Autor: 
Daniel Salomão Silva

Conforme o primeiro capítulo da obra A gênese, a revelação espírita “[...] contrai aliança com a Ciência [...]” e se interessa por todos os ramos da economia social,apoiando-os e assimilando suas descobertas, quando entendidas como “[...] verdades práticas [...]”¹. Logo, ainda que possuam suas limitações, as pesquisas históricas e bíblicas podem contribuir para nossa melhor compreensão da figura Jesus, das origens dos evangelhos e das primeiras comunidades cristãs. O estudo científico da Bíblia tem sido desenvolvido de forma mais ampla desde o século XIX e, hoje em dia, é bem mais rico, menos pretensioso, liberto das amarras teológicas e cuidadoso em suas conclusões².

Ademais, aliada a essa abordagem, podemos contar também com a contribuição de obras mediúnicas. Allan Kardec, na edição da Revista Espírita de janeiro de 1858, destacou a psicografia, pela médium Ermance Dufaux, da história de Joana d’Arc ditada por ela mesma. As histórias de Luís XI e Carlos VIII também foram publicadas por essa médium, cuja especialidade se mostrou ser esse tipo de psicografia³.Ao publicar parte da vida de Luís XI no mês de junho desse ano, Kardec afirmou que “[...] as comunicações espíritas podem nos esclarecer sobre a História, quando sabemos nos colocar em condições favoráveis [...]"4. Assim, entendemos que obras mediúnicas sérias posteriores também podem contribuir para o conhecimento histórico, sempre levando em conta os cuidados bem delineados por Kardec quanto ao que vem dos Espíritos.5 A obra Paulo e Estêvão, do Espírito Emmanuel, pela mediunidade de Chico Xavier, é uma delas. Neste artigo, propomos um diálogo entre essa obra e algumas hipóteses acadêmicas sobre as origens dos evangelhos, particularmente dos três primeiros.

Notável é o fato de que esses evangelhos possuem grande semelhança, o que pode indicar origens comuns para sua escrita, daí sua denominação de sinóticos, ou seja, que compartilham o mesmo ponto de vista. Se observados paralelamente, é possível perceber que quase 80% do Evangelho de Marcos está inserido em Mateus e Lucas, enquanto esses  dois evangelhos possuem aproximadamente 65% de material em comum.

No século XIX, a partir do estudo das relações de dependência entre os Evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas, algumas questões foram propostas. Haveria um evangelho primordial, base para os demais? Cada um deles reproduziria uma mesma ou semelhante tradição oral? Ou teriam se baseado em coleções de pequenas narrativas sobre Jesus?

Em discussões que ainda continuam, mais aceita tem sido a Teoria das Duas Fontes. Segundo ela, Marcos seria o evangelho mais antigo e teria sido usado pelos autores de Mateus e Lucas na construção de seus textos. Além da forte presença de Marcos nesses dois evangelhos, outros argumentos reforçam essa posição. Em primeiro lugar, quando Mateus e Lucas concordam com Marcos, também sempre concordam entre si. Além disso, quase sempre a sequência dos trechos comuns entre três evangelhos segue a mesma ordem que Marcos.6 Naturalmente, trata-se de uma hipótese.

Todavia, há também uma parte considerável de coincidências entre Mateus e Lucas que está ausente de Marcos, o que equivale a aproximadamente 25% desses textos. Logo, a segunda fonte da hipótese que descrevemos seria a base dessa parte significativa. Como a maioria dessa interseção é composta de ditos de Jesus, esse material foi chamado de Fonte dos Ditos ou Fonte Q (de Quelle, “fonte” em alemão), documento que se tornou bem popular e amplamente lido no último quarto do século I. Mateus, Lucas, e talvez o próprio Marcos, consultaram esse texto e usaram-no sob diferentes perspectivas.7 Importante é salientar que a Teoria das Duas Fontes, bem como a Fonte Q, é uma hipótese limitada e que não pretendemos, nesse texto, defendê-la, mas dialogar com ela.

Como argumentos a seu favor, além da existência de trechos iguais em Mateus e Lucas, destacam-se o alto grau de concordância verbal entre ambos em algumas das falas que seriam de Q; a presença de expressões em grego incomuns, raras nos textos em grego neotestamentários e judaicos da época, mas que aparecem no material comum a Mateus e Lucas; e a consonância difícil de explicar na sequência dos trechos comuns desses evangelhos.8 O que é bem provável é sua origem escrita, pois as interseções de Mateus e Lucas com frequência compartilham as mesmas palavras na mesma ordem (lembrando que a língua grega não é rigorosa quanto ao ordenamento da oração) e até mantêm os ditos paralelos na mesma sequência, como já apontado.9 

Nesse ponto, as comparações com as informações da obra Paulo e Estêvão se tornam enriquecedoras. Nela se atribui a Mateus a autoria dos primeiros textos cristãos. As anotações de Levi (Mateus, segundo Emmanuel) são entregues por Pedro a Jeziel (futuro Estêvão) pouco mais de um ano após a crucificação de Jesus, quando de sua chegada a Jerusalém.10 Segundo Emmanuel, “[...] Jeziel não leu; devorou [...]” o material recebido, visivelmente emocionado. Sendo o único texto citado por Pedro, podemos entender que, pelo menos no conhecimento da comunidade cristã de Jerusalém, não havia outro registro escrito dos feitos de Jesus nesse momento. Como Jeziel conhecia o grego e o aramaico,11 não é possível, por essa informação, deduzirem qual língua estavam essas anotações, mas sabemos que tanto ele quanto Pedro podiam lê-las. Todavia, esse texto provavelmente foi escrito originalmente em grego, pois as variações verbais em Mateus e Lucas, quando derivadas de Q, não poderiam ser explicadas como oriundas de um mesmo original aramaico. Além disso, o grego que aparece em Q é diferente do de traduções do hebraico/aramaico para o grego, como a Septuaginta,12 apresentando em mais de um caso um estilo mais sofisticado, idiomático. Dessa forma, a hipótese de uma escrita original em aramaico é improvável.13

As anotações de Mateus são também entregues por Pedro, em outro momento, ao fariseu Gamaliel, membro do Sinédrio e simpatizante da mensagem cristã. Segundo Emmanuel, em um encontro entre os dois, o apóstolo “[...] Carinhosamente, ofereceu-lhe uma cópia, em pergaminho, de todas as anotações de Mateus sobre a personalidade do Cristo e seus gloriosos ensinamentos [...]”.14 O próprio Saulo de Tarso, logo após sua conversão e solicitar a Ananias o evangelho, foi informado de que “[...] somente na igreja do ‘Caminho’, em Jerusalém, poderíamos obter uma cópia integral das anotações de Levi”, mais uma vez sem referência a qualquer outro texto ou evangelista. Interessante é notar que Ananias declara ter anotações incompletas, “[...] alguns elementos da tradição apostólica [...]”, que parecem ser partes desses escritos de Mateus.15 O apóstolo dos gentios só teria acesso aos textos completos de Levi ao recebê-los do próprio Gamaliel: aqueles mesmos que lhe haviam sido entregues por Simão Pedro!16 Pouco tempo após recebê-los, já em seu retiro no Oásis de Dan, Paulo ainda teve a alegria de descobrir que Áquila e Prisca também possuíam os textos, que passaram a estudar em conjunto.17 Ainda que apenas em nossa imaginação, belíssimo deve ter sido o encontro de Paulo com Mateus. Segundo Emmanuel, sem se revelar, em Cafarnaum Paulo “[...] procurou Levi, que o recebeu de boa vontade. Mostrou-lhe sua dedicação e conhecimento do Evangelho, falou da oportunidade de suas anotações [...]”.18

Ainda na obra Paulo e Estêvão é possível encontrar algumas citações de trechos das anotações de Mateus. Na primeira parte da obra é narrada a emoção de Estêvão ao ler pela primeira vez o Sermão da Montanha ao lado de Pedro.19 Também Estêvão, em  uma de suas pregações, cita Mateus, 10:6 e 7: “Mas ide, antes às ovelhas perdidas da casa de Israel; e, indo, pregai dizendo: É chegado o Reino dos Céus”.20 O diálogo de Jesus com o moço rico (Mateus, 19:16 a 23; Marcos, 10:17 e 23; Lucas, 18:18 a 24) é citado por Paulo de Tarso, 21 como também a recomendação de reconciliação com os adversários (Mateus, 5:25; Lucas, 12:58 e 59).22

Considerando a existência da Fonte Q, apenas a última citação faria parte dela, pois coincide com Lucas (lembrando que a Fonte Q é constituída hipoteticamente das interseções entre Mateus e Lucas). A terceira, como possui coincidência com Marcos, é atribuída a esse evangelho, se considerado o mais antigo, como explicamos. Naturalmente, isso não nega absolutamente sua presença também em Q.

Quanto à segunda, ainda que o trecho que a inclui possua paralelos com Lucas e Marcos, os versículos 6 e 7 só aparecem em Mateus, logo são considerados como exclusivos dele, como material especial (20% do livro). Por fim, sobre a primeira citação, como o Sermão da Montanha reúne três capítulos de Mateus, não podemos precisar o que realmente estava assinalado no documento lido por Estêvão. Logo, segundo a obra Paulo e Estêvão, há imprecisões na reconstrução que tem sido proposta para a Fonte Q, ou então ela não coincide com as anotações de Levi. Entretanto, essas conclusões não são suficientes para invalidar a Teoria das Duas Fontes, mesmo porque seus próprios defensores preveem a possibilidade de coincidências com Marcos e acréscimos/exclusões feitas pelos autores dos evangelhos seguintes. 

Por fim, a partir de outras indicações de Paulo e Estêvão, é ainda possível propor uma sequência para alguns textos do Novo Testamento. Em primeiro lugar, não podemos assumir com certeza que as anotações de Levi coincidem com o Evangelho de Mateus que conhecemos, logo, não é seguro concluir que esse evangelho seja o primeiro. Afinal, se esse fosse o caso, por que Emmanuel não chamou esses textos de “evangelho de Mateus”? Em segundo lugar, pelas referências à juventude de Marcos à época de Paulo e por não termos citações do seu evangelho até a execução de Paulo, podemos projetar o início de sua escrita para a década de 60, no mínimo. De Lucas podemos dizer algo semelhante. Segundo Emmanuel, também na década de 60 do século I, “[...] o ex-doutor de Jerusalém chamou a atenção de Lucas para o velho projeto de escrever uma biografia de Jesus, valendo-se das informações de Maria [...]”, como também para a necessidade de registro das atividades apostólicas, o que daria origem ao livro lucano Atos dos apóstolos.23 Dessa forma, teríamos a sequência “Anotações de Levi/Mateus (década de 30; Fonte Q ou material exclusivo de Mateus?) – Cartas de Paulo (década de 50) – Evangelhos de Mateus/Marcos/Lucas/Atos dos apóstolos (a partir da década de 60)”, o que está quase em acordo com as projeções mais consensuais entre os estudiosos, que admitem a escrita desses evangelhos entre os anos 70 e 90 d.C.

Enfim, sem pretensões de pioneirismo, que atribuímos ao próprio Allan Kardec, ou de esgotar o assunto com esse breve texto, convidamos o Movimento Espírita a que valorize as pesquisas científicas sobre a Bíblia e o Cristianismo Primitivo em seus estudos evangélicos, sempre em diálogo com as bases kardequianas e as obras subsidiárias mais consensuais. Assim, em acordo com Kardec, exercitamos nossa razão e construímos um conhecimento mais maduro e responsável, parceiro das conquistas  científicas, as quais também devem ser lidas de forma crítica. Afinal, “[...] o que caracteriza a revelação espírita é o fato de ser divina a sua origem e da iniciativa dos Espíritos, sendo a sua elaboração fruto do trabalho do homem”.24

 

REFERÊNCIAS:

1 KARDEC, Allan. A gênese. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 1. ed. 2. imp. Brasília, DF: FEB, 2019. cap. 1, it. 55.

2 THEISSEN, Gerd; MERZ, Annette. O Jesus histórico: um manual. 2. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2004. Prefácio, p. 13 e 14.

3 KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. ano I, n. 1, jan. 1858. História de Joana d’Arc. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 5. ed. 1. imp. Brasília, DF: FEB, 2014.

4 ______. ______. n. 6, jun. 1858. Confissões de Luís XI, Observação.

5 ______. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 10. imp. Brasília, DF: FEB, 2020. Introdução, it. II.

6 THEISSEN, Gerd. O novo testamento. Petrópolis: Vozes, 2007. cap. 3, p. 26.

7 MACK, Burton L. The lost gospel: the book of Q and christian origins. New York: Harper One, 1993. cap. 9, p. 172.

8 MEIER, John P. Um judeu marginal: repensando o Jesus histórico. v. 2. Rio de Janeiro: Imago, 1996. l. 1, conclusão, p. 244 e 245.

9 VAAGE, Leif. O cristianismo Galileu e o evangelho radical de Q. In: Revista de Interpretação Bíblica Latinoamericana (RIBLA), n. 22, p. 84 a 108. São Leopoldo: Sinodal, 1995/3. p. 91.

10 XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 45. ed. 18. imp. Brasília: FEB, 2020. 1a pt., cap. 3 – Em Jerusalém.

11 ______. ______.

12 Septuaginta é a versão da Bíblia hebraica (aproximadamente o nosso Antigo Testamento) traduzida para o idioma grego por judeus no Egito entre os séculos III e I a.C.

13 VAAGE, Leif. O cristianismo Galileu e o evangelho radical de Q. In: Revista de Interpretação Bíblica Latinoamericana (RIBLA), n. 22, p. 84 a 108. São Leopoldo: Sinodal, 1995/3. p. 91.

14 XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 45. ed. 18. imp. Brasília: FEB, 2020. 1a pt., cap. 7 – As primeiras perseguições.

15 ______. ______. 2a pt., cap. 1 – Rumo ao deserto.

16 ______. ______. cap. 2 – O tecelão.

17 ______. ______. cap. 3 – Lutas e humilhações.

18 ______. ______.

19 ______. ______. 1a pt., cap. 3 – Em Jerusalém.

20 ______. ______. cap. 5 – A pregação de Estêvão.

21 ______. ______. 2a pt., cap. 3 – Lutas e humilhações.

22 ______. ______. cap. 7 – As Epístolas.

23 ______. ______. cap. 8 – O martírio em Jerusalém.

24 KARDEC, Allan. A gênese. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 1. ed. 2. imp. Brasília, DF: FEB, 2019. cap. 1, it. 13.

 

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