Por Alveni Lisboa | Editado por Douglas Ciriaco

 

Embora o título possa parecer bastante apocalíptico, estudiosos da Universidade de Washington realmente creem que as mídias sociais possam ter impacto destrutivo na sociedade mundial. Segundo eles, a humanidade é capaz de sobreviver a guerras, doenças e pragas diversas, mas pode não estar pronta para enfrentar as ameaças provenientes das redes.

Um artigo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences traz mais detalhes. O material de 10 páginas foi escrito por uma equipe multidisciplinar de pesquisadores de biologia, psicologia, filosofia, ciências neurais, especialistas em mudanças climáticas e outros. 

Apesar de parecer uma previsão um tanto pessimista sobre o futuro da civilização, o artigo ajuda a compreender melhor como essas plataformas ajudam a espalhar a informações falsas. Para os pesquisadores, o poder das redes de impulsionar mentiras levaria o planeta à ruína, com uma falta de confiança generalizada e a incapacidade de discernir a verdade da mentira.

Parte disso seria culpa da robotização das redes sociais, guiada por algoritmos incapazes de diferenciar fato de fakes, e, assim, contribuindo para espalhar as inverdades. Os autores alertam que, se não forem compreendidas e contornadas todas essas questões, as consequências indesejadas das novas tecnologias vão contribuir para fenômenos como "adulteração eleitoral, doenças, extremismo, fome, racismo e guerra".

Dos insetos para os humanos

Em entrevista concedida ao site Vox, o coautor e pesquisador Joseph Bak-Coleman fala sobre como a equipe responsável pelo estudo chegou a essa conclusão catastrófica. “A pergunta que estávamos tentando responder era: ‘O que podemos inferir sobre o curso da sociedade em escala, dado o que sabemos sobre sistemas complexos?’”, explicou.

Segundo Bak-Coleman, a ideia é traçar um paralelo entre o uso de ratos e moscas para entender a neurociência. Essas pesquisas realizadas com esses grupos ajudam a entender o comportamento coletivo em geral, mas também adentram em sistemas complexos de forma mais ampla.

“Nosso objetivo é ter essa perspectiva e, em seguida, olhar para a sociedade humana da mesma forma. E uma das coisas sobre os sistemas complexos é que eles têm um limite finito de perturbação. Se você os perturba muito, eles mudam. E muitas vezes tendem a falhar catastroficamente, inesperadamente, sem aviso prévio”, explica o coautor do artigo.

Mentira x verdade

Os estudiosos estabeleceram diversos elos entre pesquisas desenvolvidas nas suas áreas e o atual momento da humanidade. Segundo eles, as mídias sociais interromperam o fluxo de informações confiáveis sobre saúde, ciência, clima e política, assuntos cujos impactos são fundamentais em níveis de organização civilizatória.

A grande culpada seria a internet, que funciona como uma faca de dois gumes: ajuda a aproximar pessoas e levar informações de qualidade ao mesmo tempo em que o seu uso negativo pode transformar sociedades em imensos conglomerados de massa impensante e manipulável.

“A democratização da informação teve efeitos profundos, especialmente para comunidades marginalizadas e sub-representadas”, disse Bak-Coleman. “Isso dá a eles a capacidade de ter uma plataforma e ter uma voz, e isso é fantástico. Ao mesmo tempo, temos coisas como genocídio de muçulmanos e uma insurreição no Capitólio acontecendo. Espero que seja uma afirmação falsa dizer que devemos ter essas dores para termos os benefícios.”

O fenômeno das redes sociais é algo muito novo e ainda sem respostas concretas de nenhuma área científica. Estudos como este, embora tenham um viés bastante pessimista, ajudam a alertar a sociedade para os efeitos das mídias sociais em larga escala.

Resta saber se os responsáveis pelo "Frankenstein" serão capazes de controlá-lo. O estudo mostra que ainda dá tempo de fazer algo, mas o caminho a ser seguido permanece uma incógnita para todos.

 

Notícia publicada no portal Canal Tech, em 29 de Julho de 2021

 

 

Fabiana Shcaira Zoboli* comenta:

 

O título da notícia assusta e seu conteúdo não é otimista: se os cientistas acreditam que podemos vencer “guerras, doenças e pragas diversas”, mas duvidam que  sobrevivamos às ameaças das redes sociais, realmente, precisamos refletir sobre o assunto.

 

Porém, será mesmo que estamos vencendo as guerras, doenças e pragas? Não nos referimos aos conflitos armados, mas às guerras que alimentamos no dia-a-dia, por exemplo, com aqueles que nos fecham no trânsito, com o vizinho barulhento, com quem tem opinião política, religiosa ou até, com quem gosta de um time de futebol ou de uma música diferente?

 

E quantas doenças há em nossas almas que, como pragas, adoecem àqueles ao nosso redor? Pessimismo, tristeza, revolta, mágoa, inveja são doenças que fazem tanto mal a nós, como a quem está próximo porque, quase sem perceber, espalhamos seu amargor em palavras, ações e, até, nas postagens que “curtimos” ou compartilhamos nas redes sociais...

 

Nessa reflexão – dura, mas necessária – recordemos que, em “O Livro dos Espíritos”[1], os Benfeitores da Humanidade ensinam que está no egoísmo a raiz de todos os males:

 

“Temo-lo dito muitas vezes: o egoísmo. Daí deriva todo mal. Estudai todos os vícios e vereis que no fundo de todos há egoísmo. Por mais que lhes deis combate, não chegareis a extirpá-los, enquanto não atacardes o mal pela raiz, enquanto não lhe houverdes destruído a causa. Tendam, pois, todos os esforços para esse efeito, porquanto aí é que está a verdadeira chaga da sociedade.”

 

Diante do egoísmo e dos conflitos internos que ele produz e que ainda temos em nós, a notícia que comentamos não parece tão surpreendente, porque, afinal, nós somos os usuários das redes sociais. Mas, esse é, também, o motivo que torna a perspectiva  menos trágica, porque está em cada um de nós a possibilidade de mudança.

 

Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, ensina[2]:

 

“Nas lides da evolução, há combate e bom combate.

 

No combate, visamos aos inimigos externos. Brandimos armas, inventamos ardis, usamos astúcias, criamos estratégia e, por vezes, saboreamos a derrota de nossos adversários, entre alegrias falsas, ignorando que estamos dilapidando a nós mesmos.

 

No bom combate, dispomo-nos a lutar contra nós próprios, assestando baterias de vigilância em oposição aos sentimentos e qualidades inferiores que nos deprimem a alma.(...)”

 

Passemos, assim, ao ao bom combate[3] e usemos as redes sociais para nos ajudar nesse esforço: ao invés de lutas inúteis ou de consumir conteúdos negativos, sem refletirmos se são verdadeiros ou mentirosos, bons ou maus, esquecendo o quanto tudo isso é prejudicial, passemos a procurar conteúdos positivos que nos ajudam a elevar nossos sentimentos e a desenvolver qualidades superiores.

 

E muito conteúdo elevado na internet: palavras de conforto e estudos proveitosos que são alimento, força e esperança para o Espírito. Apesar de seus poucos likes, esses conteúdos estão disponíveis e, além de nos ajudar no bom combate, ao acessar, curtir e compartilhá-los, transformamos as redes sociais em poderoso recurso para mudar a nossa realidade.

 

Franciso de Assis, grande influencer dos séculos e seguidor de Jesus – o Modelo imbatível – trouxe um “tutorial” para realizarmos as mudanças que desejamos[4]:

 

“Onde houver ódio, que eu leve o amor

Onde houver ofensa, que eu leve o perdão

Onde houver discórdia, que eu leve união

Onde houver dúvida, que eu leve a fé

Onde houver erro, que eu leve a verdade

Onde houver desespero, que eu leve a esperança

Onde houver tristeza, que eu leve alegria

Onde houver trevas, que eu leve a luz.”

 

Realizemos, então, esses esforços, para que nossas almas se curem, nossas guerras acabem e para que as redes sociais se tornem um meio de levar, a todos os povos, a Paz e a Felicidade que tanto desejamos.

 

*Fabiana Shcaira Zoboli é espírita e colaboradora do Espiritismo.net

 

 

 


[1] Referimo-nos a pergunta “913”, de “O Livro dos Espíritos” : “Dentre os vícios, qual o que se pode considerar radical?

[2] “Palavras de vida eterna”, Franciso Candido Xavier/Emmanuel. Mensagem “No bom combate”

[3] II Timóteo, 4.7

[4] Oração da Paz ou Oração de São Francisco, texto atribuído a Francisco de Assis. Os grifos são nossos.

 

 

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