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150 ANOS - Homenagem à Revista Espírita

150 ANOS - Homenagem à Revista Espírita
Enrique Eliseo Baldovino



No mês de janeiro de 2008 comemoramos o Sesquicentenário da Revue Spirite, de Allan Kardec, isto é, os 150 anos do lançamento dessa Obra monumental, em 12 brilhantes volumes, que complementam o excelente Pentateuco Kardequiano.


A Revista Espírita esteve sob a segura direção do eminente Codificador do ano de 1858 até 1869. Como sincero tributo de reconhecimento ao ingente esforço do seu Autor para plasmar tão importante Obra como legado para a Humanidade – em colaboração com os Espíritos superiores –, traduzimos ao português, a seguir, alguns parágrafos do Prólogo-homenaje a Allan Kardec, que encontra-se nas primeiras páginas da nossa tradução do francês ao espanhol do Ano de 1858 da Revista Espírita,(1) Edições CEI – Conselho Espírita Internacional:


Sexta-feira, 1º de janeiro de 1858. É lançada em Paris a Revue Spirite - Journal d’Études Psychologiques, de Allan Kardec, publicada sem interrupção pelo insigne Codificador do Espiritismo até o mês de abril de 1869. Apesar de Kardec ter desencarnado na quarta-feira 31 de março desse mesmo ano, já havia deixado preparada a Revue de abril de 1869, tal era sua organização, disciplina e esforço exemplares, qualidades – entre tantas outras – que caracterizaram o mestre de Lyon, junto ao seu inconfundível bom senso. Sua generosidade, desprendimento e idealismo fazem-no custear todas as despesas com a publicação da Revista, por sua própria conta e risco, assim como o tinha feito quase nove meses antes com O Livro dos Espíritos. Lança o primeiro número histórico da Revista Espírita com 36 páginas, e o sucesso espiritual haverá de acompanhá-lo em sua periodicidade mensal, tendo como escritório de redação do Jornal, em essa época, sua própria residência: rue des Martyrs, 8 (rua dos Mártires, nº 8).


A Revista Espírita - Jornal de Estudos Psicológicos é uma Obra monumental e magnífica em todos os sentidos, desde o ponto de vista histórico, literário, científico, filosófico, religioso etc. Tal qual o seu ilustre Autor, as páginas da Revue possuem enorme bagagem cultural do mais alto valor, constituindo-se em uma síntese de grande conteúdo biográfico, ético-moral, geográfico, astronômico, político, artístico e doutrinário propriamente dito. São exatamente 4409 páginas de Luz no original francês (que temos a imensa honra de traduzir) se somarmos os onze anos e quatro meses de publicação dos seus doze volumes, sob a atenta direção de Kardec. Portanto, desejamos homenageá-lo como digno mensageiro de Jesus, que confiou ao Codificador a sublime missão de restabelecer todas as coisas e, junto dos Espíritos superiores, instalar para sempre na Terra o Consolador Prometido pelo Espírito de Verdade, Paracleto que nos ensinará todas as coisas e que nos fará recordar tudo o que o Cristo nos disse. [...]


Sem os limites naturais de um livro, a Revista é, então, o complemento indispensável do Pentateuco Espiritista, já que desenvolve, explica, amplia e ilustra, com a lógica de aço de Kardec, os raciocínios expostos pelos Espíritos que revelaram a magna Doutrina. Eis a verdadeira importância deste gigantesco manancial da Revue Spirite no conjunto da Codificação Kardequiana. [...] Com suas leituras em dia de vários diários e obras literárias, científicas, filosóficas e religiosas, o mestre lionês era um homem bem atualizado e muito partícipe nos meios de difusão contemporâneos. Constantemente retirava dos periódicos de todo o mundo artigos que analisava sob a ótica espírita, transcrevendo muitos deles na Revista, a fim de serem estudados doutrinariamente.


Para que possamos ter uma clara idéia da grande utilidade prática da Revue no conjunto da Codificação, citamos a seguir uma esclarecedora Nota de Kardec colocada no subcapítulo intitulado Doutrina dos anjos decaídos e da perda do paraíso, item 43 e seguintes do capítulo XI de A Gênese,(2) Obra publicada em 1868: “Quando, na Revue Spirite de janeiro de 1862, publicamos um artigo sobre a interpretação da doutrina dos anjos decaídos, apresentamos essa teoria como simples hipótese, sem outra autoridade afora a de uma opinião pessoal controversível, porque nos faltavam então elementos bastantes para uma afirmação peremptória. Expusemo-la a título de ensaio, tendo em vista provocar o exame da questão, decidido, porém, a abandoná-la ou modificá-la, se fosse preciso. Presentemente, essa teoria já passou pela prova do controle universal. Não só foi bem aceita pela maioria dos espíritas, como a mais racional e a mais concorde com a soberana justiça de Deus, mas também foi confirmada pela generalidade das instruções que os Espíritos deram sobre este assunto. O mesmo se verificou com a que concerne à origem da raça adâmica”.


Eis porque a Revista Espírita – nas próprias palavras de Kardec – tornou-se um poderoso auxiliar na implantação do Movimento Espiritista e na elaboração da Doutrina, ao desenvolver os postulados em toda a sua extensão, apresentando uma considerável variedade de casos e aplicações, além de servir como meio de correspondência direta com os leitores. [...] Assim como a própria Doutrina dos Espíritos, a coleção da Revista Espírita é um grande oceano, do qual encontramo-nos somente na praia e acreditamos que o conhecemos em sua profundidade. Por isso urge a necessidade de estudar-se a fundo esta magna Obra, grandioso documentário que tem servido a Kardec de vasto campo experimental e de amplo laboratório de idéias, auscultadas nas centenas de cartas recebidas, onde ele sondava as reações da opinião pública, sedenta do saber espiritista. A rigorosa pesquisa científica de Kardec é digna de menção.


É por tudo isto que o estudo profundo da Revue há de contribuir para uma ampliação de conhecimentos e, por conseqüência, para a formação de uma sólida cultura doutrinária. Através de suas luminosas páginas participamos ao vivo da História da Doutrina Espírita – passo a passo –, das árduas lutas e vitórias do Codificador, assim como das calúnias e mentiras dirigidas contra ele pelos adversários do progresso. A Revue Spirite está inscrita com letras maiores nos Anais do Espiritismo, porque é a narração de sua própria história e da detalhada exposição dos acontecimentos dignos de memória, que a posteridade jamais poderá esquecer. Era Kardec quem redigia integralmente a Revista e quem cuidava de toda sua volumosa correspondência e remessa, tarefa hercúlea que consumiria todo o tempo de uma pessoa comum. Isto era apenas uma parte dos seus trabalhos, pois também tinha o compromisso com a codificação e edição dos outros Livros, com o Movimento Espírita nascente, com a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas – da qual era Presidente –, com sua esposa Amélie-Gabrielle Boudet, com as centenas de visitantes anuais que queriam saber mais sobre a Doutrina, com as viagens doutrinárias... Esse era o homem singular e o espírita exemplar Allan Kardec, que se havia olvidado de si mesmo para consagrar-se por inteiro à Causa e Razão da sua vida: o Espiritismo.


Na Revista conhecemos também o caráter, o retrato e a estatura moral do homem Allan Kardec. Aqui, esclarece e consola pessoalmente a uma mãe desesperada pela desencarnação de sua filhinha, e também a um filho que sofre as saudades do seu falecido pai; ali, colabora diretamente na recuperação de um médium obsidiado; cá, conversa na sessão mediúnica com um criminoso, com tanto respeito e carinho que o faz emocionar e querer mudar de vida; acolá, incentiva donativos para as vítimas de epidemias ou oferece assinaturas gratuitas da Revue para os pobres. Essas “minúcias” tão importantes encontramo-las na Revue Spirite.


Por outra parte, várias páginas da Codificação – literalmente ou em parte – tiveram suas origens na Revista Espírita (RE), como por exemplo o quinto artigo da RE de outubro de 1858–V: Teoria do móvel de nossas ações, pp. 425-428. Deste artigo derivou-se, com poucas modificações, a extensa questão nº 872 da 2ª edição definitiva (20/03/1860) de O Livro dos Espíritos, sob o título: Resumo teórico do móvel das ações humanas. Outro interessante e comovente artigo o encontramos na RE ago. 1858–II: A Caridade, pp. 335-340. Esta bela mensagem está – em menor extensão e sem as nove perguntas que o Codificador fez ao Espírito São Vicente de Paulo – em O Evangelho segundo o Espiritismo, item 12 (Instruções dos Espíritos - A beneficência) do cap. XIII. Por modéstia e humildade, outras magnas virtudes suas, Kardec retira do texto desta Obra (da 1ª edição de 1864 e também da 3ª ed. definitiva de 1866) as merecidas linhas encomiásticas dirigidas a ele por São Vicente, que diziam: “[...] Há, entre vós, homens que têm a cumprir missões de amor e de caridade: escutai-os, exaltai a sua voz; fazei se resplandeçam seus méritos e sereis, vós próprios, exaltados pelo desinteresse e pela fé viva de que vos penetrarão”.(3)


Por outro lado, com a sua didática inconfundível cria – como bom redator – seções atrativas na Revue, que interessam às variadas camadas do público leitor, seções que com o transcurso dos meses se consagraram como fixas: Conversas familiares de Além-Túmulo, Problemas morais, Bibliografia, Evocações particulares, Variedades, Poesias espíritas, Necrologia, Aos leitores da Revista Espírita, Aforismos espíritas e pensamentos avulsos, Dissertações de Além-Túmulo, Boletim da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, Avisos, Questões e problemas, Correspondência etc. Os artigos seguem uma ordem metódica e uma seqüência tão lógica, que de jeito nenhum poderiam mover-se de lugar sem afetar a coerência da progressão gradativa dos temas e das idéias desenvolvidas. Um claro exemplo de sua magistral concatenação é quando na RE dez. 1858–VI c: Dissertações de Além-Túmulo – O papel da Mulher, pp. 511-513, Allan Kardec publica uma belíssima dissertação do Espírito Bernard Palissy sobre a elevada tarefa-missão das mulheres, e duas páginas depois Kardec conversa por via mediúnica com uma viúva da Índia, que em sua mais recente existência foi obrigada, por costumes e imposições religiosas, a queimar-se viva sobre o cadáver do seu marido (RE dez. 1858–VIII a: Conversas familiares de Além-Túmulo – Uma viúva de Malabar, p. 515.).


Esta é uma das razões que nos aconselham a ler e a estudar Kardec, com preferência desde o começo até o fim sem interrupções, de capa a contracapa, e não pulando ou lendo partes isoladas, para conseguir atingir-se o objetivo precípuo de aproveitar melhor todas as nuances que o Codificador vai semeando em cada artigo – com as suas respectivas citações e remissões –, superando-se constantemente Allan Kardec em cada texto e, ao mesmo tempo, seguindo um seguro roteiro de sensatez irrefutável. [...] A atualidade de Kardec é realmente impressionante. Parece que ontem mesmo escreveu as várias páginas que hoje tanto nos comovem e que são mais atuais do que nunca. Parece que faz pouco tempo que coordenou e sistematizou aquelas comunicações mediúnicas do mais alto valor, com o seu meticuloso critério científico e com a precisão que caracteriza todo o seu trabalho metódico. Sua presciência também é verdadeiramente notável. [...]


Eis a nossa pálida homenagem a esse homem íntegro, em todos os sentidos, a quem tanto devemos os espíritas de todas as latitudes do planeta. Saudamos, então, [...] ao Codificador com os nossos maiores anelos de que o seu excelente e imortal legado seja melhor compreendido. Para finalizar, deixemos a palavra com Allan Kardec, citando seus conceitos sempre sensatos, encontrados na Revista Espírita, na Conclusão do Ano de 1858:


“[...] Seria um fato inusitado nos fastos da publicidade se não nos defrontássemos com contradições, nem com críticas, sobretudo quando se trata da emissão de idéias tão recentes; mas, se de alguma coisa devemos admirar-nos, é de ter encontrado tão poucos contraditores, em comparação com os sinais de aprovação que nos foram dados, e sem dúvida isso se deve bem menos ao mérito do escritor do que à atração suscitada pelo próprio assunto tratado e ao crédito que, diariamente, conquista nas mais altas camadas da sociedade. Nós o devemos também, e disso estamos convencidos, à dignidade que sempre temos conservado diante dos nossos adversários, deixando que o público julgue entre a moderação, de uma parte, e a inconveniência, de outra.


O Espiritismo marcha no mundo inteiro a passos de gigante; todo dia reúne alguns dissidentes pela força das coisas; e, se de nossa parte podemos lançar alguns grãos na balança desse grande movimento que se opera e que marcará nossa época como uma nova era, não será melindrando nem nos chocando frontalmente com aqueles que queremos justamente conquistar. É por esse raciocínio, e não pelas injúrias, que nos faremos escutar. A esse respeito, os Espíritos superiores que nos assistem dão-nos a regra de proceder e o exemplo. Seria indigno de uma doutrina, que não prega senão o amor e a benevolência, descer até à arena do personalismo; deixamos esse papel aos que não a compreendem. Nada nos fará desviar da linha que temos seguido, da calma e do sangue-frio que não cessamos de demonstrar no exame raciocinado de todos os problemas, sabendo que assim conquistaremos mais partidários sérios para o Espiritismo do que pelo azedume e pela acrimônia. [...]”(4)


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Referências:


(1) KARDEC, Allan. Revista Espírita - Periódico de Estudios Psicológicos (Año 1858). 1ª ed. Brasília: CEI, 2005. Prólogo-homenaje a Allan Kardec, pelo tradutor Enrique Eliseo Baldovino, pp. III-XII.


(2) KARDEC, Allan. A Gênese. 35ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995. Doutrina dos anjos decaídos e da perda do paraíso (Nota de Kardec), tradução de Guillon Ribeiro, pp. 229-230.


(3) KARDEC, Allan. Revista Espírita - Jornal de Estudos Psicológicos (agosto de 1858). 1ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004. A Caridade, tradução de Evandro Noleto Bezerra, p. 336.


(4) KARDEC, Allan. Revista Espírita - Jornal de Estudos Psicológicos (dezembro de 1858). 1ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004. Aos leitores da Revista Espírita, tradução de Evandro Noleto Bezerra, pp. 526-527.