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A religião faz mal ao mundo

A religião faz mal ao mundo



O filósofo Sam Harris, um dos ateus mais barulhentos dos EUA, diz que só com o fim da fé se poderá erguer uma civilização global


André Petry


Dependendo do ângulo em que é observado, o filósofo americano Sam Harris, de 40 anos, exibe uma desconcertante semelhança física com o ator Ben Stiller, mas seu trabalho nunca está para comédias. Junto com o biólogo inglês Richard Dawkins, autor de Deus, um Delírio, Sam Harris é um dos mais ativos militantes contra as religiões. Em 2005, nos Estados Unidos, ele lançou O Fim da Fé e ficou mais de trinta semanas na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times. Neste ano, produziu um novo best-seller com críticas à religião. Com 91 páginas, Carta a uma Nação Cristã, já lançado no Brasil pela Companhia das Letras, é um compêndio em defesa do ateísmo. É redigido com uma linguagem tão cortante e argumentos tão implacáveis que, por vezes, roça o panfletário, mas dá seu recado com clareza absoluta. O filósofo bate em cada um dos pilares da fé e conclui: "A religião agrava e exacerba os conflitos humanos muito mais do que o tribalismo, o racismo ou a política". Ele deu a seguinte entrevista:


O movimento dos ateus é forte nos Estados Unidos e na Inglaterra, principalmente. É uma decorrência dos atentados de 11 de setembro de 2001?
Vejo dois motivos simultâneos para essa confluência geográfica: os atentados de 11 de setembro e a escancarada religiosidade do governo de George W. Bush. A conjunção desses dois fatores levou muitas pessoas a se preocupar com o fato de que a fé está agora dos dois lados do balcão. Esse é um jogo altamente perigoso.


Por quê?
A fé é, intrinsecamente, um elemento que, em vez de unir, divide. A única coisa que leva os seres humanos a cooperar uns com os outros de modo desprendido é nossa prontidão para termos nossas crenças e comportamentos modificados pela via do diálogo. A fé interdita o diálogo, faz com que as crenças de uma pessoa se tornem impermeáveis a novos argumentos, novas evidências. A fé até pode ser benigna no nível pessoal. Mas, no plano coletivo, quando se trata de governos capazes de fazer guerras ou desenvolver políticas públicas, a fé é um desastre absoluto.


O senhor acha que o mundo seria melhor sem religião, sem fé, sem crença em Deus?
Seria melhor se não houvesse mentiras. A religião é construída, e num grau notável, sobre mentiras. Não me refiro aos espetáculos de hipocrisia, como quando um pastor evangélico é flagrado com um garoto de programa ou metanfetamina, ou ambos. Refiro-me à falência sistemática da maioria dos crentes em admitir que as alegações básicas para sua fé são profundamente suspeitas. É mamãe dizendo que vovó morreu e foi para o céu, mas mamãe não sabe. A verdade é que mamãe está mentindo, para si própria e para seus filhos, e a maioria de nós encara tal comportamento como se fosse perfeitamente normal. Em vez de ensinarmos as crianças a lidar com o sofrimento e ser felizes apesar da realidade da morte, optamos por alimentar seu poder de se iludir e se enganar.


É possível conciliar ciência e religião?
A diferença entre ciência e religião é a diferença entre ter bons ou maus motivos para acreditar nas hipóteses sobre o mundo. Se houvesse boas razões para crer que Jesus nasceu de uma virgem ou que voltará à Terra, tais proposições fariam parte de nossa visão racional e científica do mundo. Mas, como não há boas razões para acreditar nisso, quem o faz está em franco conflito com a ciência. É claro que as pessoas sempre acham um modo de mentir para elas mesmas e para os outros. A estratégia, nesse caso, é dizer que tal crença decorre da fé. Com freqüência, ouvimos dizer que não há conflito entre razão e fé. É o mesmo que dizer que não há conflito entre fingir saber e realmente saber. Ou que não há conflito entre auto-engano e honestidade intelectual.


Haverá o dia em que a humanidade deixará de ter fé ou a fé faz parte da natureza humana?
O desejo de compreender o que se passa no mundo é inato, assim como o desejo de ser feliz, de estar cercado por pessoas que amamos ou o desejo de ser mais feliz, mais carinhoso, mais ético no futuro. Mas nada disso nos obriga a mentir para nós mesmos, ou para nossos filhos, a respeito da natureza do universo. É claro que nossa compreensão do universo é incompleta e desconhecemos a extensão exata de nossa ignorância. Não temos como antecipar as maravilhosas descobertas que serão feitas. O que sabemos com absoluta certeza, aqui e agora, é que nem a Bíblia nem o Corão trazem nossa melhor compreensão do universo.


Mas nem a Bíblia nem o Corão se pretendem um manual científico para entender o mundo?
Esses livros não são sequer um guia sobre moralidade que possamos considerar minimamente adequado, e falo de moralidade porque é um campo em que ambos se consideram exemplares. A Bíblia e o Corão, por exemplo, aceitam a escravidão. Qualquer um que os considere guias morais deve ser a favor da escravidão. Não há uma única linha no Novo Testamento que denuncie a iniqüidade da escravidão. São Paulo até aconselha aos escravos que sirvam bem aos seus senhores e sirvam especialmente bem aos seus senhores cristãos. É desnecessário dizer que a Bíblia e o Corão, além de não servir como guias em termos de moralidade, também não são autoridade em física, astronomia ou economia.


Que tipo de impacto seu livro pode ter sobre os leitores religiosos?
Eu ficaria feliz se o livro levasse os leitores a se perguntar por que, em pleno século XXI, ainda aplaudimos pessoas que fingem saber o que elas manifestamente não sabem nem podem saber. Não há uma única pessoa viva que saiba se Jesus era filho de Deus ou se nasceu de uma virgem. Na verdade, não há uma pessoa viva que saiba se o Jesus histórico tinha barba. No entanto, em muitos países é uma necessidade política simular que sabemos coisas sobre Deus, sobre Jesus, sobre a origem divina da Bíblia. Imagino que qualquer pessoa religiosa que leia Carta a uma Nação Cristã com a cabeça aberta descobrirá que os argumentos usados contra a fé religiosa são absolutamente irrespondíveis. Isso deve ter algum efeito sobre o modo de ver o mundo dos leitores. Eles certamente vão perceber que ser um cristão devotado faz tanto sentido quanto ser um muçulmano devotado, que, por sua vez, é tão lógico quanto ser um adorador de Poseidon, o deus do mar na Grécia antiga. É hora de falarmos sobre a felicidade humana e nossa disponibilidade para experiências espirituais na linguagem da ciência do século XXI, deixando a mitologia para trás.


O Brasil é um país aparentemente tolerante com as diferentes religiões e conhecido pelo sincretismo religioso. Num país assim, é mais fácil ou mais difícil para o ateísmo crescer?
Em certo sentido, deve ser mais fácil. O convívio intenso de crenças inconciliáveis deve levar as pessoas a compreender que tais crenças são produtos de acidentes históricos, são contingenciais, são criadas pelo homem e, portanto, não são o que pregam ser. Judeus e cristãos não podem estar ambos certos porque o núcleo de suas crenças é contraditório. Na verdade, eles estão equivocados sobre muitas coisas, exatamente como estavam antes os adoradores dos deuses egípcios ou gregos. Ou os adoradores de milhares de deuses que morreram durante a longa e escura noite da superstição e da ignorância humana. Em qualquer lugar que os seres humanos façam um esforço honesto para chegar à verdade, nosso discurso transcende o sectarismo religioso. Não há física cristã, álgebra muçulmana. No futuro, não haverá nada como espiritualidade muçulmana ou ética cristã. Se há verdades espirituais ou éticas a ser descobertas, e tenho certeza de que há, elas vão transcender os acidentes culturais e as localizações geográficas. Falando honestamente, esse é o único fundamento sobre o qual podemos erguer uma civilização verdadeiramente global.


Matéria publicada em Veja.com, em 26 de dezembro de 2007.



Breno Henrique de Sousa* comenta


A Religião faz mal ao mundo?


Os sucessos editoriais ateístas disparam na lista dos mais vendidos, revelando um fenômeno de renovação deste movimento. Muitas destas obras inspiram-se em argumentos trazidos por filósofos existencialistas como Sartre e Nietzsche, outras seguem a linha de pensamento de autores mais recentes, como Carl Sagan, em obras como O Mundo Assombrado pelos Demônios.


O que há em comum nestas obras é: o uso de argumentos filosóficos para embasar o ateísmo; mostrar como historicamente as religiões têm causado transtornos à humanidade e usar argumentos científicos para embasar estas idéias fazendo questão de colocar ciência em posição oposta à religião.


Este é um terreno delicado e é preciso colocar alguns “pingos nos is” antes de tecer qualquer comentário. Primeiramente é preciso separar ateísmo de oposição à religião.


Acreditar em Deus não implica necessariamente em um vínculo formal com a religião, desta forma os argumentos contra a religião já não tem efeito sobre a crença na existência de Deus. Muitas pessoas deixam de acreditar em Deus por causa dos absurdos que foram feitos em nome Dele. A negação à existência da divindade também se deve a forma como as religiões apresentam Deus, fazendo com que seja ilógica e contraditória a sua existência. Quase sempre Deus é antropomorfizado e reflete as imperfeições humanas conforme a época e o contexto histórico. Porém, Deus não é o Deus das religiões.


Dizer que a religião é um mal para o mundo é o mesmo que dizer que o Flamengo faz mal porque algum louco saiu atirando com uma metralhadora e usava a blusa do Flamengo. Sim, existem pessoas que sempre manipularam as religiões, pessoas que se escondem nas religiões para manter aparências ou conveniências sociais, pessoas que usam a religião como força política e meio de manipulação, pessoas que usam as religiões como meio de sobrevivência através da exploração da fé alheia. Mas todas estas coisas sempre existiram dentro e fora da religião; dizer que a religião não presta é o mesmo que dizer que a política não presta. Na verdade é sempre o mesmo e imperfeito “ser humano” que se fantasia de religioso, político ou do que quer que seja a fim de satisfazer seus interesses mesquinhos.


Pelo menos nos meios religiosos encontram-se também pessoas sinceras, pessoas que estudam os maravilhosos conteúdos de suas religiões e que buscam aplicar estes conhecimentos para melhorarem a si e ao mundo. Qual a mensagem de esperança, ética e consolo que possui a doutrina materialista? Se o mal medra nas instituições religiosas, isso não impediu que ela trouxesse inúmeros benefícios e consolações à humanidade mesmo quando falamos das religiões formais.


As religiões são supersticiosas e anti-científicas? Algumas sim. Não todas. Religiosidade não significa necessariamente anti-cientificismo como forçosamente afirmam os ateus.


O que acontece é que a maioria dos ateus confunde espiritual com sobrenatural e classifica tudo o que é espiritual como algo que está fora da natureza e que só existe de maneira abstrata, na imaginação de quem acredita. Mas, os ateus pensam assim, porque, para a maioria dos “crentes” (crentes na existência de algo espiritual) o espiritual é realmente sobrenatural, o próprio Deus é percebido como sobrenatural. Eis aqui a primeira grande diferença entre o Espiritismo e a maioria das religiões. No Espiritismo, o Elemento Espiritual é real e faz parte da natureza, porém este elemento não é matéria. Na cosmologia espírita, Espírito e Matéria são elementos fundamentais da natureza, mas que possuem propriedades bem distintas.


Não é apenas em algumas religiões que existe pseudo-cientificismo. Usa-se a ciência para embasar o discurso pseudo-científico do ateísmo. A ciência atual não tem nada a dizer sobre a “não existência” de Deus. Definitivamente não existem evidências de que Deus não exista e qualquer um que use argumentos darwinianos ou de qualquer tipo para fazê-lo na verdade desconhece a função e as limitações da ciência.


Allan Kardec e Léon Denis são imbatíveis no que se refere à filosofia espírita e a afirmação de argumentos que sustentam o espiritualismo contra os argumentos materialistas. No texto As Cinco Alternativas da Humanidade, do livro Obras Póstumas, Kardec mostra como o “nada” é desprovido de sentido e como o Espiritismo é uma proposta completa de compreensão da vida. A obra O Grande Enigma (1911), de Léon Denis é uma grande referência; esta obra aborda de maneira ampla a existência de Deus. Camille Flammarion, em Deus na Natureza, também faz lógica e ao mesmo tempo poética narrativa sobre o assunto.


Aos que querem leituras mais recentes, recomendamos também as obras de Herculano Pires e Hernani Guimarães Andrade. Fora do âmbito espírita, sobre a temática ciência e religião temos excelentes obras como Quando a Ciência Encontra a Religião, de Ian Barbour; Deus e a Ciência, de Jean Guitton; Vida Depois da Vida, de Raymond A. Moody Jr. e também os escritos do Dr. Ian Stevenson sobre reencarnação.


Ao Espiritismo não faltam argumentos e obras que tem engrandecido com lógica e racionalidade a idéia da existência de Deus, da sobrevivência da alma e da lei de reencarnação. Neste caminho descobriremos que a ciência possui muito mais elementos que corroboram com estas idéias do que argumentos contrários e que, ao invés de prejudicar, o Espiritismo torna melhor o ser humano, mais responsável por seus atos e mais fraterno com seu próximo.


*Breno Henrique de Sousa é paraibano de João Pessoa, graduado em Ciências Agrárias e mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal da Paraíba. Ambientalista e militante do movimento espírita paraibano há mais de 10 anos, sendo articulista e expositor.