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Nasce bebê concebido para curar

Nasce na Espanha bebê concebido para curar



Reuters/Brasil Online


MADRI (Reuters) - Autoridades espanholas noticiaram na terça-feira o nascimento do primeiro bebê selecionado geneticamente no país para curar uma doença de outra pessoa - no caso, seu irmão de 6 anos, vítima de uma grave doença hereditária.


Javier, de 3,4 quilos, nasceu no domingo no Hospital Universitário Virgem do Rocio e não tem a doença do irmão, uma grave anemia congênita chamada beta-talassemia maior. O sangue do seu cordão umbilical será usado em transfusão para ajudar o irmão.


Em quatro ou cinco anos, Andrés, o irmão maior, poderá voltar a ser uma criança normal, livre das frequentes transfusões às quais é obrigado.


"A perspectiva é que se curará, com alta probabilidade", disse o médico Guillermo Antiñolo, chefe de Genética, Reprodução e Medicina Fetal do Hospital Virgem do Rocio, à rádio pública espanhola.


A talassemia maior se caracteriza por anomalias na produção de hemoglobina, o que provoca diminuição do oxigênio no organismo, a partir dos 6 meses de idade. Sem tratamento, a doença leva à morte em poucos anos.


Javier é o oitavo bebê nascido na Andaluzia sem doenças hereditárias graças ao Diagnóstico Genético Pré-Implantatório (DGP). É o primeiro, no entanto, com compatibilidade com o irmão.


"É o segundo caso no mundo para esta enfermidade em concreto no qual o bebê é doador para curar um familiar", disse Antiñolo.


O DGP é um procedimento previsto na Lei de Reprodução Humana Assistida, aprovada em 2006, e oferecido gratuitamente pelo sistema de saúde da Andaluzia em casos de risco para a criança.


"Ouvimos falar na televisão das células-mãe, e a partir daí fomos nos informando... até que o hematologista do menino o mandou para onde tinha que mandar, e aí nos chamaram", disse Soledad, mãe de Javier e Andrés.


O DGP pode ser aplicado para doenças como fibrose cística, hemofilia A e B, distrofia muscular e mal de Huntington, entre outras.


Notícia publicada em O Globo Online, em 14 de outubro de 2008.



Jorge Hessen* comenta


A GENÉTICA ANTE A DOUTRINA ESPÍRITA - ALGUNS COMENTÁRIOS


Recentemente, nasceu na Espanha um bebê selecionado geneticamente para curar uma doença de outra pessoa. Javier é o oitavo bebê nascido na Andaluzia sem doenças hereditárias, graças ao Diagnóstico Genético Pré-Implantatório - DGP. A técnica pode ser aplicada para doenças como fibrose cística, hemofilia A e B, distrofia muscular e mal de Huntington, entre outras. Se as doenças sempre apresentam um componente genético, mesmo que débil, tentar abordá-lo e neutralizá-lo é benéfico em termos de saúde pública. Em Portugal, dois gêmeos saudáveis, com 16 semanas, são a prova do êxito do teste desenvolvido no Porto por um grupo de investigadores. A mãe, de 24 anos e portadora de paramiloidose, vulgarmente conhecida por doença dos pezinhos, recorreu a um processo de fertilização "in-vitro", que permitiu obter o diagnóstico genético do embrião, antes da sua implantação no útero. A transferência foi bem sucedida e o exame pré-natal, das 16 semanas, confirmou a saúde dos bebês. Embora a sua aplicação não seja muito comum, já foram desenvolvidos testes de diagnóstico genético para diversas doenças, nomeadamente para anomalias cromossômicas.


A combinação do conhecimento genético com os avanços da tecnologia reprodutiva já permite, aos pais, selecionar alguns dos genes que querem (ou não) transmitir aos seus filhos. Mas, por enquanto, inserir genes em embriões é uma tecnologia cheia de imperfeições, com mais riscos do que benefícios, e que deverá demorar, ainda, algumas décadas antes de a situação se alterar. Será possível "produzir" bebês resistentes ao cancro, às doenças cardíacas e mentais e, até, à AIDS. Estamos convictos de que o conhecimento da condição de risco genético de cada ser se torna necessário e obrigatório para a prevenção de doença, constituindo-se em uma tecnologia social que pode estabelecer modos de relacionamento do indivíduo consigo mesmo, com a família e com a sociedade. Todavia, opções legais poderão bloquear esses avanços da genética que, entre os cientistas, não são aceitas, unanimemente, sob o ponto de vista ético.


O tema pode nos levar a refletir, também, sobre o nefasto eugenismo de Francis Galton(1), que permanece como a caução científica de toda pretensão a se predizer o futuro de um indivíduo. A doutrina da eugenia, fundada por Galton, tinha como princípio gerar uma elite genética pelo controle rigoroso da reprodução humana, favorecendo a perpetuação dos indivíduos com caracteres de comportamento desejáveis e, proscrevendo os indesejáveis. Sabemos que alguns Estados totalitários, do século XX, chegaram a adotar a eugenia como programa de desenvolvimento social com trágicas consequências.


O que pode ocorrer com a disponibilização comercial de testes, relativos a características humanas complexas, para aplicação em embriões "in vitro" em procedimentos de diagnóstico genético pré-implantatório? É interessante refletir que, muito antes de a hereditariedade ser explicada em bases biológicas, hoje, bases genéticas, as noções de SANGUE e parentesco eram usadas para explicar as desigualdades sociais. A superioridade do SANGUE AZUL era tema, historicamente discutido, e que refletia interesses de castas.


Concomitantemente às descobertas científicas, no campo da genética, foram-se somando aflições de ordem moral e ética: em consequência, dessas dúvidas e inquietações, é que surgiu um novo campo de estudo: "a Bioética, que objetiva a orientar os profissionais e a sociedade como um todo quanto aos rumos, aplicações e limites relacionados à questão".(2)


Não se pode desconsiderar que a genômica é uma atividade que, em suas redes e vínculos institucionais, políticos e econômicos, organiza-se sob a égide da poderosa indústria biotecnológica, representante privilegiada do capital globalizado. "Envolvem, também, políticos e gestores preocupados com o aumento dos gastos públicos com saúde e com o bem-estar das populações."(3)


A genética tem sido responsável por uma enorme variedade de contribuições práticas em vários campos da ciência como a biologia, a medicina, a veterinária e a agricultura. As possibilidades da Engenharia Genética são inimagináveis. Porém, na Genética, a questão crucial não é o que pode ser feito, e sim o que deve ser feito com responsabilidade, bom senso e ética. A Engenharia Genética é vista com naturalidade pelo Espiritismo, como se pode ver na resposta do Espírito Emmanuel, no caso da fecundação assistida: "Tais espíritos vêm à luz mediante preparação espiritual? - Sim, (...) obedecem aos Planos Superiores".(4)


O Espiritismo deve aceitar as pesquisas e revelações da Engenharia Genética, desde que tenham por objetivo a melhoria da saúde humana, quando dirigidas, essencialmente, para o bem da humanidade. Até porque, "os avanços da Ciência chegarão à Terra, como estão chegando, na proporção direta do merecimento planetário (embora, inicialmente, o homem faça mau uso)."(5)


Em suma, com relação ao tema, fazemos nossas as afirmativas de Eurípedes Kühl: "Prevendo doenças, mais fácil tratá-las. Menos doenças, menos dor. Menos dor, mais evolução espiritual. Mais evolução espiritual, mais amor entre os homens. E mais amor, mais próximos de Deus".(6)



Fontes:


1) Francis Galton (1822-1911), médico e estatístico, é o fundador desse tipo de eugenismo;


2) Disponível no site http://www.espiritismoegenetica.espiridigi.net/;


3) Kerr A, Cunningham-Burley S. On ambivalence and risk: reflexive modernity and the new human genetics. Sociology. 2000; 34(2): 283–304;


4) Disponível no site http://www.espiritismoegenetica.espiridigi.net/;


5) idem;


6) Kühl , Eurípedes. Genética e Espiritismo, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1996.


* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal lotado no INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.