Espiritismo .NET

TCI e Espiritismo

TCI e Espiritismo
Pedro da Fonseca Vieira



“Mais tarde, a eletricidade fará sua revolução medianímica, e como tudo será mudado na maneira de reproduzir o pensamento do Espírito, não encontrareis mais dessas lacunas, algumas vezes lamentáveis, sobretudo quando as comunicações são lidas diante de estranhos.” (GUTEMBERG, em Revista Espírita, abril de 1864, “O Espiritismo e a franco-maçonaria”).


É difícil imaginar alguma inovação tecnológica dos últimos 50 anos em que a eletrônica não tenha tido participação direta e determinante. O domínio sobre as pequeníssimas potências elétricas tem permitido o desenvolvimento de soluções antes impossíveis que se traduzem em conforto, saúde e, de forma especial, facilidade de comunicação.


Por outro lado, a história está recheada de fenômenos de comunicações mediúnicas, das quais as de efeitos físicos chamam especial atenção, normalmente se utilizando de um instrumento para sua efetivação. Quem não se recorda do tabernáculo construído para a comunicação do Espírito Yhvh com o povo hebreu, da telegrafia espiritual ocorrida com as Irmãs Fox nos EUA ou das mesas girantes em todo o mundo no século XIX?


A questão a ser levantada é: seria possível que os Espíritos, que se têm utilizado de todas as formas possíveis de contato com o mundo físico desde a Antigüidade, também utilizem a nova instrumentação disponível para a comunicação com o mundo físico? A opinião de Thomas Alva Edison, o grande inventor da lâmpada elétrica, foi dada à revista Scientific American em uma entrevista na qual afirmou: “É razoável concluir que aqueles que deixam a Terra desejarão se comunicar com os que aqui ficaram. Inclino-me para acreditar que essa personalidade será capaz de afetar um aparelho. Tal instrumento, quando disponível, deverá registrar algo”.


A próxima questão é: o que o Espiritismo pode oferecer como subsídios para o entendimento desse fenômeno, supondo-o possível?
Toda comunicação que envolva mediunidade de efeitos físicos obedece à mecânica ilustrada abaixo e se difere do processo da mediunidade de efeitos inteligentes por empregar um tipo especial de energia (ou fluido) vital do doador que se convencionou chamar de ectoplasma. Para o leitor atento, recomendamos o estudo de O Livro dos Médiuns, em especial os capítulos I, II, IV e V da 2ª parte.



Figura 1 - Esquema geral da mediunidade de efeitos físicos


A ação dos Espíritos é sobre os objetos materiais, o que nos faz questionar o que seria matéria. Uma onda eletromagnética, como a luz, por exemplo, é matéria? Segundo O Livro dos Espíritos, em sua questão 27, existem no Universo três elementos gerais: Deus, Princípio Espiritual e Princípio Material. Não sendo a luz nem Deus nem Espírito, só lhe resta encaixar-se, de alguma forma, no conceito de matéria, o que corresponde exatamente às modernas abordagens físicas. Seria, portanto, teoricamente, possível que um Espírito agisse sobre uma onda eletromagnética, fazendo com que ela reproduza seu pensamento, de alguma forma. Esse é o princípio de funcionamento da chamada comunicação dos Espíritos através de aparelhos eletro-eletrônicos, que ganhou o nome de Transcomunicação Instrumental, a partir da década de 1980.


O impulso natural é considerar que tal ação seria mais difícil para os Espíritos, principalmente quando pensamos nos aparatos cheios de botões que permeiam nossas vidas, de um simples controle remoto a uma moderna cabine de avião. Será verdade? A eletricidade é descrita em O Livro dos Espíritos, questão 27-a como “matéria mais perfeita, mais sutil e que se pode considerar independente”. Ao mesmo tempo, o ambiente onde vivem os Espíritos é tratado magistralmente na obra “A gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo”, capítulo XIV, em especial item 5, onde, sob o título de “fluidos espirituais”, é definido como material, porém muito menos grosseiro que a matéria do mundo físico. A Figura 2 ilustra, portanto, a gradação material de que tratamos anteriormente.



Figura 2 - Gradações de níveis de sutileza de matéria


Consideramos, por fim, que as possibilidades tecnológicas do mundo espiritual são muito maiores do que as do mundo físico. Este fato nos permite supor a maior facilidade de comunicação, por proximidade de sutileza material, da TCI em relação aos fenômenos de efeitos físicos comumente relacionados na literatura, como transporte e levitação de objetos, pirogenia, tiptologia, sematografia, pneumatofonia, pneumatografia, materialização de Espíritos, entre outros. Esta é uma diferença qualitativa.


Outra diferença, essa mais simples por ser conseqüência direta das nossas conhecidas leis da física do mundo material, é a quantitativa. A mecânica clássica nos informa que a potência necessária para erguer uma mesa, de, digamos, pouco mais de 10kg de massa, a 10cm de altura, em 10 segundos, é de aproximadamente 1W (Watt) – exemplo esse bem próximo da realidade das mesas girantes do século XIX. Se considerarmos a potência necessária para modular um sinal de rádio AM (o sinal modulante representa a parte “inteligente” da comunicação), por exemplo, chegaremos a números da ordem de 0,000001W, ou seja, 1 milhão de vezes menos energia. As constatações parecem nos apontar no sentido de uma facilidade maior para se ouvir a voz de um Espírito no rádio do que se produzir outro fenômeno físico qualquer.


O que caracteriza alguém como sendo médium de efeitos físicos, se todos os seres humanos exteriorizam incessantemente fluido vital e ectoplasma? A quantidade e a qualidade desse fluido devem ser superiores ao limiar mínimo requerido para o fenômeno. Para termos de comparação, seria como tentar usar um motor de geladeira para mover um caminhão: sem uma potência mínima, o movimento é impossível. Supondo se deseje o movimento, há duas saídas: providenciar um motor de caminhão (raro) ou usar o motor disponível para mover um carrinho de rolimã (mais abundante). A Transcomunicação Instrumental propõe abaixar o limiar necessário à produção dos fenômenos de efeitos físicos, já que os aparelhos eletrônicos já fizeram uma parte para nós. O efeito imediato é que o número de pessoas capazes de produzir esse fenômeno será muito maior do que para levantar uma mesa. Esse fato tem gerado confusões nos pesquisadores, alguns afirmando, por isso, que a intervenção de um médium é dispensável – o que é um erro conceitual.


Corroborando com toda a teoria, de fato, a história registra diversos contatos feitos pelos Espíritos através dos mais diferentes aparelhos nas mais variadas épocas. Em 1909, Augusto de Oliveira Cambraia registrou um seu invento, o Telégrafo Vocativo Cambraia, com os seguintes dizeres em relação a seu objetivo: “transmissão de correspondência universal, sendo feito com Espíritos iluminados. Serve para obter da falange de Espíritos a correspondência para o engrandecimento moral e espiritual do Planeta Terra”. O inventor do rádio, padre Roberto Landell de Moura (foto 1), costumava andar com uma caixinha preta com a qual freqüentemente falava em italiano.


                                      


         Foto 1 - Landell de Moura                      Foto 2 - Friedrich Jürgenson


Mas foi a partir de 1959 que se considera oficialmente o início das pesquisas na área das ditas “vozes eletrônicas”, quando um ornitólogo e produtor artístico poliglota chamado Friedrich Jürgenson (foto 2), ao tentar gravar o canto de um pássaro diurno (tentilhão), captou ruídos e uma voz masculina que se expressava a ele em norueguês, além do canto de um pássaro noturno (alcaravão). Interessado no fenômeno e certificando-se de que o equipamento funcionava a contento, prosseguiu e conseguiu centenas de outras, em reuniões específicas para tanto.


Já no fim da década de 1960, o psicólogo e bacharel em letras Konstantin Raudive (foto 3), discípulo de Carl Gustav Jung, após reunir mais de 72.000 frases gravadas, atesta a individualidade da entidade comunicante, um passo importante nas pesquisas que se desenrolariam dali.


                            


              Foto 3 - Konstantin Raudive                         Foto 4 - George Meek 


Mas foi na década de 1980 que as pesquisas receberam o seu mais forte impulso, com o grupo que desenvolveu um aparelho específico para a comunicação com o mundo espiritual – o Spiricom. O engenheiro eletrônico e grande inventor estadunidense George William Meek (foto 4) investiu mais de US$ 600.000,00 em pesquisas e, após o concurso de William John O’Neil (foto 5), reconhecido médium de efeitos físicos e técnico em eletrônica, obteve interessantíssimos resultados com o Spiricom geração Mark IV (foto 6) e deixou em fase de planejamento desdobramentos do projeto para os anos vindouros.


                     


              Foto 5 - Bill O´Neil                          Foto 6 - Bill O´Neil e o Spiricom


Hoje em dia, vários são os pesquisadores e associações que se dedicam ao estudo e à prática da Transcomunicação Instrumental. A AA-EVP (Associação Americana para o Fenômeno das Vozes Eletrônicas) realizou congresso de grande sucesso, reunindo pesquisadores de várias partes do mundo. Na Europa não foi diferente. Pesquisadores também se reuniram na cidade de Vigo, na Espanha, para o segundo encontro, com o objetivo de tratar do assunto, este com foco bastante científico. No Brasil, encontramos diversos pesquisadores espíritas e não espíritas que se dedicam à análise das comunicações transcendentais através de aparelhos eletrônicos, em especial o saudoso Dr. Hernani Guimarães Andrade, um dos maiores investigadores espíritas que o mundo já conheceu, e, atualmente a autora de vários livros, Sonia Rinaldi, e o parapsicólogo espírita Clóvis Nunes, entre outros.


Os grupos espíritas precisam, ao retomar o caráter investigativo científico da Doutrina Espírita, tão valorizado pelos autores clássicos do Espiritismo, em especial o Prof. Allan Kardec, seu codificador, se organizar para dedicarem-se também ao assunto. Com esse mote, formou-se em 2002 um grupo de engenheiros, técnicos e médiuns no Centro Espírita Cristófilos, em Botafogo, no Rio de Janeiro – o GEPEC (Grupo Espírita de Pesquisas Eletrônicas Cristófilos) – que tem promovido encontros de estudo e realizado práticas no sentido da melhor compreensão e divulgação dessa possibilidade que nos traz a tecnologia.


A indústria cinematográfica, com o filme “Vozes do Além”, lançado pela Universal Pictures, recentemente, começa a explorar o fenômeno e possui, em sua cópia de DVD, importantes “extras” feitos pela AA-EVP sobre o assunto.


Embora o assunto seja empolgante e promissor, o enfoque espírita indica que toda comunicação com o mundo espiritual deve ter finalidade eminentemente útil e clara. Essa finalidade, como sempre, é proclamar a imortalidade da alma, a existência de Deus e comprovar, mais uma vez, que o amor não morre, consolando, assim, os corações na expressão mais pura da proposta de Jesus, esquecida por tanto tempo. Ele próprio, aliás, profetizara: “Digo-vos, em verdade: se estes se calarem, as pedras clamarão”.


Ó, pedras do mundo moderno, bem-vindas sejam para que os bons espíritos as utilizem para sua tarefa de esclarecimento e de paz!



Leituras recomendadas:


- A Transcomunicação através dos tempos, de Hernani Guimarães Andrade;
- Espiritismo e Transcomunicação, de Djalma Motta Argollo;
- Transcomunicação - Comunicações Tecnológicas com o Mundo dos “Mortos”, de Clóvis Nunes;
- Gravando Vozes do Além, de Sonia Rinaldi;
- Os mortos nos falam, do Pe. François Brune;
- Ponte Entre o Aqui e o Além - Teoria e Prática da Transcomunicação, de Hildegard Schäfer;
- Spiricom Report, de George William Meek (http://www.worlditc.org/h_07_meek_spiri_000_007.htm
).