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"Não importa qual a religião, o importante é praticá-la"

"Não importa qual a religião, o importante é praticá-la"



O neurocientista americano Andrew Newberg defende que orar e meditar podem trazer benefícios à saúde


LETÍCIA SORG


Em seu novo livro How God changes the brain (Como Deus muda o cérebro), que será lançado no dia 24 nos Estados Unidos, o neurocientista Andrew Newberg, professor da Universidade de Pensilvânia, fala sobre o aspecto positivo da oração e da meditação na melhoria da memória, na diminuição da ansiedade e da depressão. Nesta entrevista a ÉPOCA, ele explica a base científica para as suas afirmações e diz que nenhuma religião é melhor do que outra: o importante é praticar a fé sem intolerância ou radicalismos.


ÉPOCA - Em que o seu livro, Como Deus muda o seu cérebro, avançou em relação ao conhecimento neurológico que temos sobre a religião?


Andrew Newberg - Em estudos anteriores, tínhamos ideia de como a religião mexia com o cérebro em curto prazo. Neste novo livro, tentamos entender os efeitos de longo prazo da fé. O que acontecerá com você, por exemplo, se começar a meditar e adotar a prática por meses ou mesmo anos? Um dos estudos que fizemos, por exemplo, fala sobre como a meditação ajuda a melhorar a memória e, ao que parece, consegue esse efeito alterando a estrutura cerebral relacionada à memória. Uma de nossas pesquisas mostrou até que a área do cérebro ficou mais espessa e maior com a prática da meditação ao longo de um período. Uma parte muito significativa do livro é sobre como podemos usar essas experiências para tirar um proveito, a longo prazo, para o cérebro. Falamos sobre investir tempo em algumas práticas, seja de maneira religiosa ou não, em algumas formas de meditação para melhorar a memória, a aprendizagem, a ansiedade, a depressão. Também desenvolvemos um tipo novo de meditação em que você se concentra em um tipo de diálogo. Você, de certa forma, fala com alguém em um estado de meditação, e descobrimos que isso ajuda as pessoas a criar intimidade, a interagir com as outras e a se comunicar com quem ela conhece ou não.


ÉPOCA - De que maneira a meditação e a oração podem ajudar a melhorar a memória e os níveis de estresse e ansiedade?


Newberg - Os nossos estudos usando imagens do cérebro mostram que, no longo prazo, há alterações no lobo frontal (relacionado à memória e à regulação das emoções) e no sistema límbico (ligado às emoções). As pessoas tendem a conseguir controlar mais suas emoções, expressá-las, senti-las. A meditação e a oração ajuda a melhorar a sua relação consigo mesmo e com os outros. Também especulamos que essas práticas alteram, inclusive, a química cerebral, como os níveis de serotonina e dopamina, que regulam o nosso humor, a nossa memória e o funcionamento geral de nosso corpo, mas ainda não temos provas disso.


ÉPOCA - Um estudo recente feito no Canadá mostra que as pessoas que tinham uma fé sentiam menos ansiedade depois de cometer um erro do que aquelas que não acreditavam em Deus. Isso quer dizer que a religião pode ser boa para a vida das pessoas?


Newberg - Há vários estudos que mostram como a religião pode ajudar a melhorar a saúde mental e até mesmo física. Mas, como dizemos no livro, é preciso prestar atenção para não pegar o lado negativo da religião. Em alguns casos, a religião pode ser ruim. Ela pode deixar as pessoas muito nervosas, bravas, até mais ansiosas – se elas sentirem que estão lutando para entender Deus e pensarem que Ele as está punindo. Queremos que o nosso livro, com suas práticas, ajude a fomentar o lado positivo da religião.


ÉPOCA - É por isso que o senhor diz que o fundamentalismo religioso pode causar danos ao cérebro?


Newberg - Não se trata da religião em si, mas da postura com relação à religião. Ficar com raiva, não tolerar a crença de outras pessoas, excluí-las, querer machucá-las por causa de uma outra religião, pode ser negativo e trazer problemas. Mas, na maioria dos casos, a religião pode ser muito benéfica e ajudar as pessoas a viverem suas vidas.


ÉPOCA - Há um estudo em andamento na Universidade do Texas sobre a possibilidade de a religião ajudar na cura de viciados em drogas. O senhor acha que isso é possível?


Newberg - Certamente há evidências que comprovam isso. A questão é: como isso acontece? A religião substitui o vício ou o suprime para que a pessoa possa ir atrás de objetivos que não sejam as drogas?


ÉPOCA - Há um consenso entre os cientistas sobre como a crença religiosa pode ajudá-los a ser saudável?


Newberg - Muitos cientistas acreditam que a espiritualidade tem um papel na saúde. A pergunta é quem vai administrar isso e como os profissionais de saúde vão lidar com a espiritualidade de uma maneira apropriada e benéfica. Essas são as questões que ainda não foram respondidas.


ÉPOCA - O senhor compararia o efeito da religião ao efeito placebo, que pode ter um papel importante no processo de cura de uma doença, por exemplo?


Newberg - Acho que é, sim, comparável, à medida que consideramos o efeito placebo um produto do pensamento positivo. A noção de que somos bem-sucedidos na vida, seja financeiramente, espiritualmente, ajuda. Uma das melhores coisas que as pessoas podem fazer para melhorar o funcionamento de seu cérebro é ter fé. Pode ser fé em Deus, em que este mundo é um bom lugar, em que se é uma boa pessoa. Todos os pensamentos positivos são benéficos. Então, de certa forma, a fé está relacionada ao efeito placebo, mas não é exatamente a mesma coisa. Não há dúvida de que podemos melhorar as nossas chances de ser saudável e lidar com as doenças tendo um pensamento positivo, uma boa alimentação, dormindo bem e seguindo os conselhos médicos. A meditação e a reza que melhoram nosso lado espiritual também podem ser benéficas nas circunstâncias corretas.


ÉPOCA - O senhor diz que seu livro também responde a uma questão muito intrigante: como é sentir Deus?


Newberg - Fizemos a pesquisa perguntando sobre a experiência religiosa das pessoas e chegamos a algumas sensações ligadas a Deus. Algumas pessoas dizem que O sentem como uma energia, um poder, uma força, uma emoção e até mesmo algo aterrorizante. Nós experimentamos Deus de maneiras muito diferentes e, claro que, se vivenciarmos um Deus amoroso, vamos ativar as partes do nosso cérebro relacionadas à compaixão e ao amor. Se você vivenciar um Deus punitivo e bravo, vai ativar as áreas que causam estresse. O que estamos tentando encontrar é como o nosso cérebro registra a experiência de Deus. A coisa se dá em mão dupla: a experiência de Deus afeta nosso cérebro e nosso cérebro também afeta o que pensamos e como sentimos sobre Deus.


ÉPOCA - Segundo seus estudos, Deus existe?


Newberg - Quero deixar claro que nosso estudo não fala nada sobre a existência ou não de Deus, mas dá mostra de que a religião pode ser muito benéfica para as pessoas.


ÉPOCA - Há alguma diferença neurológica entre aqueles que creem e os que não creem em Deus?


Newberg - Encontramos algumas diferenças, sim, e também notamos diferenças dependendo do tipo de prática religiosa. O problema é que nunca sabemos se aquelas mudanças estão lá porque a pessoa é religiosa há muito tempo ou se nasceram daquela maneira e, por causa disso, procuraram um tipo de religião ou meditação. No livro, tentamos responder a uma pequena parte desta questão ao analisar os efeitos a longo prazo da meditação. O que notamos é que a prática altera, de fato, o cérebro. Sobre a comparação entre aqueles que têm uma prática religiosa e aqueles que não têm – mas que eventualmente podem acreditar em Deus – é que o lóbulo fontral do cérebro tende a ser mais ativo naquelas pessoas que têm nenhuma prática religiosa. Isso pode ser interpretado da seguinte forma: essas pessoas tendem a olhar o mundo de uma maneira mais negativa e crítica.


ÉPOCA - Em seu livro, o senhor fala bastante sobre meditação, uma prática tradicionalmente ligada às religiões orientais. Existe alguma diferença entre, por exemplo, o catolicismo e o budismo?


Newberg - Não olhamos exatamente para as diferenças entre as religiões, mas para as diferentes práticas que elas propõem. Então, a forma como você pratica a religião é mais importante do que as ideias religiosas em si.


ÉPOCA - O que o senhor acha da experiência de Michael Persinger, que criou um capacete eletromagnético para estimular o lóbulo temporal e a experiência religiosa?


Newberg - Embora seja concebível que experiências similares às espirituais possam ser estimuladas por mudanças eletromagnéticas nos lóbulos temporais, é pouco provável que esse tipo de capacete explique a vasta gama de experiências religiosas e espirituais.


ÉPOCA - Somos biologicamente predispostos à religião?


Newberg - Nosso cérebro definitivamente funciona de uma maneira que faz a espiritualidade muito fácil para nós. Então acho que é razoável dizer que somos predispostos a ser religiosos. Mas não temos certeza por que temos essa propensão.


ÉPOCA - O senhor é uma pessoa religiosa?


Newberg - Para mim, toda a minha pesquisa e a minha busca são parte da minha jornada para entender a mim mesmo e o mundo à minha volta. Não tenho respostas definitivas ainda, mas realmente acredito que há algo que podemos entender se formos persistentes.



A fé que faz bem à saúde


Novos estudos mostram que o cérebro é “programado” para acreditar em Deus – e que isso nos ajuda a viver mais e melhor


Letícia Sorg. Colaborou Marcela Buscato


A capacidade inata de procurar a explicação de um fenômeno é uma das diferenças entre o ser humano e outros animais. O homem primitivo não tinha como entender eventos mais complexos, como a erupção de um vulcão, um eclipse ou um raio. A busca de explicações sobrenaturais pode ser considerada natural. Mas por que ela desembocou na fé e no surgimento das religiões? Cientistas de diferentes áreas se debruçaram sobre a questão nos últimos anos e chegaram a conclusões surpreendentes. Não só a fé parece estar programada em nosso cérebro, como teria benefícios para a saúde.


Com sua intuição genial, Charles Darwin, criador da teoria da evolução há 150 anos, já havia registrado ideia semelhante no livro A descendência do homem, em 1871: “Uma crença em agentes espirituais onipresentes parece ser universal”. “Somos predispostos biologicamente a ter crenças, entre elas a religiosa”, diz Jordan Grafman, chefe do departamento de neurociência cognitiva do Instituto Nacional de Distúrbios Neurológicos e Derrame. Grafman é o autor de uma das pesquisas mais recentes sobre o tema, publicada neste mês na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences.


Em seu estudo, Grafman analisou o cérebro de 40 pessoas – religiosas e não religiosas – enquanto liam frases que confirmavam ou confrontavam a crença em Deus. Usando imagens de ressonância magnética funcional – que mede a oxigenação do cérebro –, o neurocientista descobriu que as partes ativadas durante a leitura de frases relacionadas à fé eram quase as mesmas usadas para entender as emoções e as intenções de outras pessoas. Isso quer dizer, segundo Grafman, que a capacidade de crer em um ser ou ordem superior possivelmente surgiu ao mesmo tempo que a habilidade de prever o comportamento de outra pessoa – fundamental para a sobrevivência da espécie e a formação da sociedade. E para estabelecer relações de causa e efeito. A interferência de um ser muito poderoso seria uma explicação eficiente para aplacar a necessidade de entender o que não se consegue explicar com o conhecimento comum.


Mas o que levaria o ser humano, dotado de razão, a acreditar que um velhinho de barba branca, em cima de uma nuvem, atira raios sobre a Terra? Ou que 72 virgens aguardam os fiéis no Paraíso? “Tendemos a atribuir características humanas às coisas, inclusive ao ser divino”, diz Andrew Newberg, neurocientista da Universidade da Pensilvânia, autor de outro importante estudo sobre o poder da meditação e da oração. “A crença religiosa surgiu como um efeito colateral da maneira como nossa mente é organizada, da maneira como ela funciona naturalmente”, diz Justin Barrett, antropólogo e professor da Universidade de Oxford.



Andrew Newberg - “O cérebro dos ateus é diferente”


O neurocientista fala sobre seu livro Como Deus muda seu cérebro


ÉPOCA – Como Deus pode mudar a estrutura cerebral das pessoas?


Andrew Newberg – Os nossos estudos usando imagens do cérebro mostram que, no longo prazo, há alterações no lobo frontal (relacionado à memória e à regulação das emoções) e no sistema límbico (ligado às emoções). As pessoas tendem a conseguir controlar mais suas emoções e expressá-las. A meditação e a oração ajudam a melhorar a relação consigo mesmo e com os outros. Também especulamos que essas práticas alteram, inclusive, a química cerebral, como os níveis de serotonina e dopamina, que regulam nosso humor, nossa memória e o funcionamento geral de nosso corpo, mas ainda não temos provas disso.



Jordan Grafman - “A crença é necessária”


O neurocientista diz que o pensamento religioso nasceu junto com o cérebro humano


ÉPOCA – O senhor diria que a religião é um produto acidental de nosso processo evolutivo?


Jordan Grafman – Eu não diria acidental. Existe uma tendência para nós pensarmos de certa maneira, e essa maneira, de alguma forma, envolve a necessidade de ter um sistema de crenças. E esse sistema guia nosso comportamento social. Acredito que estamos constantemente criando novos tipos de sistema de crença e é muito provável que os primeiros tenham sido baseados em autoridades religiosas.


ÉPOCA – Somos biologicamente predispostos à religião?


Grafman – Eu diria que somos predispostos biologicamente a ter crenças, e a religiosa é uma delas, mas não a única. Classificaria a religião como uma forma primitiva de crença porque se baseia muito no que é desconhecido. Algumas das regras éticas vieram por meio da religião, mas só se estabeleceram porque ajudaram a ordenar a sociedade. Então, muitas regras tiveram sentido. A religião nasceu claramente de nossa necessidade de entender o que estávamos vendo.


ÉPOCA – Seu estudo comparou as áreas do cérebro envolvidas nas crenças religiosas e nas crenças políticas. Do ponto de vista neurológico, quais as diferenças entre o pensamento religioso e o político?


Grafman – Ainda não temos uma resposta definitiva a essa pergunta, mas há fortes indicações de que as crenças políticas estão sempre ligadas ao “aqui e agora”, a nossa vida, enquanto as crenças religiosas não necessariamente. Há diferenças em comportamento e também nas áreas do cérebro ativadas. No caso das crenças políticas, usamos as estruturas do cérebro que surgiram por último na evolução humana, enquanto no caso das crenças religiosas usamos áreas anteriores no desenvolvimento da espécie. Nossa hipótese é que a crença religiosa seja a primeira forma de sistema de crenças, que surgiu antes das outras. Nossos estudos mostram que as duas usam partes parecidas do cérebro, mas também que a religião veio antes da política.


Matéria publicada na Revista Época, em 23 de março de 2009.



José Antonio M. Pereira* comenta


Além dos vários pesquisadores citados na matéria, o Espiritismo.Net tem divulgado outros trabalhos que demonstram que a Ciência atual trilha caminhos muito diferentes da época pós revolução científica. A cultura então, por necessidade de opor-se radicalmente ao pensamento da era anterior, negava a existência de Deus e de qualquer coisa fora da matéria. Estudar o assunto seria considerado ridículo. Agora diversas pesquisas encaram o assunto de frente, livre de ideias pré-concebidas ou tendenciosas, seja para o lado da fé ou do materialismo.


Como resultado, temos conclusões interessantes que confirmam ou se aproximam do pensamento de Kardec e da Doutrina Espírita. Por exemplo, os indícios de que somos biologicamente predispostos a termos crenças e que crença religiosa surgiu antes das outras, vai de encontro a um dos postulados espíritas, que diz que a crença em Deus é inata. Vejamos as perguntas 5 e 6, de O Livro dos Espíritos(1):


“5. Que dedução se pode tirar do sentimento instintivo, que todos os homens trazem em si, da existência de Deus?


“A de que Deus existe; pois, donde lhes viria esse sentimento, se não tivesse uma base? É ainda uma consequência do princípio - não há efeito sem causa.”


6. O sentimento íntimo que temos da existência de Deus não poderia ser fruto da educação, resultado de ideias adquiridas?


“Se assim fosse, por que existiria nos vossos selvagens esse sentimento?””


No entanto, muitos desses estudos são norteados pelo pensamento de que tudo que existe é matéria. Os resultados são evidências que não se podem negar, porém muitas vezes falta algo que explique satisfatoriamente os fatos analisados. Isto ocorre porque não há uma ligação entre a fé e a Ciência. E esta é uma das bases do Espiritismo, que propõe o estudo das Leis que regem o mundo espiritual e suas consequências, da mesma forma como a ciência faz em relação ao mundo tangível. Veja-se este trecho de O Evangelho Segundo o Espiritismo(2):


“(...) A Ciência e a Religião não puderam, até hoje, entender-se, porque, encarando cada uma as coisas do seu ponto de vista exclusivo, reciprocamente se repeliam. Faltava com que encher o vazio que as separava, um traço de união que as aproximasse. Esse traço de união está no conhecimento das leis que regem o Universo espiritual e suas relações com o mundo corpóreo, leis tão imutáveis quanto as que regem o movimento dos astros e a existência dos seres. (...)”


Quando a humanidade unir de fato estes dois ramos do conhecimento, uma série de fenômenos serão explicados, teremos mais instrumentos para nortear nossas vidas, e seremos mais felizes. A Ciência será mais próxima dos corações, a Filosofia não parecerá tão distante, e a Religião não será apenas uma questão de fé.



Referências:


(1) O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, Ed Feb, 76a. edição. Parte Primeira, Cap. I, perg. 5 e 6, p. 52;


(2) O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, Ed Feb, 112ª edição. Cap. I, item 8, p. 58.


* José Antonio M. Pereira coordena o ESDE e é médium da Casa de Emmanuel, além de integrante da Caravana Fraterna Irmã Scheilla, no Rio de Janeiro. Também é colaborador da equipe do Serviço de Perguntas e Respostas do Espiritismo.net.