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Bem aventurados os pacificadores...

Bem aventurados os pacificadores...
André Henrique de Siqueira



O Brasil foi escolhido para sediar a copa do mundo de futebol de 2014. Um jornalista canadense perguntou sobre a questão da violência e recebeu uma resposta dura, por parte do presidente da CBF – Confederação Brasileira de Futebol:


"Nossa violência não é nem maior nem menor de tudo o que se passa no contexto mundial. Temos visto brasileiros sendo agredidos e assassinados fora do país, em países reputados de grande segurança. Inclusive agora tivemos um problema sério com a delegação do Brasil que esteve no Canadá, com jogadores sendo agredidos pela polícia canadense..."


E completou, demonstrando irritação:


"Grandes países como os Estados Unidos têm garotos atirando e matando gente dentro da escola. No Brasil, pelo menos, isso não tem...”


O episódio poderia ser considerado uma mera gafe de etiqueta – um representante institucional que põe mais emoção que o necessário, para responder a uma provocação da imprensa. Entretanto merece uma avaliação mais demorada.


O ato violento pode ser tomado “constrangimento físico ou moral exercido sobre alguém, para obrigá-lo a submeter-se à vontade de outrem; coação” – segundo o mestre Antônio Houaiss.


Apesar de associado à prática social, a violência é dificuldade do indivíduo a exprimir-se nas relações sociais. A violência reflete um conflito potencializado cuja resolução pretende submeter uma das partes a interesses que não lhe são afins.


Qual seria a solução para a violência?


O cultivo da Paz!  Mas do quê falamos ao considerar a Paz?


O dicionário Oxford define Paz como aquilo “que está livre de perturbação; tranqüilidade” 1.  O dicionário de Cambridge acrescenta: “livre de guerra e violência, especialmente quando pessoas vivem e trabalham alegremente sem desacordos” 2. Houaiss define: relação entre pessoas que não estão em conflito; acordo, concórdia; relação tranqüila entre cidadãos; ausência de problemas, de violência; estado de espírito de uma pessoa que não é perturbada por conflitos ou inquietações; calma, quietude, tranqüilidade.


Definamos a paz como uma manifestação de convivência harmônica.


Sendo uma relação, Paz pressupõe:


a) a existência de alguma diferença potencial e


b) um ajuste de convivência em meio a possível conflito.


Estar em Paz significa manter a harmonia, quando a diferença poderia gerar violência.


A ética cristã convida: “Bem aventurados os pacificadores...” E são pacificadores os que buscam a paz, a convivência harmônica. É preciso considerar os níveis desta convivência harmônica para compreender a importância da paz.


O primeiro nível é a Paz consigo – a coerência entre as idéias, as falas e os atos do indivíduo. Todas as vezes que age incoerentemente o indivíduo sucumbe ante a cobrança de sua própria consciência. Conhecer-se é atitude pacificadora que deve ser desdobrada em palavras e atitudes. Seja o nosso falar sim, sim e o nosso falar não, não. O oposto nos causa conflitos violentos, nos suprime a paz.


O segundo nível é a Paz com o próximo – a convivência com a alteridade, com a diferença, pressupõe o respeito ao direito do outro. Pela convivência com a diferença temos a possibilidade de expandir nosso entendimento e revisar nossas próprias posições. O conflito educativo, pela exposição ao diferente, possibilita a reflexão dos valores e permite o aprendizado onde modificamos nossa atitude ou modificamos o meio em que convivemos.


Importa ressaltar então, que a paz não traduz ausência completa de conflitos. Existem os conflitos construtivos, endereçados para o fortalecimento da harmonia, mediante o aprendizado entre os convivas. Os chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela cunharam a expressão “acoplamento estrutural” para descrever o conjunto de fenômenos de adaptação dos organismos ao seu meio. Entre indivíduos ou sociedades o acoplamento estrutural ocorre pelo estabelecimento entre eles de uma convivência harmônica. O conflito é uma via de ajuste.


O terceiro nível à Paz com o Ambiente – neste estágio o indivíduo busca a harmonização com o mundo em que vive. Harmoniza-se com seres e coisas. Estabelece relações de conflitos, mas de natureza construtiva. Quando destrói o faz como parte de um processo de renovação, com respeito ao meio e aos outros.


Referindo-se ao problema da violência com termos violentos, o representante brasileiro apresentou dois motivos de reflexão:


1º. O mundo precisa tratar o problema da violência, que não está restrito aos países menos abastados


2º. Antes que a paz frutifique entre os povos, é preciso que ela floresça na intimidade de cada um – consoante a expressão feliz de Humberto de Campos 3


Bem aventurados os pacificadores, portanto. Louvados os que cientes de suas necessidades, buscam aprender com o mundo, e auxiliar o mundo na construção da convivência harmônica.

 


Brasília, outubro de 2007






1 “freedom from disturbance; tranquility”


2 “freedom from war and violence, especially when people live and work together happily without disagreements”


3 - No livro A Boa Nova, psicografia de Francisco Cândido Xavier