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Mediunidade em casa - Visão Espírita

 
Mediunidade em casa - Visão Espírita

Pedro Vieira



Minha iniciação no Espiritismo ocorreu em um grupo familiar em Niterói – RJ. Toda a família provinha da Umbanda e, por indicação espiritual, abriram em casa tempo semanal para o estudo das obras básicas do Espiritismo, com comunicações de Espíritos familiares ao final. Lá, por orientação do mentor do grupo, comecei meus estudos em um bom Centro Espírita. Nesta Casa, recebi a informação de uma dirigente que esse grupo poderia ser perigoso, por abrir espaço mediúnico dentro do lar. Seria mesmo?
A Doutrina Espírita é preciosa porque não admite achismos. Se não for algo conceitualmente novo, está tudo escrito, explicado e comprovado em Kardec. Quando categorizou os tipos de reuniões espíritas, o Codificador ensinou que, para as instrutivas, eram quatro os requisitos básicos: a seriedade (“quando se ocupam exclusivamente de coisas úteis”), a unidade de pensamentos e propósitos (“uma reunião é um ser coletivo”), o recolhimento (“condição sem a qual não se pode lidar com Espíritos sérios”) e a regularidade (“os Espíritos se preparam antecipadamente a comparecer e é raro faltarem”). Teria o mestre de Lyon esquecido algum item importante?

Kardec preocupou-se em listar, em vários locais e repetidamente, em especial em O Livro dos Médiuns, os inconvenientes e perigos da prática espiritual solitária, em que o médium iniciante, isolado, especialmente sem estudo adequado, é campo aberto para um perigoso gênero de obsessão: a fascinação. Não tratamos aqui deste caso.

Foi em maio de 1855 que Rivail observou pela primeira vez os fenômenos mediúnicos em uma reunião... na casa da Sra. Plainemaison. Obstariam alguns que, obviamente, ali não havia os grupos espíritas. Se observarmos, entretanto, a trajetória de Allan Kardec já depois de fundada a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, nos surpreenderemos com sua postura em relação à mediunidade: no teatro, evocando o Espírito do autor da ópera, Weber (em O Livro dos Médiuns), lendo a mão na senhora De Cardonne (em Obras Póstumas), obtendo comunicação do confrade Sanson durante o enterro de seu corpo no cemitério (em O Céu e o Inferno), visitando dezenas de médiuns (entre eles os de espetáculos públicos, os sonâmbulos, os que viam em copos de água, etc.) conforme relatado na Revista Espírita, etc. Seria o Professor um irresponsável? Ou, supondo-se sendo uma criatura excepcional – posição em que jamais se colocou –, por que deixaria como exemplo e orientação tais escritos?

Chico Xavier realizava rotineiramente, em sua casa, e não apenas no Centro Espírita, reuniões de Evangelho no Lar onde obtinha comunicações espirituais, muitas das quais formaram muitas páginas dos belíssimos livros que conhecemos. Os reconhecidos médiuns espíritas Divaldo Franco e Altivo Pamphiro sempre mantiveram esse hábito, com absoluta tranquilidade. O livro “Diálogo com as sombras” (FEB), de Hermínio C. Miranda, considerado básico para os trabalhos de desobsessão, foi escrito completamente baseado em experiências mediúnicas em grupo que se reunia em sua casa, em Botafogo. Estariam todos esses e outros ilustres companheiros simultaneamente equivocados?

Parece claro, portanto, que não é o local físico nem seu título que determina o bom resultado de um conclave espírita, mas a composição de seu material humano, começando pelos encarnados. Não é a fachada onde se lê “Centro Espírita” que atrai para si trabalhadores que trazem proteção aos serviços espirituais ali realizados. Tal imaginário vem de atavismos religiosos do passado, que misticamente atribuía às igrejas solo sagrado onde “o demônio não pisava”.

Significa, por isso, que devemos então abrir nossos lares a todo gênero de reuniões mediúnicas? Que devemos, irrestrita e impensadamente, começar por nós mesmos exercícios espirituais em nossas casas? Obviamente não. Possivelmente temendo essa confusão por desinformação, alguns dirigentes espíritas acharam por bem uma “proibição” absoluta, numa repetição outra vez atávica, como se o Espiritismo, a exemplo de algumas religiões, pudesse possuir uma casta de instruídos e uma massa a ser conduzida, pensamento em si absurdo. Ao invés disso, destacaremos os pontos a serem pesados e os limites que o bom senso e a utilidade ditam para o local apropriado para cada gênero de prática mediúnica.

A força de um grupo está em sua capacidade de auxílio mútuo, tanto no estudo quanto na prática espírita. Lá o mais experiente orienta o menos, os conhecimentos culturais e doutrinários se somam, o bem-querer mútuo permite a franqueza de análise quando há qualquer desvio, etc. Há inconvenientes no uso do lar particular para atingir os critérios kardequianos, porque lá existem outras atividades possíveis em paralelo – telefones, aparelhos audiovisuais, visitas inesperadas –, além de exigir um equilíbrio espiritual compatível com os serviços que ali seriam feitos. Tal não é, como vimos, impossível nem antidoutrinário, mas requer cuidados.

É natural, portanto, que o gênero de comunicações domésticas obedeça aos imperativos espíritas e esteja coerente com o momento aprazado, de contato com Espíritos familiares no Evangelho no Lar, se for o caso, por médiuns já treinados e ativos em suas Casas Espíritas e jamais isolados.

Trocando o mito pelo conhecimento, o tabu pela precaução, a mensagem espírita desmistifica a realidade espiritual e só assim contribui de uma forma consistente para uma prática mais responsável por todos. E nem Altivo, nem Divaldo, nem Chico e nem Kardec, afinal, estavam errados...

24 de março de 2014