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O feitiço do tempo

O Feitiço do Tempo

Raphael Vivacqua Carneiro



Phil Connors, personagem interpretado pelo ator Bill Murray na comédia “Feitiço do Tempo”, de 1993, era um arrogante apresentador de TV que fora enviado a uma cidadezinha interiorana para cobrir uma festa tradicional que ocorria todo ano, no dia 2 de fevereiro.


Egocêntrico e vaidoso, menosprezava
os seus colegas de trabalho, por não considerá-los à sua altura. Da
mesma forma, desprezava a cidadezinha, os habitantes e seus costumes,
bem como a tarefa para a qual fora designado.
Logo após a breve cobertura do evento, o seu desejo era
retornar imediatamente à cidade grande; porém uma forte nevasca
obrigou-o a lá permanecer mais uma noite, para seu desprazer. Mal sabia
ele que o seu pesadelo estava apenas começando: uma maldição caiu sobre
ele, fazendo-o acordar todas as manhãs naquela mesma cidadezinha,
repetindo o mesmo dia 2 de fevereiro, envolvido com as mesmas pessoas.

Como não tivesse a menor ideia de como livrar-se daquele feitiço, tentou as mais diversas estratégias de ação, gerando situações e resultados que oscilavam entre o cômico e o trágico, incluindo tentativas de suicídio. Contudo, nada era capaz de libertá-lo; pois, a cada manhã seguinte, ele despertava para iniciar o dia 2 de fevereiro novamente. Ao contrário dos demais personagens, que agiam a cada dia como da primeira vez, sem qualquer lembrança anterior, Phil recordava-se de todas as suas experiências vividas nos dias anteriores, desde que o feitiço entrara em vigor. Isso lhe proporcionava um aprendizado privilegiado sobre as reações das pessoas a cada palavra ou ação que fosse empregada por ele.

No meio de tantas desventuras e desesperança, Phil encontrou um objetivo na vida: conquistar o amor de Rita, sua bela e doce colega de trabalho que sentia antipatia pela arrogância dele. O desafio era transformar essa antipatia em amor num curto período de 24 horas; pois, a cada manhã, o feitiço fazia com que a memória de sua amada fosse apagada. Ele começou a aprender tudo aquilo que sensibilizava o coração de Rita: poesia, arte, música e, principalmente, a prática de atos generosos e solidários para com as pessoas comuns. Quando finalmente ele conseguiu amá-la de verdade e ser correspondido, o feitiço se quebrou e ele se libertou do castigo de repetir indefinidamente o dia 2 de fevereiro.

Colocando à parte a fantasia do enredo, chama a nossa atenção o paralelo que pode ser traçado entre o feitiço que recaiu sobre este protagonista e as nossas próprias histórias de vida como espíritos imortais, que passam por incontáveis ciclos de reencarnações. Assim como o nosso herói atormentado, nós também habitamos temporariamente um local que não nos agrada, pois o nosso planeta ainda se encontra moralmente distante dos mundos felizes; nós também convivemos com cidadãos próximos cujas imperfeições nos incomodam, por sermos nós mesmos arrogantes e imperfeitos; além disso, numa aparente forma de castigo, nós despertamos, no berço de cada nova reencarnação, neste mesmo mundo, rodeados pelos mesmos habitantes, para repetirmos as lições mal aprendidas. O ciclo se repete indefinidamente, até que a aquisição do amor e da sabedoria nos liberte. Este aprendizado gradual é viabilizado pelo fato de que as nossas experiências vividas em cada existência não se perdem; ficam acumuladas nos escaninhos da alma. Cada dia 2 de fevereiro na vida de Phil Connors assemelha-se a uma existência reencarnatória para cada um de nós.

31 de março de 2014