e devido às diferenças biológicas, psicológicas e sociais que existem entre os dois, irão ser gravados no seu psiquismo os traços mais marcantes das suas vivências como homem e como mulher.


Qualquer criança ao chegar ao mundo físico é brindada com um conjunto de condicionantes que influenciarão certamente o seu modo de vida e a forma como irão escolher o seu caminho: O corpo físico, o contexto financeiro, social e cultural em que viverão, as influências, estímulos e experiências adquiridas ao longo da sua vida, tudo isso são fatores que, com maior ou menor preponderância, dependendo do nível evolutivo do Espírito, condicionarão a sua personalidade e existência. Os pais que a notícia faz referência definiram a condição sexual como a mais relevante limitação a que o seu filho estaria sujeito, optando por ocultar essa característica, não restringindo a sua ação educativa a um dos sexos. As consequências da aplicação destas ideias são imprevisíveis. Será que ao procurarem não interferir com a sua liberdade, não obterão como resultado exatamente o oposto daquilo que pretenderiam?


A preocupação pela liberdade dos filhos é legítima e saudável. Mas não podemos confundir liberdade com anarquia. Uma educação responsável realizada com respeito pela liberdade dos filhos é uma educação onde pais procuram, cientes do seu papel de tutores, incutir nos seus filhos um conjunto de valores que julgam importantes para o seu crescimento e desenvolvimento, orientando e motivando, mas também exigindo, contestando e proibindo quando se torna necessário. Onde está a liberdade, poderão perguntar? Está no respeito pela singularidade da criança que, mesmo tendo surgido através dos pais, não lhes pertence. Está na confiança que lhe é transmitida, para que ela tenha segurança e acredite nas suas capacidades para concretizar os seus desejos, esclarecendo-a, estimulando-a, para que se torne um ser que pensa, sente e age por si mesmo, através da razão e do bom senso, favorecendo a sua autonomia intelectual e moral. A liberdade está na compreensão que a criança é um ser livre e único que tem que ser respeitado pela sua individualidade mas ao qual também são exigidas responsabilidades. Pelo contrário, uma educação anárquica é aquela onde não existem regras e onde tudo é deixado ao critério da criança, por comodismo dos pais ou por receio de estar a haver uma interferência na sua liberdade. Isto pode ser bastante perigoso para o seu equilíbrio emocional. Ao não confrontar a criança com os seus deveres e não impondo frustrações, permitindo que elas cresçam sem referências morais e culturais, os pais estarão a potenciar a germinação de um pequeno tirano absolutista que pensa que o mundo gira à sua volta, revelando uma incapacidade enorme de se integrar na sociedade e de contribuir para o seu crescimento e desenvolvimento.


Educar uma criança é amá-la verdadeiramente, mostrando como ela é única e extraordinária. O amor é fundamental numa educação equilibrada. Não falamos de um amor idealista e estereotipado que anda na boca de todo o mundo. É o tempo que investimos nas nossas crianças que mostra como elas são tão importantes para nós. É fundamental haver tempo para estar com elas, para conversar, ouvir, entender, brincar, rir, contar histórias, trocar experiências… para podermos desfrutar da companhia desses meninos extraordinários que Deus nos confiou e que crescem tão rápido. Mas também, para que dessa forma possamos dispor de melhores condições de analisar e compreender quais são as suas características específicas, como estudam, em que situações dizem pequenas mentiras, quando fogem dos problemas em vez de os enfrentarem. Assim, possuímos melhores ferramentas para, com amor, mas também de forma metódica, racional e personalizada, examinar e auxiliar na medida do possível a sua evolução intrínseca, não só a nível intelectual mas também nos níveis físicos, verbais, emocionais e sociais, tendo-os como referências de si próprios e não de modelos forjados em ideias deturpadas que outros lhes possam incutir.


* Carlos Miguel Pereira trabalha na área de informática e é morador da cidade do Porto, em Portugal. Na área espírita, é trabalhador do Centro Espírita Caridade por Amor (CECA), na cidade do Porto, e colaborador regular do Espiritismo.net.