Autor: 
André Henrique de Siqueira

 

O Caim nosso de cada dia: a produção e o consumo da violência.

 

 

 

"Bem-aventurados os pacíficos..." - Jesus

 

A violência é, primariamente, o exercício de força física para infligir ferimentos ou danos a pessoas ou propriedades. Caracteriza-se como o emprego de recursos ou de esforços para subjugar indivíduos ou coletividades, objetos ou instituições a circunstâncias de inteiro interesse do agente violento. Não é um conceito simples de entender, mas é fácil sentir a sua presença, em especial quando somos nós as vítimas de suas ações. O limite da violência é de natureza mais complexa e o ultrapassamos com frequência na produção e consumo de ideias e atitudes justificadas como disciplinadoras, como analíticas, como eticamente aceitáveis dentro dos costumes sociais vigentes. Contudo, a violência é um problema ético! e afeta as relações sociais tanto quanto aflige o indivíduo em suas reflexões e modos de perceber a realidade. E por isso precisa ser analisado, criticado e implicado em nosso modo de ser, de pensar e de agir - tanto individual quanto coletivamente.

"Eles são violentos! Nós apenas defendemos o direito." - é o critério moderno  para exercitar a antiga forma de justiça que permitia fazer todo o bem aos que amamos e todo o mal àqueles a quem odiamos. Mas o problema ético envolvido numa apreciação da violência precisa ser explicitado, se queremos compreendê-la em suas manifestações e estabelecer - se possível - o limite adequado para o seu exercício ou restrição.

Para muitos o problema da violência não precisa ser discutido: deve ser praticado sempre que o outro violar nossos interesses. O estrangeiro, o diferente, o incomum que destoa de uma forma normalizada de pensamento ou ação tem em sua própria natureza a justificativa para ser violentado. O pacto social justificaria igualmente os atos de violência contra todo aquele que transgrediu a lei.

Mas em que medida a violência pode, ou deve, ser aplicada? Com que critérios? Sob quais circunstâncias? - este tem sido o processo civilizatório que subjuga os impulsos primitivos da vingança, do medo ou da disputa a favor de uma ordem de convivência na qual o conceito de justiça estabelece limites para direitos e deveres recíprocos.

O erro do outro, sua forma de ser, suas ações e suas pretensões são justificativas plausíveis para o exercício da violência? Haverá alguma  circunstância na qual o emprego da violência seja não apenas admissível, mas efetivamente necessário? Há circunstâncias em que a violência pode tornar-se uma virtude? Seu emprego é advogado apenas com base nas consequências que dele resultam?

O problema da violência, de tão presente, tornou-se transparente ao olhar crítico das sociedades. É necessário combater a violência, mas este combate pode pode justificar nossa própria violência? 

 Desejamos a paz, mas não a praticamos, não a refletirmos, não a desenvolvemos. Aplicamos, comumente, o critério de Caim: eu tenho direito de causar danos quando for do meu interesse ou necessidade.

Aliado ao problema do exercício da violência, emerge o desejo de consumi-la. Apreciamos a exposição da violência pelos movimentos emocionais que nos suscitam. As emoções despertadas pela violência podem ser projetadas, podem ser vivenciadas e, seguramente, apreciadas quando a contemplamos: seja nos antigos circos romanos ou nos exuberantes teatros da mídia contemporânea. Modernos Caims, assassinamos Abel em desejos, em ideação, em seletivos espetáculos de composição odienta.

 Pululam as expressões de violência a ferir os espíritos mais sensíveis e a empolgar os desejos de curiosidade humana. Fotos, fatos e ficções locupletam-se de violência como modo de informar, como objetos de consumo, como inspirações de pensamentos a condicionar o exercício da primariedade emocional.

 E como viveremos em paz? Como cultivaremos a Justiça? Como avançaremos na Civilidade?

 Em 2016, Mark Vorobej analisou "O Conceito da Violência" (Ed. Routledge). Identificou diferentes aspectos e implicações propondo que seria possível identificar três dimensões para a violência:

 

1.      Violência Física - compreendida como "[...] uma inflição moralmente proibida de dano físico que envolve o exercício de força física" (p. 174);

2.      Violência Psicológica - "Um ato de violência psicológica é uma inflição moralmente proibida de dano psicológico" (p. 179);

3.      Violência Cultural - "A violência cultural existe quando permitimos que uma criatura senciente suporte uma vida moralmente intolerável de extrema miséria" (p. 182).

 

No item 742 de O Livro dos Espíritos, tratando do tema destruição como lei moral, Allan Kardec propõe que os Espíritos analisem o que impele o homem à guerra. E os luminares espirituais respondem:

 

“Predominância da natureza animal sobre a natureza espiritual e transbordamento das paixões. No estado de barbaria, os povos um só direito conhecem - o do mais forte. Por isso é que, para tais povos, a guerra é um estado normal. À medida que o homem progride, menos frequentemente se torna a guerra, porque ele lhe evita as causas, fazendo-a com humanidade, quando a sente necessária.”

 A violência - em suas manifestações física, psicológica e cultural - é uma expressão do conceito de predominância da força, igualmente em suas diferentes dimensões: física, psicológica e cultural.

A noção de predominância pela força física leva a manifestações de violência física procurando subjugar os mais fracos e tornando-os vítimas no conflito dos interesses. É o retrato da barbárie que encontramos em muitos locais onde a educação e a civilidade não se estabeleceram. Pela educação constróem os valores da paz: primeiro pela supressão das necessidades básicas pela multiplicação das oportunidades. Na medida em que a sociedade progride a diminuição da fome e da miséria vai tornando menos necessária a violência física pela força. Mas não resolve de todo o problema da violência.

A violência psicológica caracteriza-se pelo uso da força sobre a dimensão psicológica do ser: sua vontade, seu pensamento, seus sentimentos e emoções. Caracteriza-se pela imposição de valores que constrangem, que limitam e atormentam o indivíduo conduzindo-o a um sofrimento íntimo causado por outrem. Temos visto manifestações de violência psicológica no campo das imposições de pensamento, na construção de preconceitos, na restrição da liberdade de expressão etc. Mas também vemos no exercício de manifestações de ideias, no exercício da liberdade, na exposição das emoções etc. causas para o sofrimento psicológico de outrem. A regra do limite dos direitos, que terminam quando começa o direito do outro, ainda se configura como referência para a construção da convivência pacífica.

De todos os tipos, porém, vemos com intensidade ainda maior, o desenvolvimento da violência cultural na contemporaneidade. O esforço para superar a violência física pelo estabelecimento do estado de direito, e para superar a violência psicológica pela Declaração dos Direitos do Homem, não têm sido suficientes para evitar que pessoas vivam em condições morais degradantes e miseráveis.

 Allan Kardec destaca, na apreciação do assunto, no item 685 sobre a lei moral do Trabalho, que um item tem sido desconsiderado na equação econômica:

 Não basta se diga ao homem que lhe corre o dever de trabalhar. É preciso que aquele que tem de prover a sua existência por meio do trabalho encontre em que se ocupar, o que nem sempre acontece. Quando se generaliza, a suspensão do trabalho assume as proporções de um flagelo, qual a miséria. A ciência econômica procura remédio para isso no equilíbrio entre a produção e o consumo. Mas, esse equilíbrio, dado seja possível estabelecer-se, sofrerá sempre intermitências, durante as quais não deixa o trabalhador de ter que viver. Há um elemento, que se não costuma fazer pesar na balança e sem o qual a ciência econômica não passa de simples teoria. Esse elemento é a educação, não a educação intelectual, mas a educação moral. Não nos referimos, porém, à educação moral pelos livros e sim à que consiste na arte de formar os caracteres, à que incute hábitos, porquanto a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos. Considerando-se a aluvião de indivíduos que todos os dias são lançados na torrente da população, sem princípios, sem freio e entregues a seus próprios instintos, serão de espantar as consequências desastrosas que daí decorrem? Quando essa arte for conhecida, compreendida e praticada, o homem terá no mundo hábitos de ordem e de previdência para consigo mesmo e para com os seus, de respeito a tudo o que é respeitável, hábitos que lhe permitirão atravessar menos penosamente os maus dias inevitáveis. A desordem e a imprevidência são duas chagas que só uma educação bem entendida pode curar. Esse é o ponto de partida, o elemento real do bem-estar, o penhor da segurança de todos.

É preciso pensar a paz como recurso de construção coletiva. É necessário oferecer a verdadeira educação, que disciplina a força, que inspira a mente e que transforma a cultura para que as proposições de paz sejam mais que recomendações vazias: que se tornem práticas sociais. Necessário dar oportunidades de trabalho, e educar para o desejo de trabalhar como oportunidade de engrandecimento, de aprendizado e de dignidade, mais do que como recurso de sobrevivência. A intelectualização social poderá reduzir a violência física, mas será incapaz de solucionar a violência psicológica e cultural. É preciso investir numa educação pacificadora, inspirada nos valores do espírito para a promoção de uma paz efetiva.

 Olhando o cenário de violências que nos envolvem, devemos pensar como contribuir para estancar a onda que se avoluma. Dar o nosso contributo de paz: às vezes com o silêncio, outras com o sorriso pacificador. Estender as mãos aos caídos e educar os que estão sem esperanças representam a revolução cultural que precisamos ver estabelecida em nossa era. Que saibamos refletir a extensão do convite de Jesus, quando ponderando a necessidade de uma sociedade feliz estabeleceu como diretriz de esforço coletivo: Bem-aventurados os pacíficos, porque herdarão a terra!

 

andrehsiqueira@espiritismo.net

 

 

REFERÊNCIAS

 

VOROBEJ, Mark. The Concept of Violence, Routledge, 2016.

 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 76a. ed. Brasília: FEB, 1995

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