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A Vida do Bebê Kunene

Autor: 
Raphael Vivacqua Carneiro
 

 

O bebê do casal de imigrantes residentes em Londres, Virginia e Nkosiyapha Kunene, faleceu em 2012, aos cinco meses de vida, vítima de raquitismo agudo, doença incomum em países desenvolvidos. O casal é adepto da Igreja Adventista do Sétimo Dia, cujas crenças incluem a abstenção dos alimentos considerados “imundos” pelas Escrituras.
O bebê era alimentado com leite materno e a sua mãe seguia a dieta vegana, que é constituída apenas por alimentos de origem vegetal, não admitindo ovos, nem laticínios. Ela possuía deficiência de vitamina D e isto não foi diagnosticado a tempo de receber os suplementos vitamínicos e evitar a doença.

Desde o nascimento, o bebê apresentou problemas. O casal sabia que o filho não estava bem, mas preferiu apenas rezar pela sua saúde, em vez de buscar tratamento. No dia fatídico, o pai notou que o bebê passava mal e, mais uma vez, apenas orou, recusando-se a chamar o socorro médico. Ele acreditava que recorrer aos médicos seria um pecado, uma demonstração de pouca fé, uma vez que a vida ou a morte do seu filho seria determinada pela vontade de Deus. Diante de tal negligência movida pelo fanatismo religioso, a justiça britânica condenou o casal a três anos de prisão por homicídio culposo. O juiz considerou que o direito de alguém seguir uma religião não pode sobrepujar o direito à vida, principalmente a de uma criancinha indefesa. A Igreja Adventista declarou que a visão religiosa dos Kunene é muito extrema e não reflete a doutrina pregada pela instituição quanto à alimentação e a busca de conselhos médicos.

No tocante à alimentação, a Doutrina Espírita é bem flexível, ao afirmar que a lei divina prescreve que o homem se alimente conforme exija o seu organismo, para que mantenha as suas forças e possa cumprir a lei do trabalho. É permitido ao homem alimentar-se de tudo o que não lhe prejudique a saúde. Entretanto, alguns autores espirituais posteriormente aprofundaram a visão sobre o tema. Em “Missionários da Luz”, o Espírito André Luiz critica o hábito de consumo de carne a pretexto de buscar recursos proteicos. Segundo ele, os homens esquecem-se de que a sua inteligência, tão fértil na descoberta de comodidade e conforto, teria recursos de encontrar novos elementos e meios de prover os suprimentos proteicos ao organismo, sem recorrer às indústrias da morte dos animais. Afirma ainda que tempos virão em que o estábulo, assim como o lar, será também sagrado. Em “O Consolador”, o Espírito Emmanuel afirma que a ingestão de vísceras dos animais é um erro de enormes consequências. Segundo o autor, haverá novos tempos, em que os homens poderão dispensar da alimentação os despojos sangrentos de seus irmãos inferiores. Em “Cartas e Crônicas”, o Espírito Irmão X recomenda diminuirmos a volúpia de comer a carne dos animais, afirmando que o “cemitério da barriga” é um tormento após a transição para além-túmulo.

A prática da oração é uma conduta espírita. A prece é considerada a manifestação de uma lei natural, um sentimento inato que aproxima a criatura ao Criador pela elevação do pensamento, com o propósito de louvar, pedir e agradecer. A prece torna melhor o homem, porque aquele que ora com fervor e fé se faz mais forte contra as tentações e se predispõe a receber o socorro dos bons Espíritos. A resignação perante os desígnios de Deus também é uma conduta espírita. Chegado o momento da morte, a ele não podemos nos furtar. Entretanto, jamais devemos descuidar de tomar as precauções para evitar as ameaças à vida. Segundo ensinam os Espíritos benfeitores, frequentemente as precauções que tomamos são sugeridas pela Providência divina, com a finalidade de evitar a morte que nos ameaça.

A dieta alimentar escolhida pela família Kunene e a sua manifestação de fé por meio da oração e da resignação não merecem qualquer ressalva, do ponto de vista espírita. Todavia, o aspecto contra o qual todos devemos nos precaver, é a fé cega, reflexo da ignorância. “Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade”. A fé cega aceita, sem verificação, tanto o verdadeiro como o falso, e a cada passo se choca com a evidência e a razão. Levada ao excesso, produz o fanatismo. Assentada no erro, cedo ou tarde desmorona. Aqueles que resistem à divina lei do progresso serão arrastados pela força dos acontecimentos. Apesar de encararem as coisas de pontos de vista distintos, Ciência e Religião não se repelem mutuamente; ao contrário, complementam-se.

Deus reservou ao bebê Kunene uma vida breve e digna de compaixão. Contudo, nenhuma existência é em vão; tudo gera aprendizado aos homens, para que o mal não se propague e a luz dissipe a ignorância.

 

13 de Abril de 2015

* Publicado originalmente na revista “A Senda”, da Federação Espírita do Estado do Espírito Santo, em agosto de 2014