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Queimada viva em nome de Deus: o suplício da nicaraguense jogada numa fogueira

Crime atormenta uma comunidade conservadora e machista e abre um debate sobre a violência contra as mulheres

CARLOS SALINAS
Rosita (Nicaragua)

Seu nome era Vilma Trujillo García e morreu depois de ter sido queimada numa fogueira. A mulher, de 25 anos e mãe de dois filhos, lutou pela vida durante mais de 24 horas de agonia, nas quais suportou queimaduras de segundo e terceiro grau que calcinaram 80% do corpo: os seios, as coxas, parte do rosto e as costas ficaram carbonizados. Era o sofrimento que teve de pagar depois que membros fanáticos de sua congregação religiosa determinaram que estava “possuída pelo demônio” e que deveria arder na fogueira para se libertar do diabo.

Vilma Trujillo García agonizou queimada numa distante comunidade do Caribe nicaraguense, El Cortezal. O crime atormenta uma sociedade extremamente conservadora e machista e abre um debate sobre a violência contra as mulheres que mostrou seu nível mais brutal com o suplício na fogueira da jovem camponesa.

El Cortezal é terra de ninguém. Aqui não há presença do Estado, não há escola, hospital ou delegacia de polícia. A lei e a ordem são impostas pela religião. A principal autoridade é o pastor da congregação. El Cortezal não é sequer uma aldeia. É um ponto de referência. Fica nas altas montanhas da região central do Caribe da Nicarágua, rodeada por culturas de feijão e grandes pastagens para o gado, que substituíram a floresta tropical. Para chegar até aqui é preciso alugar uma caminhonete na maior cidadezinha das proximidades, o município de Rosita. É preciso rodar durante cerca de quatro horas numa estrada em péssimo estado, com enormes buracos cheios de lama. O carro avança balançando até um ponto onde a estrada está interditada. A partir daí é preciso seguir a pé durante três horas entre rios, floresta, montanhas rochosas e encostas tão íngremes que um passo em falso pode resultar numa queda fatal. Os andarilhos devem descansar durante o trajeto para não desfalecer por causa do difícil acesso, das altas temperaturas e da umidade sufocante. Esse caminho tortuoso foi feito por Vilma Trujillo quando, depois de horas de sofrimento, tiveram pena dela e a desceram pendurada numa rede carregada por quatro homens. Foi o começo do fim do seu tormento.

Em El Cortezal não existe muita coisa para ver. A terra é negra e rochosa sob um céu de azul intenso, mas que pode mudar de um momento para o outro para um tom cinza tenebroso, anúncio de tempestade. Sobre uma colina se ergue a igreja evangélica, uma rústica construção de madeira onde a cada sábado se reúnem os membros da congregação para o culto semanal, dirigido há dois anos pelo pastor Juan Rocha, um homem de 23 anos que ordenou a sentença de morte de Vilma Trujillo.

Essa congregação é parte das Assembleias de Deus, uma organização pentecostal com mais de 30.000 fiéis na Nicarágua e centenas de pequenas igrejas plantadas em todo o território do país. Ali onde o Estado não existe, há uma igreja evangélica.

Diante do templo de El Cortezal fica a casa pastoral, também de madeira, com chão de terra, uma porta e uma janela como únicos espaços para que a luz penetre. É uma construção escura, asfixiante, onde morava o pastor e onde Vilma ficou trancada depois de receber sua condenação. Dentro dessa construção, numa esquina, o chão está queimado: a congregação fez uma pequena fogueira para queimar as fezes Vilma, que não podia sair de seu confinamento. A poucos metros dessas duas construções, no sopé da colina, ainda há restos de troncos carbonizados, a fogueira onde ardeu a mulher.

Os habitantes dessa comunidade, distribuídos a vários quilômetros ao redor, são gente pobre, camponeses que se dedicam ao cultivo de feijão, à criação de porcos ou de gado. Vivem em cabanas de madeira que parecem tão frágeis que o vento destruidor que açoita a região parece estar a ponto de derrubá-las. São pessoas arredias, que não estão acostumadas com a visita de estranhos. Aqui não há energia ou água corrente. A única ligação com o mundo são os pequenos rádios de pilha que os moradores usam para sintonizar as emissoras religiosas. As crianças correm sujas, algumas cheias de feridas, com as barrigas alimentadas apenas com feijão, arroz e bananas verdes cozidas em fogueiras. A alimentação de cada dia varia apenas em alguma festa religiosa, quando se dão o luxo de comer um pouco de carne. Suas vidas avançam submetidas à fé religiosa. Tudo é em nome de Deus, em primeiro lugar Deus ou se Deus quiser. A fé dita o comportamento. Tratam se de irmãos, respeitam as normas rigorosas impostas pelo pastor, que ordena à mulher submeter-se ao marido e estabelece que seu lugar é na cozinha e na criação dos filhos. Os dias começam às três da manhã e terminam às oito da noite. Todos frequentam os cultos religiosos. O adultério aqui é um crime que se paga com o ostracismo. E todos, sem exceção, acreditam no demônio.

A tortura

Até a manhã de fins de fevereiro de 2017, a maioria dos nicaraguenses nunca tinha ouvido falar de El Cortezal. O horror imposto como tortura contra uma mulher levou essa comunidade às manchetes da imprensa nacional e estrangeira. Na tarde de 15 de fevereiro, Juan Gregorio Rocha, pastor da igreja Visão Celestial das Assembleias de Deus, visitou Vilma Trujillo García na casa de José Granados, cunhado da jovem. Rocha disse que ouvira falar que Vilma estava doente, tinha alucinações, falava sozinha, ignorava as pessoas quando se dirigiam a ela, e por isso decidiu organizar orações de cura em seu nome. A família da mulher, profundamente religiosa, permitiu que o pastor a levasse. Ela foi acompanhada pela irmã de 15 anos, M.T.G. Vilma ficou trancada na casa do pastor até 21 de fevereiro, com mãos e pés atados. O pastor decretou jejum para a congregação e jornadas de oração, enquanto tramava o final de Vilma.

Teve a colaboração de seus irmãos, Pedro José Rocha Romero e Tomasa Rocha Romero. E também de dois membros da congregação, Franklin Hernández e Esneyda del Socorro Jarquín. Pediu-lhes apoio para convencer o resto dos moradores de El Cortezal que frequentavam a igreja Visão Celestial de que Vilma estava possuída pelo demônio. Depois de seis dias de jejum e oração para que Deus revelasse como curar a jovem, Esneyda Jarquín anunciou que tinha recebido uma revelação divina: Deus lhe disse que eles deveriam acender uma fogueira e jogar Vilma no fogo para libertá-la de sua possessão satânica. Tomasa Rocha foi a responsável por ordenar os homens da congregação para recolher lenha para a fogueira, enquanto Franklin Hernández e Pedro Rocha amarraram a jovem pelos pés e mãos a um tronco de árvore localizado perto da fogueira, já acesa. Eles seriam os responsáveis por jogá-la às chamas.

O ritual foi realizado às 5h30. Naquele horário, Esneyda Jarquín disse que era o momento em que todos deveriam se afastar da fogueira para rezar e assim cumprir a ordem de Deus. Pedro e Franklin soltaram Vilma do tronco, que continuava com os pés e mãos amarrados. A jovem, desesperada, opôs resistência. Os homens a jogaram na fogueira e Vilma começou a arder, seus gritos de desespero chegaram à igreja, onde outros membros da congregação estavam rezando, entre eles a irmã de Vilma, que não foi autorizada a sair. O pastor Rocha e seus companheiros deixaram a mulher ardendo. O fogo queimou as cordas que a prendiam, o que possibilitou que ela saísse das chamas, quando seu corpo já estava queimado. A mulher ficou perto da fogueira, sofrendo com as queimaduras.

“Quando eu a vi já estava escuro. Estava toda queimada. Ela se contorcia e dizia ‘ai, ai, ai, eu vou morrer’. O pastor estava alegre e dizia: ‘Você já vai morrer e vai ressuscitar! Quando ela morrer vamos colocá-la na igreja e entregá-la a Deus; ela estará saudável, não terá essas queimaduras’”, diz M. T. G.

Só na tarde daquele dia, depois de sete horas de sofrimento, que o pai de Vilma, Catalino López Trujillo, e seu primo, Roberto Trujillo, puderam resgatá-la e organizar seu traslado para Rosita. Eles a desceram da montanha numa rede.

Ervin Girón é motorista da sede da Ação Médica Cristã (AMC) em Rosita, uma organização de ajuda humanitária que trabalha em regiões pobres melhorando as condições de vida dos seus habitantes. Girón recebeu uma chamada de emergência, disseram que havia uma pessoa queimada em estado grave que deveria ser levada até Rosita. Devido à escassez de equipamentos médicos nesse município da Nicarágua, é comum que a AMC empreste seus veículos para remoções de emergência. Girón viajou com uma enfermeira. “Quando chegamos, ela estava um pouco consciente. Era possível ver a carne viva e uma espécie de casca de pele em algumas partes. Fizemos uma punção venosa. Quando estávamos no caminho pensei que ela iria morrer. Fechou os olhos e a enfermeira tocava nela para que não dormisse. Ela me disse para eu andar mais rápido e o que fiz foi acelerar”, conta o jovem em sua pequena casa em Rosita.

A mulher foi atendida no hospital Rosario Pravia daquela localidade. O doutor David Saravia Flores, diretor do hospital, descreve as condições em que chegou. “Recebemos a paciente em estado grave, com queimaduras de segundo e terceiro grau na face, na parte posterior das orelhas, no tórax, no abdômen, nas coxas e nas pernas. Essas queimaduras são classificadas como não compatíveis com a vida. Foi feita uma lavagem cirúrgica, todos os exames, e preparamos para transferi-la por via aérea a Manágua”, conta o médico. “A dor das queimaduras é o tipo de dor menos tolerado pelo ser humano. Por causa da profundidade e da extensão das queimaduras, estas eram insuportáveis para a paciente. Tivemos de fazer uso de analgésicos bastante fores”, explica.

Rosita é um município localizado no chamado Triângulo Mineiro, formado por duas outras localidades, Suina e Bonanza. As três cidadezinhas são famosas por suas minas de ouro, exploradas por empresas colombianas e canadenses. Das três, Rosita é a única que não tem uma pista de pouso para os pequenos aviões que decolam de Manágua, a única ligação até esses remotos povoados. Para chegar a Rosita é preciso voar até Bonanza e depois alugar um veículo para uma viagem de mais de uma hora por estrada de terra. Qualquer doente grave que necessite de cuidados médicos especializados deve ser levado para Manágua se puder pagar o transporte até Bonanza e o avião para a capital, a um custo aproximado de 200 euros (cerca de 666 reais), uma pequena fortuna para os camponeses pobres que vivem nas montanhas de Rosita.

A viagem de Vilma Trujillo foi um suplício, da montanha até pegar o pequeno avião para Manágua. Sua juventude e força lhe permitiram suportar o tormento. Ela morreu no Hospital Lenin Fonseca, na capital, em 28 de fevereiro, às 4h22 da madrugada.

A Polícia de Rosita, apoiada pelo Exército, chegou até El Cortezal e prendeu doze pessoas. Cinco delas continuam detidas em Manágua, à espera de julgamento por sequestro e assassinato. Trata-se do pastor Juan Rocha, seus dois irmãos e seus dois colaboradores mais próximos. O processo se desenrola sob expectativa nacional, enquanto a família de Vilma se mantém escondida nas montanhas que rodeiam Rosita, temerosa de represálias de seus velhos vizinhos, os membros da congregação que condenaram Vilma à fogueira.

Um coquetel letal

Miuriel Gutiérrez Herrera é uma jovem vivaz que trabalha na Gaivota, uma organização que promove e defende os direitos humanos no Caribe nicaraguense. A entidade tem sede em Rosita, em uma casa de madeira de dois andares, humildemente mobiliada. A sala de Miuriel tem apenas uma cadeira, uma escrivaninha e uma rústica estante onde arquiva os casos que acompanha. Desde que se soube da notícia da queima de uma mulher na fogueira, Miuriel e sua mãe se mobilizaram para apoiar a família.

A jovem demonstra sua indignação com o caso, que, diz, é o resultado de um coquetel letal: a misoginia, um Estado ausente, o machismo e o fanatismo religioso. Mas o mais alarmante, afirma, é que não é a primeira vez que uma mulher é queimada, embora o caso de Vilma tenha sido o mais extremo que acompanharam. Miuriel conta histórias de horror, como a de uma mulher cujo marido queimou as mãos com carvão em brasa ou a de outra que tinha um marido tão obsessivo que a deixava trancada em casa. Quando regressava, a obrigava a ficar nua e cheirava sua roupa para detectar odores estanhos, masculinos. Em uma ocasião a roupa íntima da mulher estava úmida e o homem ficou furioso. Pegou lenha ardendo e lhe queimou a vagina.

Esse tipo de história é a realidade cotidiana que enfrentam as gaivotas, como são carinhosamente chamadas as mulheres da entidade, pessoas corajosas que lutam pelos direitos humanos em uma região machista.

“Este caso está relacionado com o machismo de uma sociedade na qual nós, mulheres, somos punidas”, diz Miuriel. “É mais fácil as autoridades darem atenção a crimes de outra índole e não aos atos criminosos contra as mulheres. Este é um ato muito cruel, misógino e definitivamente anti-humano” acrescenta.

A alguns quilômetros dessa entidade fica a sede das Assembleias de Deus em Rosita. Trata-se de um amplo edifício de concreto no qual se reúnem cerca de 600 pessoas nos dias de culto, das 3.000 que fazem parte da congregação. O templo está sob a direção do pastor Saba Calderón Tobares, presbítero das Assembleias. Nós o entrevistamos numa tarde no início de março, quando estava reunido com outros membros da congregação que faziam estudos religiosos. O pastor Saba não reconhece a responsabilidade das Assembleias de Deus na queima de Vilma Trujillo na fogueira.

“Como Assembleias de Deus nós nunca ensinamos nem aceitamos esse tipo de atividade. O que se passou lá é estranho”, diz o pastor. “Eles fizeram seis dias de jejum para a libertação dessa moça. A intenção era boa, porque se buscava alcançar uma libertação, mas ao recorrer a uma voz estranha o resultado que se vê é morte. É possível que um espírito ou um ser estranho possa se apossar de um ser humano, mas não é algo que deva ser entendido literalmente, que ela deva ser lançada ao fogo. Somos servidores de Deus e esperamos que Deus faça o que tem de ser feito”, justifica Saba.

O pastor afirma que desde que se soube da queima de Vilma sua congregação enfrenta uma onda de condenações que ele teme que possa se traduzir em um fato violento.

O maior drama, porém, é vivido nas montanhas da região do Caribe, cujas comunidades ficaram transtornadas com esse fato chocante. A duas horas de El Cortezal, em uma casa de madeira e com redes como únicos móveis, estão refugiados os pais do pastor Juan Rocha. Trata-se dos idosos Gregorio Rocha e Aura Romero, ambos deficientes: ele tem as mãos destroçadas por uma doença e ela é surda. Estão encarregados de cuidar dos 10 netos, crianças gravemente doentes. Uma delas mal fica em pé, outra tem graves feridas nas pernas e uma das meninas sofre por causa de uma ferida profunda num dos pés, que não foi tratada devidamente. O Estado não chegou até aqui para cuidar dessas crianças abandonadas.

Os idosos estão desesperados e pedem a libertação dos filhos, que são julgados em Manágua depois de terem queimado Vilma em uma fogueira, o caso mais brutal de violência contra as mulheres na Nicarágua, onde ter nascido mulher parece ser um delito que se paga com a fogueira.

Notícia publicada no Jornal El País, em 9 de março de 2017.

Claudia Abreu* comenta

Vemos nesta notícia dois tristes casos que ainda acontecem muito: a violência contra as mulheres e o fanatismo religioso. Essas duas chagas são duas formas violentas contra o ser humano, que deve ter os seus direitos defendidos e preservados, mas não é sempre isso o que vemos. Neste caso da nicaraguense, ela vivia em uma comunidade que a matéria diz ser conservadora e machista, e também com pessoas com entendimentos totalmente errados sobre Deus e sua misericórdia, e que em nome dEle cometeram um assassinato brutal.

Sobre a fé, podemos ver em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, capítulo XIX, que ela pode ser cega ou raciocinada. Sobre o primeiro caso, diz: “Nada examinando, a fé cega aceita, sem verificação, assim o verdadeiro como o falso, e a cada passo se choca com a evidência e a razão. Levada ao excesso, produz o fanatismo”. Sobre o segundo caso, diz: “Somente a fé que se baseia na verdade garante o futuro, porque nada tem a temer do progresso das luzes, dado que o que é verdadeiro na obscuridade, também o é à luz meridiana”. E fala também que: “Fé inabalável só o é a que pode encarar de frente a razão, em todas as épocas da Humanidade”.

Enquanto ainda vemos essas coisas acontecerem pelo mundo afora, por outro lado, vemos muitas pessoas de todos os lugares do planeta clamando por paz, buscando disseminar a tolerância, o respeito e a fraternidade. Teremos um mundo melhor quando soubermos respeitar cada ser e sua individualidade.

Jesus, em nome de Deus nosso pai, veio nos ensinar o amor ao próximo como a nós mesmos e a não julgar para não sermos julgados, mas ainda estamos muito aquém do real entendimento desses e de todos os seus ensinos. Estamos a caminho, é verdade, mas a passos lentos, mas temos a espiritualidade amiga a nos orientar no nosso aprimoramento moral e espiritual.

Por nossa irmã nicaraguense e por tantos outros que já foram vítimas da violência, podemos orar e pedir que sejam amparados pelos Espíritos amigos. E também orar para que haja luz para os que ainda estão com entendimentos equivocados e sintonizados com o mal. E que leis e soluções mais eficazes possam existir para o combate à violência e à intolerância, garantindo os direitos de todos nós habitantes deste planeta.

* Claudia Abreu é espírita e colaboradora do Espiritismo.net