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Um dos principais desafios e motivos de atrito está nos papéis que pais e filhos assumem nessa fase da vida, apontam especialistas.De um lado, os filhos podem enxergar uma pessoa fragilizada, adoecida e que precisa de cuidados e limitações e tentam proteger seus pais e fazer com que não se exponham a riscos. Selma Trigo comenta

  • Data :03/04/2024
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Os desafios de lidar com o envelhecimento dos pais – e como evitar conflitos

Segundo o jornalista Vinícius Lemos da BBC Brasil, o envelhecimento dos pais é resumido pelos especialistas como “uma dura fase marcada por conflitos e dificuldades.” uma vez que muitos filhos não estão preparados para as exigências do período, chegando a, em alguns casos, experimentar níveis significativos de estresse e sobrecarga. O dever dos filhos em apoiar pais mais velhos é nomeado como responsabilidade filial. Segundo o professor da UERJ, Renato Veras, uma das principais dificuldades na relação entre pais e filhos nessa fase é causada por falhas de comunicação em função do conflito geracional.

A íntegra da matéria pode ser acessada em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c842z9en455o

O comentário a seguir é de Selma Trigo:

A sociedade atual, especificamente, o núcleo familiar, vem sofrendo transformações comportamentais em vários aspectos.
Se não fosse a certeza de que a vida é um processo de evolução constante, poderia se afirmar que nossa sociedade vive um retrocesso de valores.
Os pais, na sua maioria, não param para refletir que os filhos em determinado momento irão alçar voo e seguir suas vidas. Assim, ocupados com a sobrevivência, educação dos filhos, trabalho e interesses próprios, vão “deixando a vida levar” e quando percebem o tempo passou e as mudanças foram ocorrendo naturalmente.
A idade vai chegando pelo tempo e a realidade vai se modificando. O que isso quer dizer? A juventude, o vigor, a saúde, a ausência dos filhos, os interesses atuais que se modificaram, assim como hábitos e costumes construídos no decorrer da vida – tudo se altera com o tempo. A realidade bate à porta e quando se dão conta, alguns pais se veem numa nova etapa da existência.
Por conta de tudo isso, os filhos precisam ter consciência que seus pais, apesar de idosos, têm valores substanciais que precisam ser constantemente lembrados como por exemplo a oportunidade de encarnar através da gestação, as noites em claro cuidando das mamadas e das cólicas, o acalento para um sono tranquilo, noites dedicadas aos cuidados de tantas doenças. E por quantas vezes o pai ou a mãe deixou de viajar, abdicou da compra de uma roupa para si para priorizar o filho, ou abnegou-se de comer para garantir o alimento ao filho? E as manhas aturadas, a paciência diante das malcriações e as inúmeras situações em que perdoaram a conduta, muitas vezes, inoportuna dos filhos?
Não há favor quando os filhos cumprem com sua responsabilidade filial. É claro que as necessidades variam de acordo com os indivíduos. Há problemas relacionados com as necessidades materiais, mas há também dificuldades psicoemocionais.
Vamos aqui perpassar por alguns trechos de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, no capítulo XIV item 3:
“O mandamento: Honrai a vosso pai e a vossa mãe é um corolário da lei geral de caridade e de amor ao próximo (…) Quis Deus mostrar por essa forma que ao amor se devem juntar o respeito, as atenções, a submissão e a condescendência, o que envolve a obrigação de cumprir-se para com eles, de modo ainda mais rigoroso, tudo o que a caridade ordena relativamente ao próximo em geral. (…) Honrar a seu pai e sua mãe não consiste apenas em respeitá-los; é também assisti-los na necessidade; é proporcionar-lhes repouso na velhice; é cercá-los de cuidados como eles fizeram conosco na infância.”
“(…) Sobretudo para com os pais sem recursos é que se demonstra a verdadeira piedade filial. Obedecem a esse mandamento os que julgam fazer grande coisa porque dão a seus pais o estritamente necessário para não morrerem de fome, enquanto eles de nada se privam, atirando-os para os cômodos mais ínfimos da casa, apenas por não os deixar na rua, reservando para si o que há de melhor, de mais confortável? Ainda bem quando não o fazem de má vontade e não os obrigam a comprar caro o que lhes resta a viver, descarregando sobre eles o peso do governo da casa! Será então aos pais velhos e fracos que cabe servir a filhos jovens e fortes? Não, os filhos não devem a seus pais pobres só o estritamente necessário, devem-lhes também, na medida do que puderem, os pequenos nadas supérfluos, as solicitudes, os cuidados amáveis, que são apenas o juro do que receberam, o pagamento de uma dívida sagrada. Unicamente essa é a piedade filial grata a Deus.”
Os cuidados para com os pais não é favor algum e sim um dever, por tudo que fizeram pelos filhos quando estes não tinham condição de se assumirem sozinhos na vida, desde a gestação.
É claro que entre os pais dedicados também vamos encontrar pais totalmente alheios à responsabilidade paternal, junto a seus filhos. O que é considerado um comprometimento extremamente sério.
Em “O Livro dos Espíritos” na questão 208, os Espíritos respondem para Kardec dizendo: “(…) O Espírito dos pais tem como missão desenvolver os de seus filhos pela educação; é para eles uma tarefa: serão culpados, se nisso falirem.”
Se os pais envelhecidos possuem uma boa saúde, recursos materiais suficientes para o seu sustento e condições de direcionar suas vidas, é extremamente saudável deixá-los caminhar como gostam, ficando os filhos acompanhando o processo, e dando-lhes momentos de atenção e carinho.
Quanto a teimosia que os pais por vezes demonstram, são reações naturais, provocadas, muitas vezes, pelo próprio temperamento ou porque não desejam demonstrar fragilidade ou impotência em cuidar de si mesmo nas pequenas coisas do dia a dia. Daí a importância do cultivo de virtudes como a paciência, tolerância e indulgência por parte dos filhos, buscando se colocar no lugar de seus pais para poderem compreender o momento emocional que estão vivendo.
Lembremos sempre que o amor é a bússola orientadora que caminha lado a lado com o respeito às individualidades. Eis a base de tudo.

Bibliografia: KARDEC, A. “O Evangelho segundo o Espiritismo”. – CELD, 5 ed. Rio de Janeiro,2010.

  • Selma Trigo é espírita e colaboradora do Espiritismo.net.