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Paul Roberts - "Em 2050, seremos todos vegetarianos"

Paul Roberts - "Em 2050, seremos todos vegetarianos"



Comer menos carne é o único meio de alimentar 10 bilhões de humanos, diz o autor de "O Fim da Comida"


Peter Moon


No Ensaio Sobre O Princípio Da População, publicado em 1798, o inglês Thomas Malthus fez uma afirmação alarmante. Como a população humana crescia em progressão geométrica e a produção de alimentos em progressão aritmética, no longo prazo o saldo desse descompasso seriam a fome e o aumento da mortalidade, ajustando o tamanho da população à oferta de alimento. Em 1800, havia 1 bilhão de humanos. Hoje, somos 6,6 bilhões. A produção agrícola superou a explosão populacional. Malthus estava errado? Para o jornalista americano Paul Roberts, de 54 anos, talvez não. A hora de Malthus pode ter chegado. Em The End of Food (O Fim da Comida, editora Houghton Mifflin), Roberts prevê que, até 2050, a demanda por comida ultrapassará a oferta. Um primeiro alerta seria a atual explosão do preço dos alimentos.



ENTREVISTA - PAUL ROBERTS


QUEM É
Jornalista especializado em economia, tecnologia e meio ambiente. Tem 54 anos


O QUE FEZ
Colaborou com a revista Harper’s Magazine e com os jornais Los Angeles Times, The Washington Post e The Guardian (de Londres), entre outros


O QUE PUBLICOU
The End of Oil (O Fim do Petróleo, 2004);
The End of Food (O Fim da Comida, 2008)


A tonelada de arroz passou de US$ 400 para US$ 1.000 em cinco meses. No Brasil, o feijão subiu 168,44% em 12 meses. A culpa, para os analistas, é de chineses e indianos, que estão ganhando mais e comendo mais. Em 2030, a China importará 200 milhões de toneladas de grãos, ou seja, todo o excedente exportável mundial. O que sobrará para os países pobres? Se nada for feito, a fome.


ÉPOCA Malthus estava certo?
Paul Roberts – Após 200 anos, é cada vez mais difícil dizer “não” a essa pergunta. Continuamos desenvolvendo novas tecnologias para produzir mais comida, mas enfrentamos novas restrições que os fazendeiros do passado não tinham. Historicamente, a forma de aumentar a produção era expandir a área plantada. Isso é cada vez mais difícil. A maioria das terras aráveis do planeta já é usada e a maior parte do que resta são as últimas florestas. É o caso do Brasil, onde as novas áreas de plantio são obtidas à custa da derrubada de florestas.


ÉPOCA É hora de outra Revolução Verde?
Roberts – A Primeira Revolução Verde, que transformou a agricultura entre os anos 40 e 60, multiplicou a produção de alimentos graças ao uso de fertilizantes e ao desenvolvimento de novas sementes. Ainda é possível aumentar a produtividade usando os transgênicos. Mas essa tecnologia tem seus limites. Não podemos também esquecer que o preço da energia está subindo e que a agricultura moderna foi pensada no tempo em que o barril de petróleo custava US$ 20. Caso o preço se estabilize entre US$ 125 e US$ 200, o sistema atual não se sustenta.


ÉPOCA O que fazer?
Roberts – Há três grandes desafios para criar uma Segunda Revolução Verde. O primeiro é o aumento do preço do gás natural, o principal insumo na produção de nitrogênio sintético, que por sua vez é o maior insumo dos fertilizantes. A maior parte do excedente agrícola atual se deve à disponibilidade de nitrogênio barato. Se o preço dos fertilizantes se mantiver elevado, alimentar daqui a 50 anos outros 4 bilhões de pessoas, além dos 6,6 bilhões atuais, será um tremendo desafio. É preciso alternativas para produzir novos fertilizantes.


ÉPOCA O segundo desafio é...
Roberts
– A falta d’água. Para isso não existe alternativa. Não há continente onde não falte água. Cada país responde ao desafio de forma diferente. A China está substituindo a produção de grãos, que usa irrigação maciça, pela de frutas e verduras, que consome menos água. Em 2007, importou 30 milhões de toneladas de soja, boa parte oriunda do Brasil. Isso significa que a China está importando de vocês sua água. Está ocorrendo uma mudança no “mercado virtual” de água. Por algum tempo, isso deve contrabalançar a escassez. Mas, no fim das contas, não existe água suficiente no mundo para atender ao aumento projetado na demanda de alimentos.


ÉPOCA E o terceiro?
Roberts – O último é o maior de todos: as mudanças climáticas. Elas vão dificultar o aumento na produção de comida e acentuar a escassez de água. A alteração do clima também será um desafio para que grandes exportadores, como os Estados Unidos e o Canadá, consigam elevar sua produção. Os desafios são complexos e as respostas para eles também. Será preciso reduzir o uso de energia e de água na agricultura, ao mesmo tempo que se elevam a eficiência e a produtividade. Porém, isso não será o bastante. Seremos obrigados a comer menos.


ÉPOCA – A Terra pode alimentar 2,5 bilhões de bocas com uma dieta ocidental, rica em carne, ou 20 bilhões de vegetarianos. Mas somos 6,6 bilhões...
Roberts
– A pecuária e a avicultura consomem grande parte da produção de grãos. Tome o exemplo dos Estados Unidos, com um consumo anual per capita de 100 quilos de carne, comparado ao da Índia, com 15 quilos. É preciso elevar o consumo da Índia e desencorajar o consumo nos Estados Unidos e na Europa, para tentar atingir uma média global de consumo mais justa e sustentável.


ÉPOCA Isso não é utopia?
Roberts
– É preciso reduzir o consumo de carne. A questão é como fazê-lo. Nos Estados Unidos não se toca no assunto. Achamos que comer carne é um direito eterno. Seu consumo é considerado um índice de prosperidade – apesar dos problemas de saúde, como doenças cardíacas, que seu consumo acarreta.


ÉPOCA No Brasil, é a mesma coisa.
Roberts
– O Brasil está se desenvolvendo, e a lógica pressupõe que num país bem-sucedido come-se tanta carne quanto se deseja. Para inverter essa lógica, é preciso um líder corajoso e habilidoso. Essa não é uma prioridade dos candidatos à Presidência dos Estados Unidos. Cedo ou tarde, essa discussão terá de ser atacada.


ÉPOCA Barack Obama e John McCain têm opinião a respeito?
Roberts
– Não sei. Não é uma questão que eles levantariam na campanha. Não soaria como algo patriótico.


ÉPOCA O aumento do preço da comida ameaça elevar em 100 milhões o total de 862 milhões de famintos no planeta. Mas há 1 bilhão de pessoas com sobrepeso. O problema da humanidade é a fome ou o diabetes?
Roberts
– Ambos são problemas. Se fosse forçado a escolher, priorizaria a subnutrição, pois ela mata as pessoas muito mais cedo, e sua solução contribuiria para a estabilidade do clima. Dito isso, se fracassarmos em lidar com a questão da obesidade, no longo prazo pagaremos um enorme preço na forma de despesas médicas. Por 200 mil anos, a espécie humana teve sua dieta restrita pela disponibilidade ou não de alimento. A invenção da agricultura, há 10 mil anos, mudou esse padrão. A obesidade é consequência do acesso a uma alimentação farta e barata. Para manter uma dieta saudável, é preciso disciplina, e nós não fomos biologicamente projetados para controlar nossa gula.


ÉPOCA O Brasil será o celeiro do mundo à custa da destruição da Amazônia?
Roberts
– Apesar de conhecermos as consequências científicas e ambientais da rápida expansão da agricultura, somos incapazes de resistir à pressão política e econômica. Na imprensa econômica americana, o Brasil é retratado como uma história de sucesso. O país será uma superpotência na produção de alimentos. No entanto, quando olhamos as publicações científicas, o Brasil é retratado em termos muito negativos. A lógica gira em torno do fato de a população chinesa ganhar hoje o suficiente para comer carne, o que leva à destruição das florestas no Brasil. A questão fundamental é: como dizer a 1,3 bilhão de chineses que eles devem comer menos carne, se comer carne tem sido um objetivo humano por milhares de anos?


ÉPOCA Seu livro anterior se chamava O Fim do Petróleo. O atual é O Fim da Comida. Qual será o próximo, o fim da água? O fim da natureza? O fim da esperança?
Roberts
– (Risos.) Vou trabalhar num livro sobre as finanças globais, outro desastre. O mercado financeiro é a chave de tudo. Nada do que conversamos, como a conversão de florestas em área de cultivo no Brasil, pode acontecer sem a ajuda dos mercados financeiros. Eles estão em crise. São uma faca de dois gumes que é preciso entender melhor.


ÉPOCA O senhor é otimista com o futuro?
Roberts
– Acho que sou. Ao dissecar a questão da escassez de recursos, aprendi como as coisas podem se tornar ruins. Eu sei qual é o pior cenário possível se não alterarmos a rota na qual caminhamos. Com isso em mente, acredito que qualquer mudança será para melhor. É muito fácil ser pessimista, mas isso não faria o menor sentido. A humanidade sempre conviveu com a escassez. Essa é a condição humana.


Matéria publicada na Revista Época, em 2 de julho de 2008.



Breno Henrique de Sousa* comenta


Esta é uma temática complexa e digna de diversas observações. Na matéria em destaque o entrevistado Paul Roberts defende algumas idéias que ponho em destaque a fim de comentá-las:


1. A teoria de Malthus não estava errada, apenas não havia chegado o momento de concretizar-se. Logo não haverá terras agricultáveis e a produção de alimentos não será suficiente para suprir a necessidade humana e prevê que até 2050 chegaremos a uma situação limite.


- Concordo que chegaremos a uma situação limite, mas é difícil fazer uma previsão específica. O que sabemos é que o atual modelo de produção é de fato insustentável, sobretudo por nossos hábitos alimentares e pela exploração agrícola tradicional que degrada o meio ambiente.


2. Por causa da falta de terras agricultáveis desmatam-se as florestas para o cultivo e esse é uma das principais causas do desmatamento na Amazônia.


- Trata-se aqui de uma meia verdade, pois não é por falta de terras agricultáveis que se desmata a Amazônia. O Brasil possui 152,5 milhões de hectares de terras agricultáveis e atualmente só usamos 62,5 milhões, ou seja, menos da metade. É preciso ter conhecimento da realidade brasileira para falar do assunto. O desmatamento das florestas na Amazônia é um fator bem complexo, que envolve a agropecuária, mas também a ausência histórica do estado e os problemas decorrentes desta ausência como a falta de alternativas econômicas que acabam levando as pessoas a desmatarem a floresta.


3. A criação de gado bovino é desvantajosa, pois consome muita água e terra para criação do gado e produção de grãos e pastagens para alimentá-los. Esta atividade é responsável pela maior parte da ocupação das terras agrícolas.


Concordo plenamente! Temos que mudar nossos hábitos alimentares, porque, além disso, uma dieta rica em proteínas animais resulta em inúmeras complicações para nossa saúde e isso está comprovado cientificamente.


4. Defende uma segunda revolução verde e que umas das soluções possíveis é o cultivo de transgênicos, mesmo reconhecendo que essa opção é limitada.


- A primeira revolução verde ocorreu entre a década de 1960 e 1970 e foi baseada na afirmação malthusiana de que os alimentos se acabariam. Na verdade foi uma boa jogada comercial para a indústria de insumos e serviços da agropecuária poder expandir-se. Foram feitos agrotóxicos, adubos químicos, máquinas e equipamentos que de fato aumentaram expressivamente a produtividade e o volume de produção, porém, estas tecnologias vieram para beneficiar uma parte mais desenvolvida do país (sul, sudeste e posteriormente centro-oeste), para os grandes e ricos produtores e deixando à margem os pequenos agricultores e regiões mais pobres, aumentando o desnível sócio-econômico no campo e entre as regiões do país que se desenvolveram de forma desigual. Além disso, a revolução verde trouxe inúmeras complicações ambientais, contaminação de solos e água e o empobrecimento dos solos, pelo seu manuseio inadequado.


As teorias “neo-maltusianas” soam como o antigo discurso vestido apenas de outra roupa. Os transgênicos podem representar boas soluções, mas da forma que eles tem sido irresponsavelmente introduzidos, representam ameaças sociais, econômicas, e ambientais até mais graves que as da primeira revolução verde. Não se trata de ser contra a tecnologia, mas saber que gerar tecnologia implica em responsabilidades sobre a forma que esta será aplicada, responsabilidades estas que têm sido negligenciadas por pressão dos interesses econômicos vigentes.


Há uma campanha difamatória que afirma que a agricultura ecológica desenvolvida por pequenos agricultores familiares não é capaz de abastecer a população. De fato, com os atuais hábitos de consumo estabelecidos, sobretudo no consumo de carne, não é só a agricultura ecológica que se torna insustentável, a própria agropecuária industrializada já dá sinais de falência. Mas saibam que cerca de 70% dos hortifrutigranjeiros que chegam à nossa mesa no Brasil são provenientes de pequenas e médias propriedades rurais, de maneira que é preciso valorizar a agricultura familiar e desenvolver tecnologias de produção mais ecológicas e alternativas.


5. O preço dos insumos agrícolas, a falta d’água e o aquecimento global são três grandes problemas para produção de alimentos.


- Verdade! Para os dois primeiros problemas, a agricultura ecológica é a melhor solução, ela é mais auto-sustentável e não depende de insumos químicos, além de ser mais eficiente no consumo de água e não contaminando os lençóis freáticos, mas tudo isso, claro, dentro de certos limites. Quanto ao aquecimento global, não há muito o que se fazer, plantar árvores agora pode ser bom para mudança micro-climática de um local específico, mas surte pouco efeito a curto prazo no que se refere a todo o carbono que já foi emitido para a atmosfera. O que podemos tentar é mudar hábitos e poluir menos.


6. Só a mudança de hábitos alimentares pela diminuição no consumo de carne poderá liberar mais terras para atividades mais eficientes e menos degradantes, substituindo a criação de gado.


- Apenas para se ter uma ideia, em 1 hectare, durante um ano, produz-se cerca de 100kg de carne; na mesma área e no mesmo tempo pode-se produzir cerca de 2,5 toneladas de grãos de cereais, ou seja, 25 vezes mais. O tema do vegetarianismo é polêmico, sobretudo quando se tenta impor uma mudança brusca que não é recomendada a ninguém. Neste, como em todos os temas, vale o bom senso. Tenho um amigo que é vegetariano há mais de 30 anos e não come nenhum tipo de proteína animal, ele é espírita e diz que lhe foi revelado que na encarnação passada ele já cultivava este hábito, resultando mais fácil tornar-se vegetariano nesta existência. Mas ele mesmo entende que as pessoas vêm de histórias e condicionamentos diferentes, como seu filho, que ainda quando criança caçava rolinhas para comer por sentir falta de carne, foi quando ele resolveu mudar de postura permitindo aos filhos este tipo de alimentação. Conheço outra pessoa que simplesmente cortou tudo que fazia mal da sua dieta e não substituiu por outros alimentos, o resultado foi que esta pessoa estava tendo “piripaques” por aí. Lembremos o que nos diz O Livro dos Espíritos sobre este assunto, uma vez que estas palavras me parecem conclusivas sobre o assunto:


704. Tendo dado ao homem a necessidade de viver, Deus lhe facultou, em todos os tempos, os meios de o conseguir?


“Certo, e se ele os não encontra, é que não os compreende. Não fora possível que Deus criasse para o homem a necessidade de viver, sem lhe dar os meios de consegui-lo. Essa a razão por que faz que a Terra produza de modo a proporcionar o necessário aos que a habitam, visto que só o necessário é útil. O supérfluo nunca o é.”


705. Por que nem sempre a terra produz bastante para fornecer ao homem o necessário?


“É que, ingrato, o homem a despreza! Ela, no entanto, é excelente mãe. Muitas vezes, também, ele acusa a Natureza do que só é resultado da sua imperícia ou da sua imprevidência. A terra produziria sempre o necessário, se com o necessário soubesse o homem contentar-se. Se o que ela produz não lhe basta a todas as necessidades, é que ela emprega no supérfluo o que poderia ser aplicado no necessário. Olha o árabe no deserto. Acha sempre de que viver, porque não cria para si necessidades factícias. Desde que haja desperdiçado a metade dos produtos em satisfazer a fantasias, que motivos tem o homem para se espantar de nada encontrar no dia seguinte e para se queixar de estar desprovido de tudo, quando chegam os dias de penúria? Em verdade vos digo, imprevidente não é a Natureza, é o homem, que não sabe regrar o seu viver.”


* Breno Henrique de Sousa é paraibano de João Pessoa, graduado em Ciências Agrárias e mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal da Paraíba. Ambientalista e militante do movimento espírita paraibano há mais de 10 anos, sendo articulista e expositor.