Pouca comunicação em casa e muito bate-papo na internet deixam crianças sujeitas a violências, como o ciberbullying

Olhos grudados no celular, na televisão ou no computador. Enquanto a vida acontece no mundo virtual, entre jogos, aulas online, seriados e redes sociais, o corpo e a mente sentem os impactos: 75% dos jovens brasileiros de 11 a 18 anos fazem parte da chamada “geração do quarto”, segundo estudo feito pelo neuropsicólogo e pesquisador Hugo Monteiro Ferreira. O que eles têm em comum, além do fato de ficarem trancados por pelo menos seis horas no dormitório, é que são psicologicamente adoecidos, socialmente fragilizados e mais suscetíveis à autolesão e ao suicídio.

“É uma geração que tem dificuldade de interlocução em casa, porém se comunica muito por meio das redes sociais. O bullying e o ciberbullying são muito presentes entre eles, e esses processos de violência sofridos por eles os tornaram pessoas com comportamento suicida e autodestrutivo”, explica o pesquisador, que avaliou jovens em cinco capitais brasileiras, entre elas Belo Horizonte, para chegar a essas conclusões.

Não só as autolesões são consideradas comportamentos autodestrutivos. Entram nessa lista também, por exemplo, o uso excessivo de álcool e drogas, sexo desprotegido e o vício em jogos e eletrônicos. “Para esses jovens, a permanência no quarto por mais de seis horas ao dia não é escolha, mas o reflexo do sofrimento psicológico”, diz.

Uma dor que não necessariamente vai ficar evidente para os familiares, uma vez que muitos deles não apresentam problemas de rendimento escolar ou dificuldades nítidas de socialização. “Há casos de

jovens em estado de adoecimento mental que não recebem um diagnóstico e são avaliados como adolescentes vivendo neuroses comuns da idade. E os pais não percebem porque, apesar de ser uma geração que está do nosso lado, dentro de casa, não é vista e não se comunica com a família. Isso é agravado pela terceirização explícita dos cuidados, que traz uma ideia de ausência de autoridade para eles”, diz.

Para o psiquiatra Humberto Corrêa, que é presidente da Associação Latino-Americana de Suicidologia, a queda da taxa de natalidade, com redução no número de integrantes em cada núcleo familiar, agrava o quadro de solidão dos adolescentes. “Antes, eram frequentes famílias com vários filhos; agora, as pessoas têm no máximo dois. Os jovens recorrem ao mundo virtual, onde têm 3.000 amigos, mas nenhum é real”, diz.

A psicanalista Cristiane Ribeiro lembra que a adolescência tende a ser uma fase mais complexa por caracterizar uma fase da vida de descobertas e separações. “É o momento em que as pessoas passam a construir suas próprias histórias e valores. Às vezes, isso ocorre com um grau de agressividade e existe uma certa naturalidade nisso. Mas é preciso observar os sinais para oferecer ajuda caso seja necessário”, diz.

 

Alcoolismo.

Para Corrêa, o fator com maior peso no alto índice de suicídio entre adolescentes é o uso exagerado de álcool e de outras drogas. “Nossos adolescentes usam álcool cada vez mais cedo e em maiores quantidades. Segundo o IBGE, 70% dos estudantes já consumiram bebida alcoólica”, diz o especialista. O estudo referido por ele mostrou que 618,5 mil estudantes brasileiros do nono ano do ensino fundamental de escolas particulares e públicas já experimentaram bebidas alcoólicas. Cerca de 22% deles já ficaram bêbados. “Temos uma legislação que proíbe o uso de álcool por menores, mas as festas são regadas a álcool. É um emaranhado cultural, porque a família não quer que o adolescente use álcool, mas permite o consumo”, diz.

A OMS aponta o alcoolismo como um dos principais fatores de risco para o suicídio porque, sob efeito do álcool, as pessoas tendem a apresentar diminuição da capacidade de julgamento, do senso crítico e do autocontrole e tendem a adotar comportamentos agressivos. A entidade estima que 5% a 10% das pessoas dependentes de álcool terminem suas vidas pelo suicídio.

 

Um a cada três alunos já foi vítima de bullying

“Não dá para dizer que a escola é um parâmetro para saber se a pessoa pertence à geração do quarto porque ela omite e mascara sofrimentos psicológicos. Antes de existir o ciberbullying, esse tipo de violência já estava presente em todas as escolas, diante dos olhos de muitas testemunhas, e isso não mudou”, diz o neuropsicólogo Hugo Monteiro Ferreira.

Pesquisa da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) revelou que um em cada três alunos em todo o mundo foi vítima de bullying, com consequências arrasadoras no desempenho escolar, na saúde física e mental. O levantamento mostrou que 25% das vítimas disseram que o motivo foi a aparência física; 25%, por causa de gênero e orientação sexual; e outros 25% mencionaram que os ataques estavam associados ao seu país de origem. “O bullying tem efeitos devastadores”, diz o especialista. As crianças e adolescentes que sofrem bullying estão mais sujeitos a terem depressão, solidão ou ansiedade, autoestima baixa, pensamentos suicidas ou a tentarem o suicídio, ainda segundo informações da Unesco.

Se, de um lado, a escola pode ser o palco da agressão que será um gatilho para problemas psicológicos, de outro, ela pode ser um apoio importante. O Centro Universitário Una, por exemplo, tem um projeto para dar apoio aos alunos. O Entrelaços capacita professores para que eles possam identificar potenciais casos de depressão ou outros problemas de saúde mental entre os alunos.

Nós formamos multiplicadores. Os professores estão em um lugar privilegiado para abordar os alunos e abrir um diálogo. O projeto estabelece também parcerias com uma rede de saúde mental, como clínicas de psicologia, para que o aluno seja encaminhado a um profissional. Não queremos que os professores virem psicólogos, mas estejam sensíveis ao adoecimento”, explica o coordenador do projeto, Alexandre Campos, doutor em psicologia pela UFMG

Notícia publicada em O Tempo, em 14 de setembro de 2021

 

Mabel Perito Velez*, comenta

Criança, jovem ou adulto, todos temos necessidade de amor e compreensão. Ansiamos encontrar afinidades, afeição e amizades recíprocas. No entanto, nem sempre a vida social nos concede essa possibilidade, e todos nós, sem exceção, já experimentamos algum tipo de solidão em algum momento das nossas vidas. 

A solidão é um dos mais intensos desafios que a vida em sociedade pode nos trazer, especialmente quando há um componente muito expressivo ligado ao medo de sofrer e se abrir. No que toca a relacionamentos, a necessidade de trocas emocionais e de convivência saudável é enorme. Quando o movimento não ocorre nesse sentido ou lhe é contrário, conforme expõe o artigo, nos espinhos do bulling, os distúrbios emocionais e de comportamento são naturais. 

Todos os papéis que assumimos na sociedade, no âmbito pessoal ou colectivo, em que formamos grupos variados, carregam os seus próprios estigmas. Quais sejam os preconceitos contra a mulher, as expectativas sobre a figura masculina, os racismo de toda ordem, precisamos compreender que são limitações que não nos definem e existem para que consigamos exercer a auto estima muito além desses estereótipos, para que.encontremos a nossa força de seres divinos e únicos, criados e irremediavelmente destinados ao bem maior. 

Palavras rudes que nos sejam dirigidas, olhares ou comportamentos, partem de irmãos nossos ainda equivocados na compreensão da lei de solidariedade que une todos os seres. Reconheçamos nesses irmãos as imperfeições que também nós já tivemos ou ainda apresentamos, usando da tolerância, pois eles têm os seus limites assim como nós também possuímos os nossos. 

Relativizar a opinião alheia equivale a confiar em si mesmo como um filho muito amado por Deus, que é Pai de infinito amor e deposita as Suas esperanças de forma igualitária a cada um de Seus descendentes. 

A solidão atualmente assume as formas da vida moderna, mas no fundo, ainda somos os mesmos seres inseguros e a nossa fé vacila se instigados a duvidar de nós mesmos. Confiemos nas nossas capacidades tal como Deus confia e sigamos motivados pelas correntes evolutivas que nos fornecem a cada instante novas oportunidades benditas de aprender, melhorar e crescer. 

O autoconhecimento é a chave da nossa existência, o maior objetivo a que podemos aspirar. Tudo para que descubramos a nossa habilidade de amar, a nós mesmos em primeiro lugar, para que possamos expandir essa habilidade ao nosso redor e cumprir a nossa função na Criação.

Aos pais e responsáveis, cujos jovens se encontrem nessa situação, amem! Cada vez mais e sem condições, afirmando e demonstrando o seu afeto de todas as formas que a imaginação alcançar. Aos jovens que experimentam esse gênero de angústia, acreditem que são dignos desse amor. E mesmo que em algum momento das nossas vidas não tenhamos uma presença afetuosa, todos somos estimados e merecemos ser amados. 

Investir em compromissos saudáveis que nos levem a evoluir de forma gradativa, sem cobranças desnecessárias, pode representar a melhor maneira de cuidar de si mesmo e de encontrar propósitos existenciais. Especialmente na juventude, quando as necessidades de socialização são ainda maiores, é muito importante direcionar a energia para atividades que sejam agradáveis e contribuam para o desenvolvimento da personalidade. 

Tal movimento vai facilitar inclusive as conversas em família e a busca das respostas dessa fase, para evitar os vícios e dependências. Com amor e carinho, seremos capazes de reconhecer os sinais de alerta e reverter qualquer situação indesejada. 

Vamos citar Joanna de Ângelis, no livro “O Homem Integral”, psicografia de Divaldo Franco, lembrando que “Jesus, o Psicoterapeuta Excelente, ao sugerir o “amor ao próximo como a si mesmo” após o “amor a Deus” como a mais importante conquista do homem, conclama-o a amar-se, a valorizar-se, a conhecer-se de modo a plenificar-se com o que é e tem, multiplicando esses recursos em implementos de vida eterna, em saudável companheirismo, sem a preocupação de receber resposta equivalente.”

 

*Mabel Perito Velez é formada em administração e colabora com o espiritismo.net.

 

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