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Instinto materno animal

Instinto materno animal



O instinto materno dos animais ainda surpreende. Prova disso é que, em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, uma galinha adotou sete cãezinhos abandonados.


Na propriedade da dona-de-casa Marli Niedersberg os animais convivem em perfeita harmonia. Mas o que nem ela esperava era encontrar uma família como esta.


Os filhotes têm apenas um mês de vida. Foram abandonados pela mãe, que desapareceu depois de dar a luz. Mas eles não podem reclamar de carinho e proteção. Esse papel a mãe adotiva cumpre muito bem.


A responsabilidade é grande. Afinal, são sete cãezinhos para cuidar. A galinha caipira passa quase todo o dia chocando os filhos. A asa da mãe é bem disputada. O lugar é ideal para tirar uma soneca, principalmente quando bate o friozinho. A mãe, super-protetora, impõe respeito. Quando a família está reunida nem o galo se atreve a chegar perto.


“Ela bota as próprias galinhas pra correr. Ela pinica uma a uma e coloca todas para correr”, contou a dona Marli.


Até o passeio pelo quintal é sob os olhares atentos da mãe, que só não consegue dar de mamar para os filhotes. “A gente coloca comida”, disse a dona Marli.


Notícia publicada no site do Globo Rural, em 27 de outubro de 2008.



André Henrique de Siqueira* comenta


Solidariedade e as Teorias do Instinto


Em 27 de outubro de 2008, uma reportagem do Globo Rural nos apresenta um pitoresco caso de uma galinha que adotou sete cachorrinhos após terem sido abandonados pela mãe biológica.


“A responsabilidade é grande. Afinal, são sete cãezinhos para cuidar. A galinha caipira passa quase todo o dia chocando os filhos. A asa da mãe é bem disputada. O lugar é ideal para tirar uma soneca, principalmente quando bate o friozinho. A mãe, super-protetora, impõe respeito. Quando a família está reunida nem o galo se atreve a chegar perto.” – diz a reportagem.


Dois aspectos nos chamam a atenção no episódio: a natureza do instinto materno e a inevitável referência ao conceito de solidariedade...



SOBRE O INSTINTO


O instinto é um conhecimento que se inscreve em nossa estrutura biológica através do processo de evolução.


O tema é tratado nos trabalhos do zoólogo austríaco Konrad Lorenz, ganhador do prêmio Nobel de Fisiologia em 1973 pela fundação da moderna Etologia. A Etologia é a ciência que tem por objeto o estudo comparativo do comportamento animal, em particular em suas relações como comportamento humano. O trabalho de Lorenz sugere que o processo de conhecimento é o fundamento da vida. Os animais são geneticamente constituídos para assimilarem conhecimento, através da assimilação de informações que são importantes para a sobrevivência da espécie. Esse seria o desenvolvimento do instinto. Lorenz denominou este processo de gravação de informações na estrutura biológica de imprinting.


O professor Hippolyte Leon Denizard Rivail, assinando com o pseudônimo de Allan Kardec, propôs que o instinto seria um mecanismo natural através do qual a providência divina se manifesta. A teoria do instinto apresentada em A Gênese descreve: “O instinto é a força oculta que solicita os seres orgânicos a atos espontâneos e involuntários, tendo em vista a conservação deles. Nos atos instintivos não há reflexão, nem combinação, nem premeditação.”


Na obra, Rivail aponta algumas hipóteses para a explicação do instinto:


a) O instinto é um atributo da matéria (aqui compreendida dentro da perspectiva do século XVIII) – a inteligência seria um atributo com elemento material.


b) O instinto é atributo de um princípio espiritual.


c) O instinto e a inteligência possuem uma origem comum. A inteligência seria o desenvolvimento do instinto.


d) O instinto seria resultado da ação de inteligências externas, seria a ação dos Espíritos protetores sobre o mundo material: “o instinto, longe de ser produto de uma inteligência rudimentar e incompleta, sê-lo-ia de uma inteligência estranha, na plenitude da sua força, inteligência protetora, supletiva da insuficiência, quer de uma inteligência mais jovem, que aquela compeliria a fazer, inconscientemente, para seu bem, o que ainda fosse incapaz de fazer por si mesma (...)”


e) O instinto seria a manifestação da providencia divina: “Se nos reportamos à explicação dada sobre a maneira por que se pode conceber a ação providencial; se figurarmos todos os seres penetrados do fluido divino, soberanamente inteligente, compreenderemos a sabedoria previdente e a unidade de vistas que presidem a todos os movimentos instintivos que se efetuam para o bem de cada indivíduo. Tanto mais ativa é essa solicitude, quanto menos recursos tem o indivíduo em si mesmo e na sua inteligência. Por isso é que ela se mostra maior e mais absoluta nos animais e nos seres inferiores, do que no homem.”


Mas é do próprio codificador a lição mais preciosa referente ao assunto:


“Todas essas maneiras de considerar o instinto são forçosamente hipotéticas e nenhuma apresenta caráter seguro de autenticidade, para ser tida como solução definitiva. A questão, sem dúvida, será resolvida um dia, quando se houverem reunido os elementos de observação que ainda faltam. Até lá, temos que limitar-nos a submeter as diversas opiniões ao cadinho da razão e da lógica e esperar que a luz se faça. A solução que mais se aproxima da verdade será decerto a que melhor condiga com os atributos de Deus, isto é, com a bondade suprema e a suprema justiça.” (KARDEC, XXXX) item 17, capítulo III.


A visão de Kardec sobre o assunto impressiona muitos espíritas. E surpreende os dogmáticos. O trabalho apresentado por Kardec em A Gênese é, essencialmente, um trabalho de teoria: a tentativa de explicação de fenômenos à luz dos instrumentos conceituais disponíveis. E por isto ele alerta (cap. I, item 14): “Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente da mesma forma que as ciências positivas, aplicando o método experimental.” E adiante: “É, pois, rigorosamente exato dizer-se que o Espiritismo é uma ciência de observação e não produto da imaginação.” Com esta linha de raciocínio, Kardec conclui (cap.I, item 55): “Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.”


Os atuais conhecimentos da ciência nos remetem a uma teoria nova sobre o instinto: ele seria o resultado do aprendizado da espécie. Um aprendizado registrado na estrutura do ser. Codificado geneticamente. O assunto, embora pareça incoerente com o pensamento espírita por atribuir à matéria a estrutura do conhecimento, merece atenção especial. O conceito de matéria modificou-se profundamente no âmbito da ciência do século XX, e não guarda nenhuma relação com o enunciado no século XIX. Os atributos materiais são sustentados por interações de forças e processos dinâmicos complexos. O instinto emergiria, neste contexto, como uma resultante de processos de aprendizagem que se inscrevem na filogenia das espécies. Refletindo o assunto, ponderamos o papel do perispírito no desenvolvimento destes atributos. André Luiz – em sua obra Evolução em Dois Mundos – detalha o desenvolvimento síncrono entre os atributos da inteligência e o instinto material dos seres vivos. E os remete novamente à ação da providencia divina através da sustentação das leis universais. O espírito aprende as leis do universo e as inscreve na tessitura da própria consciência – primeiro na forma de instinto, para depois refletir sobre elas e agir consoante seu livre-arbítrio, com o uso da inteligência. Viver é conhecer, é aprender, é evoluir. O instinto é mecanismo de aprendizado, é impulso evolutivo de assimilação da lei divina ou natural a inscrever-se no indivíduo. O perispírito é o instrumento deste registro. O código genético é a sua manifestação.


O instinto é um impulso histórico de ação conforme o aprendizado das leis naturais que regeram o desenvolvimento do ser. Tem por objetivo a preservação da espécie pela adequação do comportamento ao contexto que o regulamenta. Não está baseado em critérios de liberdade individual, mas em ações cujo propósito é o bem da espécie, sua perpetuação e sobrevivência.



SOBRE A SOLIDARIEDADE


Em 2008, a revista Katálysis v. 11 n. 1 p. 43-52 traz um curioso e interessante artigo da professora Vera Herweg Westphal, doutora em Sociologia pela Westfäliche Wilhelms, então vinculada ao Departamento de Serviço Social da Universiade Federal de Santa Catarina. Trata-se do artigo “Diferentes matizes da ideia de solidariedade”. Deste documento extraímos o seguinte trecho, sobre as origens do termo Solidariedade:


“Segundo Hofmann (apud BRUNKHORST, 2002, p. 10)(1), a origem linguística do termo encontra-se no direito romano. Já Brunkhorst explica que o termo solidariedade significa “sólido”. Solidus é o próximo e o seguro. O conceito romano-legal in solidum significa o dever para com o todo, a responsabilidade geral, a culpa coletiva, a obrigação solidária: obligatio in solidum. Um por todos, todos por um. Este mesmo autor esclarece que o pagamento de dívidas contraídas por uma pessoa tornava os avalistas co-responsáveis destas, de forma que estes assumiam o pagamento das dívidas no caso do devedor não conseguir quitá-las. Assim, a obligatio in solidum une pessoas desconhecidas com papéis complementares e interesses heterogêneos por meio de um abstrato meio legal. No latim, a origem da palavra solidariedade se refere à “cooperação responsável de direito  civil” (BRUNKHORST, 2002, p. 10).


“O conceito de solidariedade tem ainda duas outras fontes: 1) a idéia de unidade pagã-republicana (do grego homonoia e do latim concordia) e amizade civil (do grego philia e do latim amicitia), e 2) a idéia bíblicocristã de fraternidade (fraternitas) e amor ao próximo (caritas) (BRUNKHORST, 2002, p. 12).”


Vemos que o conceito de solidariedade está vinculado ao dever para com os outros. Arrisco-me a situá-lo no âmbito dos instintos primitivos, precisamente no âmbito da sobrevivência da espécie – que é o princípio fundamental dos instintos. A obrigação para com os outros – a princípio da mesma espécie, incute no indivíduo uma responsabilidade de preservação do interesse comum. Esta responsabilidade, usando o modelo de Lorenz, é codificada no indivíduo pelo aprendizado de comportamentos instintivos – imprinting.


Compreende-se desta forma a atitude da galinha mencionada na notícia que deu origem a estas reflexões. Ao adotar os cãezinhos órfãos, ela exercitava com maior abrangência, seus instintos maternais, em essência, instintos solidários. Cuidava do interesse comum.


A inscrição da solidariedade em nossas consciências nos convida para muitas atitudes de defesa do interesse coletivo. É a superação do egoísmo, é o fundamento da lei que vige em todo o universo: harmonia e equilíbrio que oscila entre as manifestações de criação e de destruição. Todos estão matriculados na escola da vida. Galinhas, cães e homens. Somos convidados a dar nossa contribuição para o benefício geral.


“Por intermédio da mãe, o próprio Deus vela pelas suas criaturas que nascem.” – reflete Kardec, sobre o instinto maternal. Confesso que me emociono com a ideia, ao pensá-la dentro da perspectiva do instinto e da solidariedade. Farei um cartaz para me recordar do assunto:


Em 2008, uma galinha adotou 7 cãezinhos órfãos. E você, o que fará pelo mundo hoje?



Referência:


1) Citado originalmente no texto: BRUNKHORST, H. Solidarität. Von der Bürgerfreundschaft zur Globalen Rechtsgenossenschaft. Frankfurt/Main: Suhrkamp, 2002.


* André Henrique de Siqueira é bacharel em ciência da computação, professor e espírita.