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Mãe é condenada por rezar em vez de levar a filha ao médico

Mãe é condenada por rezar em vez de levar a filha ao médico



O júri deliberou por três horas e meia antes de condenar Leilani Neumann pela morte de Madeline, 11 anos


Associated Press


WAUSAU, EUA - Uma mulher acusada de rezar em vez de procurar ajuda médica para sua filha agonizante de 11 anos foi declarada culpada de homicídio por negligência, nos Estados Unidos.


O júri deliberou por três horas e meia antes de condenar Leilani Neumann, de 41 anos. Ela poderá ser sentenciada a até 25 anos de cadeia.


A filha, Madeline, morreu de diabete em março de 2008, cercada de pessoas que oravam por ela. Quando ela parou de respirar, seus pais e colegas do grupo de estudos bíblicos chamaram o resgate.


Promotores argumentaram que um pai racional teria reconhecido que algo estava seriamente errado com a menina, e que a negligência da mãe a matou.


O advogado de defesa disse que a mãe não reconheceu a gravidade da situação da menina e que fez tudo o que podia, de acordo com suas crenças na cura pela fé.


Notícia publicada no estadao.com.br, em 22 de maio de 2009.



Carlos Miguel Pereira* comenta


Foi através do esforço inolvidável de incontáveis homens e mulheres dedicados que, ao longo da história da Humanidade, a ciência médica foi conquistando o progresso assinalável que evidencia nos dias de hoje. A medicina moderna é uma bênção ao serviço do Homem e do seu desenvolvimento físico, moral e espiritual, oferecendo novas oportunidades, maiores horizontes e melhores alternativas para uma vivência saudável e completa. Todos aqueles que contribuíram para este aperfeiçoamento e evolução são verdadeiros artífices da Criação, colaborando intimamente com a sublime obra de Deus através do seu esforço e inteligência.


O conhecimento e a tecnologia ampliam as nossas possibilidades, escolhas e potencialidades como seres humanos. Cada inovação, invenção ou descoberta oferece ao Homem uma nova forma de se expressar, de obter a excelência, de colocar em ação os talentos que lhe são inerentes e uma nova oportunidade de crescimento e transcendência.


É por isso, com alguma preocupação, que sabemos da existência de muitos homens e mulheres que, guiados por crenças mais ortodoxas, renegam o fantástico instrumento que Deus e os Homens colocaram ao serviço da Humanidade, que é a medicina, encarando os seus problemas de saúde e dos seus filhos unicamente como provas de fé, que apenas pela fé podem ser ultrapassados. A situação narrada na notícia é perturbadora e leva-nos a uma reflexão profunda sobre os limites que a fé cega pode alcançar, colocando em perigo aqueles que temos a responsabilidade de acarinhar e proteger. A condenação dessa atitude pela justiça americana não nos merece qualquer comentário, nem estamos a escrever estas linhas como uma provocativa acusação pessoal. Procuramos seguir as sábias palavras do querido Chico Xavier: “Uma das mais belas lições que tenho aprendido com o sofrimento: Não julgar, definitivamente não julgar a quem quer que seja.” O objetivo que nos move é o esclarecimento do erro e das abusivas interpretações bíblicas que são feitas, procurando que estas situações desapareçam da nossa sociedade.


Jesus disse aos seus discípulos: “Na verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele há-de passar, e nada vos será impossível.” Jesus falava do monte em sentido figurado. Por monte pretendia representar os problemas, contrariedades e dificuldades que nos batem à porta diariamente. A fé que o sábio carpinteiro falava é a confiança robusta e serena que nos instiga à perseverança, e nos oferece a energia e os recursos necessários para ultrapassarmos as mais intensas dificuldades da vida. Ter fé não é colocar a responsabilidade da resolução dos nossos problemas nos ombros de Deus. Ter fé é confiar em Deus, aceitar as contrariedades da vida como naturais e necessárias, mas assumindo a responsabilidade por elas, tudo fazendo para as ultrapassar, usando todos os recursos à nossa disposição para tal. “Ajuda-te e o céu te ajudará!” é uma máxima que deveremos ter sempre presente. Esta fé que a Doutrina Espírita exalta difere em muito da fé cega e irracional que se baseia em dogmas e nas palavras textuais retiradas dos livros sagrados. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, capítulo XIX, é referido: “No seu aspecto religioso, a fé é a crença nos dogmas particulares que constituem as diferentes religiões, e todas elas têm os seus artigos de fé. Nesse sentido, a fé pode ser raciocinada ou cega. A fé cega nada examina, aceitando sem controle o falso e o verdadeiro, e a cada passo se choca com a evidência da razão. Levada ao excesso, produz o fanatismo. Quando a fé se firma no erro, cedo ou tarde desmorona.”


A Bíblia é um livro de histórias, alegorias e mitos. Uma parte foi construída através dos relatos que alguns dos discípulos fizeram da vida de Jesus (Novo Testamento), outra é a antiga história do povo judeu, que precisamos enquadrar no contexto histórico e cultural da época em que foram escritos (Antigo Testamento). Em várias partes do Antigo Testamento, foram criadas histórias e mitos que pudessem representar uma realidade que transcendia o senso comum da época. Para isso foi usada a linguagem figurada, alegórica e muitas vezes poética para explicar os mais profundos mistérios da existência humana. Da mesma forma, Jesus falou aos Homens da sua época de acordo com o entendimento que eles evidenciavam, usando parábolas e comparações que tinham como finalidade a sua compreensão do real significado da vida e da sua relação com Deus. Paulo de Tarso afirmou no Livro dos Atos dos Apóstolos: “A letra mata e o Espírito vivifica". A letra mata quando pretendemos encontrar nos livros sagrados as respostas textuais para todas as nossas dúvidas e incertezas. Alguns argumentam que “não importa se não é lógico nem faz qualquer sentido, se está na Bíblia é verdade”. Não é possível aprender ciência e história com a Bíblia. Não foi para isso que ela foi escrita. A Bíblia foi escrita para ajudar a elevar moralmente a Humanidade, para servir como um guia espiritual e campo de meditação sobre as contingências humanas durante o processo de aperfeiçoamento e evolução do seu Espírito. Precisamos deixar de ser escravos de interpretações equivocadas e começar a pensar pela nossa cabeça. Foi Deus que nos proporcionou a inteligência, a capacidade que temos para pensar. Façamos um bom uso desse enorme talento.


Mas será que a fé cura? A fé tem poderes curativos e existem inúmeros estudos científicos que fornecem evidências desse fato, comprovando que a confiança, o pensamento positivo, a ideia de espiritualidade, independente do credo que seja, influenciam positivamente a cura das doenças do corpo. Dizer que a fé influencia a cura orgânica não é o mesmo que dizer que a fé por si só chega para curar uma determinada doença. Os diferentes problemas deverão ser tratados pelos diferentes especialistas. Se temos um problema na televisão não vamos entregá-la nas mãos de um arquiteto, por mais confiança e segurança que tenhamos nesse profissional. Da mesma forma, se Deus colocou a medicina à nossa disposição para tratar as doenças físicas, por que recusar esta sublime dádiva? A medicina e a fé serão incompatíveis? Pelo contrário, a união da medicina com a fé é o portão de embarque para uma vivência mais saudável, elevada e completa, aprendendo a cuidar de forma eficaz tanto o corpo como o espírito.


* Carlos Miguel Pereira trabalha na área de informática e é morador da cidade do Porto, em Portugal. Na área espírita, é trabalhador do Centro Espírita Caridade por Amor (CECA), na cidade do Porto, e colaborador regular do Espiritismo.net.