Espiritismo .NET

Desidentificação (Parte 1)

Autor: 
Claudio C. Conti
 

 

No livro O Ser Consciente, da autora espiritual Joanna de Ângelis, sob a psicografia do médium Divaldo Pereira Franco, um dos capítulos é intitulado Desidentificação cujo tema central aborda uma questão muito interessante e importante para o processo evolutivo do espírito encarnado ou ligado ao planeta Terra como mundo de expiação e provas. Desta forma, este estudo apresenta uma análise deste capítulo.

Em negrito e entre aspas são apresentados os parágrafos extraídos do texto original seguido da correspondente análise.

"Podemos considerar a personalidade humana constituída de essência e substância. A primeira são as energias que procedem do Eu profundo, as vibrações que dimanam da sua causalidade, e a segunda é a reunião dos conteúdos psíquicos, transformados em atos, experiências, realizações, decorrentes do ambiente, das circunstâncias, e reminiscências das existências passadas."

Ao iniciar a leitura do texto, tem-se a impressão de que "essência e substância" trata-se de matéria e energia, contudo, na sequência percebe-se que a "essência" são as energias que procedem do eu profundo e a "substância" é a reunião de conteúdos psíquicos. Em outras palavras, o que Joanna de Ângelis chama de "essência" trata-se do que o indivíduo é realmente como espírito; e o que chama de "substância" é o seu comportamento decorrente das vivências, os processos psíquicos que estão relacionados com o meio em que se vive. Por exemplo, podemos não apresentar certo comportamento por estarmos em determinado meio, contudo, em outra situação pode ser diferente. Portanto, não se trata de uma aquisição do espírito, mas simplesmente influência do entorno que pode ser tanto positiva quanto negativa.

Muitas vezes vemos pessoas acreditando estarem transformadas, quando, na verdade, respondem ao ambiente. Quando numa casa espírita, o estudo e a frequência com que se ouve sobre condutas sadias, propicia condição para que o indivíduo passe a agir mais adequadamente em muitas ou algumas situações, todavia, se não estivesse recebendo todo esse estímulo, seu comportamento poderia ser diferente.

"São as substâncias que respondem pelo comportamento do ser, propiciando-lhe liberdade ou escravidão e dando nascimento ao eu. "

As substâncias são os processos psíquicos em si que, por sua vez, serão exteriorizados na forma de comportamento, as nossas ações e reações são decorrentes dos processos psíquicos, que propiciarão liberdade ou escravidão, dependendo do conteúdo e do subsequente comportamento. Quanto mais se faz errado conduzirá à escravidão, em contrapartida, quanto mais se faz certo conduzirá para a liberdade.

Em qualquer uma das situações, a experiência vivenciada dará ensejo para que evolua e se aprimore, pois a vivência fornece material psíquico com a qual o espírito passa a interpretar o mundo e sua condição de forma mais apropriada. Por este motivo, por "dando o nascimento do eu" podemos entender a interpretação e entendimento pessoal de sua condição, pois o "eu" seria uma referência à estrutura psíquica decorrente da conscientização do espírito como individualidade.

Esta é uma questão que, muitas vezes, causa certa dificuldade de entendimento, pois a crença é de que somente seguindo o caminho reto é que o espírito evoluiria, porém, mesmo fazendo as coisas erradas dá ensejo para o surgimento do eu, pois todos os caminhos fazem parte das Leis de Deus que não abandona nenhum de seus filhos nem, tampouco, faz coisas inúteis.

"Numa pessoa média, portadora de consciência, sem a nobre conquista do discernimento e da vivência compatível, a ilusão e os engodos se estruturam, passando à posição das realidades únicas, que ignoram, por efeito, a legítima Realidade."

A pessoa média tem consciência, pois já atingimos a consciência do eu, que somos indivíduos, apesar de não reconhecer as necessidades como tal, isto é, trabalhar a sua essência. Como consequência, não apresentando o discernimento apurado, o indivíduo não consegue distinguir entre as várias manifestações e interpretações com as quais se depara. Nesta condição, as ilusões da vidapassam a ser consideradas como a realidade; o indivíduo vive numa ilusão, acreditando se tratar da realidade. Ao considerar a matéria, e tudo a ela relacionado, como sendo a realidade única e última que existe, o indivíduo norteia sua vida em determinada direção: o da ilusão.

"Essa deturpação psicológica proporcionada pelo ego, que se entorpece e se engana, contribui para as experiências utópicas e alienadoras, que lhe alteram a conduta, produzindo estados profundamente perturbadores."

A pessoa média cujo discernimento concernente à realidade está comprometido, vive numa deturpação psicológica proporcionada pelo que está relacionado com sua experiência hoje. Este é o motivo pelo qual a deturpação está relacionada com o ego. O ego direcionado num único sentido irá causar as deturpações psíquicas. Em uma comparação para fins didáticos apenas, seria como se um cão fosse treinado para fazer uma coisa somente e, assim, decorrente do condicionamento, ele se manteria. Então, o ego condicionado a olhar em uma direção não irá enxergar outras coisas por não conseguir processar a informação, se mantendo sempre na mesma linha. Outras coisas, por não entender, será desconsiderada ou não percebida.

Obviamente que um ego nesta condição irá produzir estados de perturbação.

"O hábito e o cultivo dos pensamentos viciosos, de qualquer natureza, tornam-se as substâncias que formam a personalidade doentia, que se adapta aos fatores dissolventes, rompendo a linha do equilíbrio e do discernimento, empurrando para o trânsito pela senda da irrealidade."

Como visto anteriormente, pensamentos viciosos são decorrentes do ego treinado numa determinada direção. Todas as vezes que o ego fica voltado para uma direção apenas, sem considerar outras possibilidades, pode ser considerado como o início de um processo de ovoidização (processo no qual o espírito se mantém com a mente focada em uma ideia apenas acarretando a perda da forma perispiritual, corresponde a alto grau de perturbação). Pois, um indivíduo que mantém um pensamento fixo, numa forma doentia, corresponde a uma personalidade doentia que, quando levado ao mais alto grau, seria a perda de sua estrutura perispiritual. O que está sendo tratado no texto de Joanna de Ângelis não deve chegar a este estado, mas é possível vislumbrar o limite para esta postura, isto é, ego com pensamento ou interesse único leva a ovoidização como ponto máximo das consequências. Enquanto se mantiver, não no pensamento único como na condição mais crítica, mas num conjunto restrito de pensamento, permanecerão os estados perturbadores.

O hábito do cultivo de pensamentos viciosos forma a personalidade de natureza doentia que "se adapta aos fatores dissolventes rompendo a linha do equilíbrio e do discernimento". Quando o indivíduo mantém a mente fixa em algo, tende a perder o discernimento. Se, por exemplo, alguém decidir de antemão que o amarelo é a cor mais adequada e outro deseja mostrar o verde, o primeiro não irá considerar como uma possibilidade.

Para evitar este estado, devemos apreciar outras possibilidades, mesmo que com o intento de apenas conhecer uma outra opção e, então, decidir com mais consciência, mesmo que mantenha a primeira escolha. Esta é uma postura completamente diferente e sadia. Uma coisa é decidir pelo amarelo e não considerar nenhuma outra cor, outra coisa é ver as outras cores e manter a decisão pelo amarelo. A primeira é fixação enquanto que a segunda é o resultado de uma avaliação.

Aplicando-se este procedimento, que pode até ser forçado à princípio, mas que se tornará natural com o passar do tempo, a tendência é que gradativamente a mente vai relaxando e, consequentemente, o ego passa a avaliar uma gama de possibilidades e não mais se mantém como pensamento fixo em uma única ou em número restrito de ideias, se afastando do monoideismo. Passando a conhecer diversas possibilidades, exercita o raciocínio e tende a escolher a melhor opção.

O pensamento em uma opção ou decisão apenas engana o indivíduo pelo motivo de que, não ponderando sobre um leque de opções, o resultado será aquele único que consegue vislumbrar, portanto, será o melhor. Usando o exemplo apresentado anteriormente, escolhendo o amarelo e não conhecendo outras cores disponíveis, ao ver o resultado vai concluir que estava certo, porém como não considerou as outras opções, não poderia dizer que era a melhor escolha. Para a mente com um único direcionamento, vai se considerar com razão. Esta postura, sendo repetida numerosas vezes leva a obliteração do discernimento por passar a acreditar que as suas decisões são sempre corretas.

Os processos mentais doentios como padrão de comportamento se tornam os fatores dissolventes do ser, pela perda da personalidade. A personalidade é desenvolvida através das escolhas pessoais, ao limitar as escolha pelo pensamento fixo, se permite a perda do poder de avaliação e escolha, consequentemente, perde sua personalidade. Se mantendo na primeira ideia, sem considerações mais amplas, o indivíduo também se coloca a mercê de espíritos maus e brincalhões.

O fanatismo religioso é um bom exemplo da dissociação da personalidade, onde o indivíduo deixa de avaliar o que lhe é dito e assimila as determinações pregadas pela religião ou seu representante, seja ela qual for. Importa ressaltar que há casos em que a religião em si não conduz ao fanatismo e nem este seria a sua finalidade, contudo, interpretações ou interesses pessoais dos seus representantes perante um grupo de fiéis poderá ter o fanatismo como consequência.

É comum que pessoas considerem que uma religião em particular ou as religiões em geral geram fanáticos, contudo é importante ressaltar que para que isto ocorra é necessário que o indivíduo ou grupamento, pequeno ou grande, não importa, estejam predispostos. Portanto, o próprio ser se submete ao regime de escravidão mental. Este processo, o fanatismo, pode ser observado em vários campos da sociedade e não apenas no religioso.

É importante nunca esquecer que toda religião e regime político, entre outros, incluindo seus representantes ou dirigentes apresentam falhas, o que é natural e esperado por se tratar da própria natureza humana. Quando não se pondera sobre esta possibilidade e os equívocos que podem ser cometidos, considerando tudo como correto, o próprio indivíduo se libera do direito de raciocinar.

Nestes casos, a personalidade individual é sacrificada em prol da personalidade coletiva.

Como espíritos compatíveis com um mundo de expiação e provas, os seres aqui viventes apresentam pensamentos viciosos e, consequentemente, em algum grau, personalidades doentias. A tarefa que deve ser atentada e buscada é despender esforços para que a psicopatologia seja mantida sob controle, no grau mínimo possível para o indivíduo e para o momento. Neste exercício, gradativamente, seja qual for o nível que se encontrar, a tendência é tornar o espírito mais sadio em rumo do mundo de regeneração.

Continua - Parte 2...