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Contribuição do Estudo Sistemático da Doutrina Espírita nos Trabalhos da Casa Espírita

 
Contribuição do Estudo Sistemático da Doutrina Espírita nos Trabalhos da Casa Espírita

Pedro Vieira



“A Sociedade tem por objeto o estudo de todos os fenômenos relativos às manifestações espíritas e suas aplicações às ciências morais, físicas, históricas e psicológicas.” (Estatuto da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, Cap. I, Art. 1º)(1)

“Que adiantará àquele que, ao acaso, dirigir a um sábio perguntas
acerca de uma ciência cujas primeiras palavras ignore?” (Allan Kardec)(2)

O Centro Espírita foi concebido para ser um local de estudos da Vida Espiritual, desde a disponibilização de base bibliográfica básica até as pesquisas aprofundadas, multidisciplinares, teóricas e práticas, ligadas ao Espírito – objeto de estudo do Espiritismo. Nessa gama de possibilidades, multiplicam-se as atividades em diversas áreas, cujo ponto de apoio é sempre a Filosofia Espírita, conforme se encontra em O Livro dos Espíritos. Como esses diversos serviços se inter-relacionam de forma harmônica em torno desse foco? Que impacto exerce uma formação doutrinária mais ou menos sólida na consolidação e na qualidade desses trabalhos?

Não é incomum vermos chegar às nossas Sociedades estes que procuram diretamente o trabalho mediúnico ou aqueles que já se dispõem a ensinar as próprias ideias. Normalmente são pessoas de boa vontade e boa fé, que não compreendem ainda que a Doutrina Espírita é toda uma ciência, que tem ramificações em todas as áreas do conhecimento. O professor Allan Kardec foi muito feliz ao advertir, acerca disso: “Quem deseje tornar-se versado numa ciência tem que a estudar metodicamente, começando pelo princípio e acompanhando o encadeamento e o desenvolvimento das ideias”(3). Entrariam eles numa escola de Medicina, de Física ou de Química, sem conhecimento prévio e estruturado, propondo coisas semelhantes – realizar experimentos ou ministrar classes? Provavelmente não.

Como em qualquer matéria, o Espiritismo também tem suas portas de entrada, sempre remetendo ao conhecimento de sua base doutrinária, a saber: O Livro dos Espíritos e sua continuação: O Livro dos Médiuns ou o Guia dos Médiuns e dos Evocadores. Complementam e desenvolvem essas obras centrais outras três, também de Allan Kardec: O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo e A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. Aqui cabe uma reflexão: se o próprio nome completo das obras da Codificação Espírita é desconhecido de muitos espíritas, que dizer de seu conteúdo?

Tão importante quanto os princípios filosófico-morais ali esmiuçados é a metodologia que caracteriza a elaboração desses livros e que, segundo consta, não foi mais empregada em obras posteriores. Ela é chamada de Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos pelo mestre de Lyon, que assim resume sua importância capital: “Nessa universalidade do ensino dos Espíritos reside a força do Espiritismo (...)”(4). Em resumo, ela impede que se assuma como verdade doutrinária a opinião pessoal – por melhor que seja – de um só Espírito ou de um só médium ou de uma só reunião ou mesmo dos costumes de uma só região, porque colhe na generalidade das comunicações sobre um mesmo tema sua linha central e só considera como válidas as informações que tenham passado pelo crivo da razão e recebidas por diversos grupos, que não se conheçam nem se comuniquem, em diversos locais, por diversos médiuns e Comunicantes. Aliás, este é, hoje, um princípio da matemática, que definiria esse cuidado como “plano amostral mínimo”(5) para validade estatística, cujo tamanho pode ser determinado, mas nunca é um único ponto.

No edifício que sustenta essa jornada para o entendimento do Espírito e suas relações com os homens, os alicerces (Obras Básicas) não podem ser trocados por tijolos (obras subsidiárias), por mais bem acabados e firmes que sejam os tijolos. Daí voltarmos à premente necessidade de um estudo sistemático e aprofundado da Codificação Espírita como forma de viabilizar o funcionamento da Casa Espírita em todas as suas dimensões. Veremos daqui por diante exemplos práticos dessa importância em situações típicas dos núcleos espiritistas.

Era comum que acreditassem que o trabalho de educação espírita infantojuvenil  (também conhecido como “evangelização espírita”) poderia ser realizado por “tomadores de conta” de crianças, enquanto os pais estavam nas exposições públicas. Nada mais equivocado. A capacidade de análise se desenvolve em quem estuda, mas a de síntese apenas em quem se aprofunda. O exemplo máximo disso foi, como em tudo, Jesus: trouxe as máximas da Vida e as encaixou cuidadosamente em historinhas simples, cotidianas, para que pudessem ser compreendidas por todos e não se perderem ao longo do tempo. Falar de Doutrina Espírita a crianças e adolescentes não é para quem entende de Espiritismo, é para quem o conhece com muito mais profundidade, muitas vezes, do que o admirado palestrante.

Em 2008, quando a Confraternização das Mocidades Espíritas do Estado do RJ comemorava os 150 anos de O Livro dos Espíritos, estabeleceram-se, a critério educativo e com aprovação do Plano Espiritual, reuniões instrutivas aos moldes das realizadas por Allan Kardec e as crianças e os jovens poderiam escrever perguntas aos Espíritos. Uma das que chamou mais atenção foi feita pelo grupo Pequenos Companheiros (dos muito pequenos, filhos de trabalhadores): “Onde moram os Espíritos?”. Como explicar a uma criança de 4, 5 anos sobre fluidos espirituais, formas-pensamento, diferentes dimensões ou frequências, etc.? Diferentemente de todas as outras respostas, quem ditou esta foi a mentora espiritual do polo pessoalmente: “Os Espíritos moram numa casinha muito longe, que os olhos não podem ver. Mas eles gostam tanto de todos vocês que vêm sempre aqui para beijá-los e incentivá-los. Mais tarde você descobrirá que essa casinha não é feita de tijolos, mas de amor, pensamento no bem e felicidade. Beijo da amiga Teresa”. O conhecimento na simplicidade só é possível, como vemos, com um cabedal de informações muito bem estruturado e organizado, para que não vire simplismo e, portanto, equívoco.

A qualidade do atendimento fraterno também é passível de intenso impacto do grau de estudos espíritas dos atendentes. Estes são, na atuação do acolhimento pessoal, as vozes do Espiritismo, respondendo, sempre, à questão: “O que a Doutrina Espírita pode fazer por mim?” – daí mesmo esse serviço não substituir, jamais, as orientações profissionais, médica ou psicológica. Para que esse momento de troca de informações e atenção seja produtivo, o trabalhador espírita precisa estar munido do cabedal doutrinário estruturado, de forma a consolar e instruir na aflição específica que traz este ou aquele companheiro ao Lar Espírita. Nos muitos casos que nos chegam relativos a descontroles medianímicos em geral, por exemplo, uma orientação equivocada pode levar à piora do quadro – o que, infelizmente, ainda tem ocorrido bastante. Um companheiro nos aparece relatando quadro de obsessão grave. O atendente, bem intencionado, o encaminha para o desenvolvimento mediúnico. Nada mais prejudicial a ele naquele instante. Se fosse conhecedor dos princípios espíritas de maneira ordenada, primeiramente explicaria sobre a atuação dos Espíritos e as causas que permitem essa abordagem, mostrando as providências que o Centro Espírita pode tomar para auxiliá-lo (passes, estudos e atendimento espiritual) e, mais importante, as que ele próprio precisa ter para se distanciar vibratoriamente daquele irmão (preces, mudança de comportamento, perdão), informando, se perguntado sobre mediunidade, que abrir o registro d’água num cano quebrado só fará mais água vazar, e por isso não o encaminha para o desenvolvimento mediúnico.

Para os dirigentes espíritas, o conhecimento das bases doutrinárias deixa de ser desejável e torna-se imperativo. A orientação de uma Instituição Espírita sem a firmeza doutrinária produzirá o que o Espírito Vianna de Carvalho (junto com outros Espíritos-espíritas) chamou de “Campeonato da insensatez”(6) – a escalada de impropérios que acabará por transformar o local em uma imagem personalista e desfigurada da proposta de um núcleo espírita saudável. São as práticas atávicas, dogmáticas, místicas, exóticas, misteriosas, iniciáticas, egocêntricas ou mesmo hipócritas e interesseiras que corroem a imagem do Espiritismo, fazendo-lhe muito mais mal do que seus oponentes diretos. Daí sua responsabilidade de guiar um Centro Espírita sério segundo as orientações dos Espíritos Superiores através de Allan Kardec e não as deles próprias. O diretor espírita com estudo doutrinário aprofundado e correto sabe que ele é um maestro, não o autor da obra.

Pode-se dizer, enfim, que uma Sociedade Espírita que tem por ponto focal o estudo sistemático do Espiritismo – através das obras da Codificação Espírita – e que o valoriza como necessário ao serviço responsável, se fortalece de forma sustentável. Seus trabalhos, como os frutos da boa árvore, subirão em produtividade e qualidade, em alcance e em bem-estar a todos, e este abençoado local se tornará, então, celeiro para os novos desafios que os mentores encaminham sempre às casa construídas sobre a rocha, como ensinou Jesus.


Fontes:

(1)  O Livro dos Médiuns, Parte 2, Cap. XXX.
(2)  O Livro dos Espíritos, Introdução VIII.
(3)  O Livro dos Espíritos, Introdução VIII.
(4)  O Evangelho segundo o Espiritismo, Introdução II.
(5)  LEVIN, Jack. Estatística aplicada a Ciências Humanas. 2a. edição. São Paulo: Editora Harbra Ltda., 1987.
(6)  Página psicografada pelo médium Divaldo Pereira Franco em 17 de julho de 2006, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador, BA, disponível em: http://www.sistemas.febnet.org.br/acervo/revistas/2006/WebSearch/page.php?pagina=366

8 de maio de 2014