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O Céu É de Verdade?

Autor: 
Raphael Vivacqua Carneiro
O filme “O céu é de verdade”, baseado em livro homônimo de Todd Burpo, narra fatos reais e admiráveis passados na pequena cidade Imperial, no interior dos Estados Unidos, em 2003. Todd é dedicado pai de família, dono de um pequeno negócio, voluntário no corpo de bombeiros e na escola local.
É também pastor protestante, benquisto em sua congregação. Apesar de passar por alguma dificuldade financeira, levava uma vida tranquila, até que a sua fé foi abalada, pelos eventos ocorridos com seu filho Colton, de quatro anos. Ele teve uma crise de apendicite supurada e foi submetido a uma cirurgia de emergência, ficando à beira da morte. Temendo a iminente perda do filho, Todd entrou em desespero. A sós, na capela do hospital, despejou toda a sua raiva e frustração: “Deus, depois de tudo o que fiz por você... É assim que você trata os seus pastores?”

Depois de vários dias no hospital, o menino ficou recuperado. A vida dos Burpo aos poucos retornava à normalidade, quando o pequeno Colton causou um abalo ainda maior na família e na comunidade. Ele descreveu reiteradamente, com clareza e serenidade, as experiências que teve durante a sua cirurgia. Ele viu-se afastado do próprio corpo, acompanhando o que se passava no hospital, inclusive a ação dos médicos. Contou que esteve no paraíso, um lugar de muitas cores e luz, onde os anjos cantavam e Jesus veio conversar com ele. Todd mostrou-lhe alguns retratos pintados e perguntou se Jesus era assim. O menino disse que a túnica era igual, mas o rosto era diferente. A riqueza de detalhes e a consistência das narrativas eram incompatíveis com a mentalidade de uma criança tão pequena. O pai entendeu que o filho tivera uma EQM (experiência de quase-morte), mas preferiu atribuir todas aquelas coisas à imaginação infantil.

A situação ficou perturbadora, quando o menino passou a relatar fatos reais que ninguém havia lhe contado. Disse ter visto o pai gritar furioso contra Deus na capela do hospital e a mãe chorar ao telefone na sala de espera. Como ele podia ter visto estas cenas, estando desacordado na mesa de cirurgia? A dúvida inquietava a mente do pastor Todd Burpo – um pregador da palavra de Deus que não conseguia decifrar se estava diante de um sinal dos céus ou de uma mera fantasia. Pela segunda vez era colocado à prova e, novamente, mostrava-se abalado e vacilante. Diante de tantos conflitos íntimos, a congregação cogitou destituí-lo das suas funções pastorais. No fundo, tanto o pastor, como também os fiéis daquela comunidade, via-se crivado de dúvidas sobre o que a própria religião pregava. Afinal, o céu é de verdade?

A situação chegou ao clímax quando o menino Colton contou ter encontrado no céu o seu bisavô Pop, que falecera 20 anos antes e era desconhecido dele. Todd então mostrou uma foto de Pop para o menino e perguntou-lhe se era o homem que havia visto. O menino negou, alegando que não havia pessoas idosas no céu. Ao ver outra foto, em que o bisavô estava jovem, afirmou: “Este é o Pop!” Em seguida, disse que também encontrara no céu a sua segunda irmãzinha e que ela informara ter falecido quando ainda estava no ventre da mãe. Esta gravidez malsucedida havia ocorrido algum tempo antes de Colton nascer, e isto jamais lhe havia sido contado. Como podia saber de todas essas coisas? O pastor enfim rendeu-se às evidências de que o filho realmente tivera uma experiência espiritual, por mais espantosa que fosse.

Tivesse ciência das explicações racionais que o Espiritismo oferece e de todos os relatos da espiritualidade, decerto o espanto do pastor seria bem reduzido e as suas dúvidas seriam sanadas com maior facilidade. Saberia que a alma humana pode emancipar-se do corpo durante o sono, as enfermidades, os fenômenos de dupla vista e outros. Nesse estado, pode vivenciar fatos no plano terreno ou nas dimensões espirituais, entrando em contato direto com outras almas. Ao retornar ao corpo, pode guardar lembrança, vaga ou nítida, desses fatos vividos no plano espiritual. As experiências de EQM são fatos bem naturais, dentro do contexto espírita. As personalidades preservam-se na vida além-túmulo; portanto, o encontro com um bisavô ou uma irmãzinha falecida é algo perfeitamente natural. Os relatos espíritas sobre os planos elevados coincidem com os de Colton: são povoados por Espíritos de luz, com aspecto mais jovial e saudável do que apresentavam em seus últimos dias de vida. Jesus e os anjos que Colton afirma ter visto podem ser Espíritos benfeitores quaisquer; contudo isto não descaracteriza o fenômeno espiritual vivenciado.

Mesmo de posse de todo este conhecimento proporcionado pela Doutrina Espírita e de todos os testemunhos trazidos pela espiritualidade, nós espíritas também somos frequentemente testados e chamados à reflexão. Quantas vezes a nossa fé raciocinada é colocada à prova pela força dos acontecimentos e quantas vezes vacilamos nesses momentos cruciais? A construção da fé é um processo gradual e uma conquista do ser humano; é também uma prova pela qual temos de passar. O divino mestre advertia os seus discípulos: “Ó raça incrédula, até quando estarei convosco?” Quando tivermos a fé do tamanho de um grão de mostarda, nada nos será impossível.

13 de outubro de 2014